Há intelectuais que escrevem livros.
Há outros que escrevem cidades.
Wills Leal escrevia cidades.
Não o fazia com tinta ou decreto, mas com uma obstinação quase pedagógica. Lembro-me dele não como um entusiasta barulhento, mas como alguém que pensava em voz baixa — e com método. Havia, em suas falas, sempre uma mistura rara de imaginação e cálculo. Sonhava, mas sabia fazer conta.
João Pessoa era seu território afetivo. Mas foi no agreste, em Cabaceiras, que sua imaginação encontrou matéria bruta. Onde muitos viam apenas o mapa da escassez — pedra, sol, silêncio — ele enxergou cenário. Onde se repetia o discurso da carência, ele enxergou estética.
Transformar Cabaceiras em “Roliúde Nordestina” não foi um golpe publicitário. Foi um gesto de leitura. Wills leu a paisagem como quem lê um roteiro ainda não filmado. Percebeu que a luz dura do Cariri não empobrecia o território — o definia. Que a ausência de verde não era deficiência, mas identidade visual. Que ali havia cinema antes mesmo das câmeras.
Não era ingenuidade. Era visão.
Recordo que, ao falar de turismo, ele jamais usava o tom folclórico que costuma embalar discursos oficiais. Criticava a tentação de vender apenas “sol e mar”, como se bastasse repetir cartões-postais. Dizia que destino sem narrativa vira paisagem descartável. Que cultura não pode ser figurino exótico para consumo rápido.
E, ao contrário do que se poderia imaginar, sua imaginação vinha acompanhada de pragmatismo. Falava de estacionamentos organizados para não sufocar centros históricos. De fluxo planejado para não destruir a própria experiência turística. De sinalização interpretativa, de integração entre cultura e economia, de continuidade institucional que sobrevivesse aos calendários eleitorais.
“Evento não é política pública”, costumava advertir em síntese.
Outra de suas ideias — que à época parecia simples demais para ser levada a sério — era a criação de um passaporte cultural. O visitante carimbaria os lugares percorridos: igrejas, museus, locações de filmes, mirantes. Não seria souvenir. Seria rito de pertencimento temporário. Transformaria o turista em personagem da própria narrativa.
Ele entendia que turismo não é multidão. É experiência.
Hoje, quando Cabaceiras aparece em reportagens internacionais como uma improvável “Hollywood do sertão”, apenas se confirma o que Wills enxergou antes de todos: que o cinema ali não é adereço, é infraestrutura emocional e produtiva. Que o morador que alterna a cozinha e o set não está improvisando — está participando de uma pedagogia cultural.
Mas talvez sua maior contribuição não esteja apenas nas marcas criadas, nos festivais organizados ou nos livros publicados. Está na mudança de lente. Ele ensinou a Paraíba a se enxergar sem complexo. A perceber que identidade não é limitação geográfica, é construção simbólica.
Num país que frequentemente desmonta suas próprias narrativas, Wills fez o oposto: consolidou uma. Demonstrou que cultura pode gerar economia sem perder densidade. Que planejamento não sufoca imaginação — a sustenta.
Wills Leal saiu de cena. Mas sua obra permanece em cada fachada branca do Cariri, em cada equipe de filmagem que chega, em cada morador que aprendeu a olhar sua própria paisagem com menos resignação e mais consciência estética.
Há escritores que deixam bibliotecas.
Ele deixou um roteiro aberto.
E talvez essa seja a forma mais rara de permanência: quando a memória não é apenas lembrança — é método que continua operando.
Por Palmarí H. de Lucena