Vá para o Oeste, jovem!
Vá para o Oeste, jovem! A frase, atribuída a Horace Greeley, atravessou gerações como uma convocação ao movimento. No século XIX significava fronteira, expansão, reinvenção. Um século depois, sem compreender inteiramente o peso daquela ideia, eu também seguia para o Oeste.
Escrevo estas páginas antes que a memória comece a apagar detalhes importantes. Escrevo para os que viajaram comigo e para aqueles que herdarão apenas fragmentos desta travessia. Talvez este texto seja menos um livro do que um vestígio — uma tentativa de deixar alguma ordem no movimento contínuo da vida.
Minha viagem começou em 16 de dezembro de 1964.
Naquela manhã embarquei num Caravelle da Panair, no Aeroporto dos Guararapes, no Recife. Nos alto-falantes tocava Perez Prado. Eu levava alguns livros, documentos, a papelada do cobiçado green card americano, um terno comprado para uma cerimônia acadêmica que nunca aconteceria, uma garrafa de vinho Celeste, Água Rabelo, sabonetes Phebo e uma inquietação difícil de nomear.
Por algum tempo ainda não compreendi que emigrantes carregam pequenos objetos como quem protege os últimos sinais de uma terra em desaparecimento.
O Recife afastou-se lentamente sob as nuvens. Os sobrados antigos diminuíram até desaparecer. Sem perceber, eu começava uma viagem que ocuparia grande parte da minha vida.
Atravessei a América num ônibus da Greyhound, de Miami até a Califórnia. O ônibus avançava noite adentro como uma flecha apache cruzando desertos, cidades industriais e postos de gasolina iluminados na madrugada. Havia soldados voltando para casa, trabalhadores rurais, migrantes silenciosos, velhos carregando sacolas gastas e jovens fugindo de lugares que já não conseguiam suportar.
Lembro de uma senhora que me emprestou um casaco ao perceber o frio atravessando minha roupa leve de nordestino. Não conversamos muito. