O ressurgimento do sarampo — doença brutal, capaz de inflamar o cérebro, deixar sequelas permanentes e matar — já seria, por si só, motivo suficiente para alarme. Mas o problema talvez seja ainda maior: ele funciona como sintoma de uma enfermidade mais profunda, silenciosa e politicamente corrosiva — o enfraquecimento da confiança pública na ciência e nas instituições de saúde.
Nos Estados Unidos, mais de 1.700 casos já foram registrados neste ano, um salto dramático diante das cerca de 70 ocorrências anuais verificadas no início dos anos 2000. Três crianças morreram no último ano. Não se trata apenas de estatística: trata-se do retorno de uma tragédia que parecia domesticada pela civilização moderna.
O sarampo, porém, não anda sozinho. Autoridades sanitárias alertam que ele é apenas o “canário na mina de carvão”, a primeira evidência visível de uma falha mais ampla nos programas de imunização. A coqueluche já avança novamente; infecções bacterianas como Hib também preocupam epidemiologistas. Quando a vacinação começa a falhar, o passado retorna com a brutalidade de sempre.
O aspecto mais revoltante desse cenário é seu evitabilidade. Não estamos diante de uma fatalidade natural, mas da consequência direta de anos de campanhas de desinformação, teorias conspiratórias e oportunismo político. Entre seus principais promotores está Robert F. Kennedy Jr., hoje secretário de Saúde do governo de Donald Trump.
Kennedy não apenas relativizou surtos de sarampo, como promoveu tratamentos duvidosos, desmontou instâncias técnicas de formulação de políticas vacinais e alterou recomendações pediátricas sem o devido respaldo científico. O problema deixa de ser retórico quando passa a ser política de Estado.
Há sinais contraditórios. Uma decisão judicial federal bloqueou parte dessas mudanças, classificando-as como arbitrárias e provavelmente ilegais. A indicação da médica Erica Schwartz para dirigir o CDC trouxe algum alívio entre defensores da saúde pública. O próprio Kennedy, pressionado em audiências no Congresso, ensaiou moderação e reconheceu que seu departamento recomenda a vacina contra o sarampo para todas as crianças. Mas a retórica de ocasião não apaga anos de corrosão institucional.
Esse debate não pertence apenas aos americanos. O Brasil conhece bem a fragilidade da memória sanitária. Também aqui o sarampo voltou a circular depois de o país perder, em 2019, o certificado de eliminação da doença. Também aqui campanhas antivacina ganharam terreno nas redes sociais, alimentadas por desinformação, radicalização política e pela perigosa ilusão de que doenças erradicadas deixam de existir.
Vacinas sofrem, paradoxalmente, de seu próprio sucesso. Como impediram surtos devastadores por décadas, muitos esqueceram o horror que essas doenças representavam. O medo da vacina passou a competir com a ausência de memória da doença.
A hesitação vacinal, entretanto, raramente nasce do fanatismo puro. Estudos mostram que apenas uma pequena parcela dos pais rejeita toda forma de imunização. A maioria está apenas ansiosa, confusa, exposta a excesso de ruído e carente de fontes confiáveis. O combate, portanto, exige menos arrogância moral e mais reconstrução de confiança.
Médicos, professores, líderes religiosos e gestores públicos precisam voltar a ocupar esse espaço. Não basta despejar números e jargões técnicos; é preciso traduzir ciência em linguagem humana. Às vezes, a história de uma única criança morta por uma doença evitável convence mais do que uma tabela inteira de evidências.
Também políticas concretas ajudam. Facilitar o acesso com postos móveis em escolas e centros comunitários, reforçar campanhas públicas permanentes e endurecer critérios para isenções não médicas são medidas simples e eficazes. O Estado não pode tratar a vacinação infantil como mera escolha de consumo individual: trata-se de um pacto coletivo de proteção.
Há um dado incômodo, mas essencial: a decisão de não vacinar nunca afeta apenas quem decide. Recém-nascidos, pacientes imunossuprimidos, pessoas em quimioterapia e até vacinados que não desenvolveram proteção completa dependem da chamada imunidade coletiva. Quando ela falha, toda a sociedade paga.
A discussão, portanto, não deveria ser partidária. Defender vacinas não é defender um governo, uma ideologia ou uma corrente política. É defender a ideia elementar de que o progresso humano não precisa ser revogado por capricho ideológico.
Vacinas salvam entre 3 e 5 milhões de vidas por ano no mundo. Não causam autismo. Não são veneno. Não representam uma conspiração. Representam, talvez, uma das maiores vitórias da razão sobre a barbárie.
Abandoná-las seria mais do que um erro sanitário. Seria um ato de regressão civilizatória.
Por Palmarí H. de Lucena