A fúria dos incels

A fúria dos incels

Multiplicidade de subculturas na Internet, algumas inofensivas, outras nem tanto assim, tem sido motivo de louvor ou questionamento da abrangência da democracia virtual. Internautas conhecidos como “incels” e seus grupos virtuais, são citados frequentemente como exemplo da facilidade, que ideias ou posturas obnóxias podem se transformar em algo convencional. Incel é a sigla da expressão “celibato involuntário”, autoimposta por grupos de homens heterossexuais, na maioria jovens, que se definem pela incapacidade de encontrar um parceiro romântico ou sexual, compartilhando histórias de infortúnio, queixas contra opressores, reais ou imaginários.  

Membros de grupos ou comunidades de incels se reforçam mutualmente, acreditando que aparência e característica pessoal os condenaram a uma existência de solidão, enquanto muitos dos seus pares atiçam as chamas da discórdia com narrativas preconceituosas, teorias que culpam mulheres por suas situações difíceis, sempre apresentando-as como vazias, estúpidas e cruéis, interessadas oportunisticamente em um punhado de homens atrativos, desdenhado os demais.

Em anos recentes, os incels têm construído uma ideologia política fundamentada em queixas de injustiça concretizadas por jovens mulheres bonitas se recusando a ter relações sexuais com eles, baseando suas ações frequentemente em noções de supremacia branca. Julgando-se pouco atraentes e socialmente ineptos, adotam posturas diabolicamente misóginas, sem nunca considerar sua declarada misoginia um fator presuntivo no fracasso em atrair mulheres ou formar relacionamentos.

Internet transforma o medo de fracasso. É fácil enfrentar a paisagem social inclinada a rejeição vivendo online, onde aqueles que se sentem ameaçados ou agravados podem repercutir suas dores, promover narrativas tóxicas, denunciar tudo que não se enquadra em sua visão do mundo ou cometer atos de violência. Eles já se sentem desconectados da sociedade, enfrentando diminuídas oportunidades de emprego, escolaridade deficiente e confusos, de outra forma, com as mudanças em expectativas da atualidade.

Comunidades de incels expõem este fenômeno no seu extremo mais agudo. Irados, homens frustrados discutem em detalhes minuciosos, mulheres que eles acusam de rejeita-los e o impacto de mudanças sociais cridas por um mundo injusto, que se transformaram em obstáculos inescapáveis para o progresso masculino. Contrário a sabedoria convencional, incels não estão procurando sexo, o que eles aspiram é voltar aos tempos de supremacia masculina, visão misógina, que infelizmente se incorporou a narrativa política de forças opostas ao nivelamento de condições de competitividade, paridade salarial e mobilidade ascendente da mulher no mercado de trabalho.

Palmarí H. de Lucena, membro da União Brasileira de Escritores

Comentários

  • Marceleuze disse:

    Prezado amigo cronista.
    Em que pese as injunções de uma sociedade estratificada e socialmente injusta, certos comportamentos ressentidos direcionados ao gênero feminino, são por vezes discursos de misoginia, onde se ocultam propostas de não assumida homosexualidade.

  • Socorro Pimentel disse:

    Uma análise coerente com a realidade social vivenciada pelos grupos vulneráveis.Precisamos partilhar pontos de vista , denunciar e combater esse mal social.

  • Socorro Pimentel disse:

    Uma análise coerente com a realidade social vivenciada pelos grupos vulneráveis.Precisamos partilhar pontos de vista , denunciar os fatos ocorridos e combater esse mal social.

  • Alexandre disse:

    Acabei de ler o seu escrito, Palmari. Cumprimento-o pela lucidez e por tocar, de forma brilhante, na possibilidade nefasta que os algoritmos forneceram a esses perfis psicopáticos, aglutinados pela praga comum da misoginia. Ao se mostrarem sem medo, à luz do dia, revelam-se como nojentas baratas recém saídas das mais podres caixas de gordura de uma sociedade que, ao tentar reafirmar a liberdade de expressão como bem maior (que efetivamente o é) da aso ao ajuntamento desses criminosos. Sabe-se lá o que mais escondem em termos de deformação e toxidade.

  • Neroaldo Pontes de Azevedo disse:

    Seu texto, sempre pertinente, trazendo informações e reflexões bem fundadas.
    Não cabe mais – nunca deveria caber – o discurso malicioso e equivocado da misogenia.

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