Venezuela: entre o petróleo, a memória e a difícil arte de recomeçar

Venezuela: entre o petróleo, a memória e a difícil arte de recomeçar

Há países que mudam de governo. Há outros que precisam mudar de época. A Venezuela parece pertencer à segunda categoria. Durante décadas, o país conviveu com uma contradição que o petróleo tornou particularmente visível: extraordinária riqueza natural coexistindo com fragilidades institucionais, desigualdades, ciclos de prosperidade e colapso e uma relação quase permanente entre a economia e as forças políticas que disputam o controle do Estado.

Em 2026, essa história entrou novamente em uma zona de ruptura. Nicolás Maduro foi retirado do poder em janeiro, em uma operação militar dos Estados Unidos, e Delcy Rodríguez assumiu interinamente a Presidência. A Venezuela vive uma transição cuja natureza ainda está em formação, com negociações políticas, abertura econômica, conversas com organismos financeiros internacionais e tentativas de reconstrução institucional, mas também questões sobre o calendário eleitoral e a extensão das reformas.

É tentador olhar para esse momento apenas como uma mudança de governo. Seria, porém, uma maneira estreita de compreender o que acontece. A Venezuela não enfrenta somente uma crise de poder. Enfrenta uma crise de Estado. E crises de Estado não terminam quando um governante deixa o palácio presidencial.

Poucas nações latino-americanas tiveram sua história tão profundamente moldada por uma commodity quanto a Venezuela pelo petróleo. A exploração em grande escala transformou a economia e deu ao Estado uma capacidade de arrecadação que modificou a relação entre governo e sociedade. O petróleo financiou obras públicas, urbanização, infraestrutura e serviços; criou uma classe empresarial, ampliou o consumo e aproximou o país dos grandes mercados internacionais.

Mas também criou dependência. Quando grande parte da riqueza nasce da exportação de um recurso natural, o Estado pode arrecadar muito sem depender, na mesma proporção, de uma economia interna diversificada. A renda do petróleo pode financiar políticas públicas, mas também adiar reformas, reduzir incentivos à diversificação e permitir que governos distribuam riqueza sem enfrentar integralmente os problemas estruturais.

Durante algum tempo, a abundância pode esconder as fragilidades. Quando o dinheiro diminui, elas reaparecem. Essa é uma das chaves para compreender a Venezuela contemporânea. O problema nunca foi simplesmente possuir petróleo. O desafio foi transformar a riqueza do subsolo em uma economia capaz de sobreviver ao petróleo; em instituições que sobrevivessem aos governos; e em um Estado que não dependesse da excepcionalidade de cada ciclo de preços.

É uma questão antiga. E talvez seja justamente por isso que vale voltar a 1969. Naquele ano, Nelson Rockefeller percorreu países do hemisfério a pedido do presidente Richard Nixon e produziu o relatório Quality of Life in the Americas, também publicado como The Rockefeller Report on the Americas. O documento examinava desenvolvimento econômico e social, comércio, investimento privado, instituições, serviços públicos e as relações entre os Estados Unidos e os demais países americanos.

Rockefeller não era um observador distante da América Latina. Tinha longa experiência política e empresarial na região, e seus interesses haviam passado também pela Venezuela. Por isso, seu relatório deve ser lido como documento de seu tempo, produzido a partir da perspectiva de uma missão presidencial norte-americana. Não deve ser transformado em explicação definitiva da história venezuelana.

Há, entretanto, algo particularmente interessante nesse documento. Ele registra perguntas que parecem ter envelhecido menos do que se poderia imaginar: como estimular o desenvolvimento sem aprofundar dependências? Como ampliar o investimento e o comércio preservando a autonomia nacional? Como fortalecer instituições? Como estabelecer uma relação mais equilibrada entre os Estados Unidos e os países latino-americanos?

