Voltei, Recife

Voltei, Recife

Voltei, Recife. Foi a saudade que me trouxe pelo braço. Trouxe-me de volta sem pressa, como quem conhece o caminho e sabe que algumas cidades não se deixam esquecer. No fim da tarde, do Cais de Santa Rita, fico diante da paisagem e tenho a impressão de que o tempo fez apenas uma pausa. O rio corre como sempre correu, o céu se veste de dourado e a silhueta dos edifícios começa a se recortar contra a luz que desaparece.

Olho para as torres das igrejas, para os prédios antigos e para os edifícios que cresceram depois. Recife está diferente, mas ainda reconheço alguma coisa naquele horizonte. Talvez seja uma fachada, uma torre, o desenho de uma rua ou simplesmente a sensação de estar novamente diante de uma cidade que, apesar das mudanças, nunca deixou de morar em mim.

As lembranças chegam sem ordem. Lembro-me dos antigos ônibus elétricos que faziam parte da paisagem do Recife, das viagens pela cidade, das pessoas que se encontravam pelo caminho e das janelas através das quais eu acompanhava as ruas. Lembro-me das casas, das calçadas, das conversas demoradas e de um tempo em que parecia haver mais espaço para observar a vida.

Hoje os ônibus são outros, os prédios cresceram e a cidade ganhou outra velocidade. Algumas casas desapareceram, algumas ruas mudaram de rosto e muitas pessoas que faziam parte daquele Recife já não estão aqui. Mas a memória não obedece às mudanças da cidade. Ela conserva aquilo que o tempo transforma e devolve, quando menos esperamos, uma paisagem, uma voz ou uma tarde inteira.

Foi então que a música de Paulo Moulin voltou à minha lembrança. E os versos de “Recife” parecem perguntar comigo pelo que ficou para trás:

Recife de cantadores
Vivendo da glória, em pleno terreiro
Recife dos maracatus
Dos tempos distantes de Pedro Primeiro
Responde ao que eu vou perguntar:
Que é feito dos teus lampiões?
Onde outrora os boêmios cantavam
Suas lindas canções

Enquanto escuto esses versos dentro de mim, olho novamente para a cidade. Penso nos lampiões que já não iluminam as noites, nos boêmios que ficaram nas histórias, nos maracatus que continuam levando para as ruas a força de uma tradição e nos cantadores que fizeram da cidade matéria de música e de poesia. A pergunta de Paulo Moulin deixa de ser apenas uma pergunta sobre o passado. Passa a ser também uma pergunta minha: o que foi feito daquele Recife que conheci, que ouvi contar ou que aprendi a amar através das lembranças?

Talvez parte dele tenha desaparecido. Mas outra parte continua aqui. Está nas torres que resistem, nas águas do rio, nas pontes, nas ruas antigas e no jeito como a tarde cai sobre a cidade. Está nas canções que atravessam os anos e fazem a gente reconhecer um lugar mesmo quando ele já não é exatamente o mesmo. Está, principalmente, dentro de quem voltou.

Porque voltar não significa encontrar tudo como era. Voltar é descobrir o que permaneceu em nós enquanto a cidade mudava.

No Cais de Santa Rita, percebo que Recife não é apenas uma paisagem diante dos meus olhos. É também um conjunto de ausências. O ônibus elétrico que não passa mais, a casa que já não existe, a voz que não se ouve, o lampião que se apagou, a conversa que ficou interrompida em algum lugar do passado. E, ainda assim, nada parece completamente perdido. Cada ausência deixa uma marca, e é dessa marca que a memória reconstrói a cidade.

A tarde vai terminando. O dourado desaparece do céu, o rio escurece e as primeiras luzes começam a acender nos edifícios. A cidade entra na noite sem deixar de carregar consigo aquilo que foi.

Fico mais alguns minutos olhando o Recife. Talvez seja isso que a saudade tenha feito comigo. Trouxe-me pelo braço até aqui para que eu pudesse perceber que o passado não volta como antes. Ele volta de outro jeito: numa música, numa paisagem, numa lembrança, numa emoção que aparece quando reconhecemos, no Recife de hoje, um pedaço daquele Recife que guardamos para sempre.

Voltei, Recife, e agora entendo que não voltei apenas para rever uma cidade. Voltei para reencontrar uma parte de mim que havia ficado espalhada por suas ruas, pelas suas tardes, pelos antigos ônibus elétricos, pelas casas, pelos lampiões, pelos maracatus e pelas canções.

A noite já tomou o Cais de Santa Rita quando começo a partir. Olho uma última vez para a silhueta da cidade. O Recife permanece diante de mim, diferente daquele que ficou na lembrança, mas ainda reconhecível, ainda meu.

Talvez seja essa a força de uma cidade que aprendemos a amar: ela muda sem deixar de nos pertencer. O tempo leva paisagens, pessoas, costumes e objetos, mas não consegue apagar aquilo que foi vivido.

Por isso, quando a saudade me trouxer novamente pelo braço, sei que não precisarei perguntar o caminho. Bastará olhar para o Recife.

Palmarí H. de Lucena