O relatório também registrava uma autocrítica à postura paternalista dos Estados Unidos em relação aos países do hemisfério e defendia uma relação mais próxima da ideia de parceria. Isso não eliminava os interesses estratégicos de Washington, mas revelava que, já naquele momento, a política norte-americana reconhecia a necessidade de rever sua relação com a América Latina. Mais de meio século depois, essa passagem ganha outro significado. Não porque Rockefeller tivesse previsto a Venezuela de 2026. Não previu. O valor histórico do relatório está em mostrar que algumas das questões que hoje voltam à superfície já faziam parte do debate sobre a América Latina.

O passado não antecipou o presente. Mas certas perguntas se recusaram a envelhecer. A história venezuelana sempre esteve atravessada por uma tensão delicada: como utilizar a riqueza produzida pelo capital e pela tecnologia estrangeiros sem perder o controle sobre os recursos nacionais? A pergunta ganhou novas formas: das grandes companhias petrolíferas à nacionalização e expansão da Petróleos de Venezuela; depois, às sanções, à deterioração da produção, à busca de novos parceiros e à necessidade de capital para recuperar uma indústria cuja capacidade produtiva havia caído drasticamente.

Em 2026, essa velha questão voltou ao centro da cena. Empresas internacionais voltaram a discutir investimentos em petróleo, energia e mineração. A Chevron anunciou um plano de mais de US$ 7 bilhões para ampliar a produção de suas operações conjuntas na Venezuela, enquanto outras empresas avançam em negociações e projetos. A ExxonMobil, que deixou o país após a nacionalização de seus ativos em 2007, voltou a conversar sobre uma possível participação no cinturão do Orinoco.

A questão, portanto, não é simplesmente saber se o capital estrangeiro voltará. Ele já está voltando. A pergunta mais importante é: sob quais regras? Quem fiscalizará os contratos? Quanto ficará no país? Como serão distribuídos os recursos? Que papel terá a empresa estatal? Quais serão os mecanismos de transparência? Como equilibrar a necessidade urgente de investimento com a preservação da capacidade de decisão do Estado venezuelano? São perguntas econômicas. Mas são também perguntas políticas.

A Venezuela chega a esse novo momento depois de anos de contração econômica, deterioração dos serviços públicos, inflação extrema e enfraquecimento institucional. Reconstruir uma economia nessas condições não significa simplesmente aumentar a produção de petróleo. É preciso recuperar estradas, eletricidade, água, hospitais, escolas, crédito, sistemas de pagamento, capacidade administrativa e confiança — e criar condições para que empresas voltem a investir e trabalhadores possam reconstruir suas vidas. Essa dimensão talvez seja menos dramática do que a queda de um governo, mas é muito mais difícil. Derrubar uma estrutura de poder é uma coisa. Reconstruir um Estado é outra.

Há uma ironia na história venezuelana: quando o país precisa desesperadamente se reconstruir, justamente o recurso que durante tanto tempo sustentou o Estado volta a ser a principal fonte de esperança. O petróleo pode financiar a reconstrução. Mas o petróleo, sozinho, não pode construir a Venezuela.

Essa talvez seja a lição econômica mais importante da história recente do país. A reconstrução sustentável dependerá da capacidade de transformar a renda extraordinária do petróleo em algo menos extraordinário e mais permanente: infraestrutura, educação, produtividade, instituições, diversificação econômica e segurança jurídica. Caso contrário, o país corre o risco de repetir a velha equação: quando o petróleo sobe, o Estado respira; quando cai, a sociedade paga a conta.

Nenhuma reconstrução econômica acontece no vazio. Investidores precisam de regras. Trabalhadores precisam de direitos. Empresas precisam de previsibilidade. Cidadãos precisam confiar que contratos serão respeitados e que mudanças de governo não significarão mudanças arbitrárias nas regras do jogo. Por isso, a questão eleitoral permanece no centro da transição venezuelana. Ao mesmo tempo em que o governo interino fala em um processo eleitoral, ainda não existe uma data definida, e as negociações políticas envolvem instituições eleitorais, direitos políticos e reforma do Estado. É nesse terreno que a palavra legitimidade ganha seu peso.

Reconstruir uma economia pode exigir capital. Reconstruir uma democracia exige instituições. E nenhuma das duas tarefas se resolve apenas com a troca de pessoas no poder.

Existe ainda uma questão que o Rockefeller Report ajuda a iluminar, sem resolvê-la. A presença dos Estados Unidos na história venezuelana é antiga. O petróleo aproximou os dois países muito antes das disputas políticas contemporâneas. Empresas americanas participaram da exploração petrolífera venezuelana; Washington tornou-se importante mercado para o petróleo do país; e as relações econômicas foram acompanhadas por interesses estratégicos.

Agora, depois da saída de Maduro, os Estados Unidos desempenham novamente um papel central na reorganização política e econômica venezuelana. Isso produz um paradoxo histórico. A reconstrução depende, em parte, de capital, tecnologia e acesso a mercados internacionais — inclusive norte-americanos. Mas uma reconstrução duradoura precisa também ser reconhecida pelos próprios venezuelanos como um projeto nacional. Essa tensão não é nova. Talvez seja uma das perguntas mais antigas da relação entre a América Latina e os Estados Unidos: como cooperar sem subordinar; como receber ajuda sem perder autonomia; como atrair investimento sem transformar investimento em tutela?

Em 1969, Rockefeller registrava a necessidade de uma relação menos paternalista entre os Estados Unidos e seus vizinhos. Em 2026, a pergunta continua válida, embora as circunstâncias sejam completamente diferentes.

Até mesmo os ativos venezuelanos espalhados pelo mundo passaram a fazer parte da reconstrução. Um dos episódios mais simbólicos envolve cerca de US$ 4 bilhões em ouro venezuelano mantido no Banco da Inglaterra. O governo venezuelano e uma facção da oposição discutem uma fórmula para transferir os recursos aos Estados Unidos, onde poderiam ficar sob uma estrutura de controle destinada a financiar projetos e servir como garantia para empréstimos de reconstrução. O episódio parece financeiro, mas carrega uma dimensão histórica. A riqueza venezuelana, que durante décadas foi símbolo de soberania, encontra-se agora parcialmente submetida a complexas negociações internacionais.

O petróleo está no subsolo. O ouro está em cofres estrangeiros. A dívida está espalhada entre credores. E a reconstrução precisa acontecer dentro das fronteiras de um país que perdeu parte considerável de sua capacidade econômica. É uma imagem poderosa da Venezuela contemporânea: um país tentando recuperar o controle de sua própria riqueza enquanto depende, ao mesmo tempo, de instituições e capitais externos para reconstruir aquilo que perdeu.

Talvez seja cedo para saber o que nascerá dessa transição. A Venezuela de 2026 não é a Venezuela de 1969. Entre as duas existem o chavismo, a nacionalização do petróleo, o colapso econômico, a polarização política, as sanções, a migração em massa, a deterioração institucional e uma profunda transformação da sociedade venezuelana.

Mas existe também uma continuidade. A riqueza do petróleo continua sendo central. A necessidade de investimento externo continua presente. A relação com Washington continua sendo decisiva. A questão da soberania continua aberta. E a construção de instituições capazes de sobreviver aos governos continua sendo um dos grandes desafios nacionais.

É nesse ponto que o velho relatório volta à cena. Não como profecia. Como memória.

Há quase seis décadas, um documento produzido a partir de Washington procurava compreender como os Estados Unidos deveriam se relacionar com uma América Latina em transformação. Hoje, a Venezuela enfrenta uma pergunta diferente, mais íntima e talvez mais difícil: que país pretende construir com os recursos que possui, com as feridas que carrega e com as instituições que ainda precisa reconstruir?

Não há resposta pronta. E talvez seja melhor que não haja. Porque a história venezuelana não será escrita por um relatório americano, por um governo estrangeiro, pelo preço do petróleo ou por qualquer governante isoladamente. Será escrita pela capacidade de uma sociedade transformar riqueza em futuro, memória em aprendizado e mudança política em instituições que permaneçam quando os homens do poder já tiverem partido.

O petróleo pode financiar o recomeço. Mas somente instituições capazes de sobreviver aos ciclos políticos e econômicos poderão fazê-lo durar.

Palmarí H. de Lucena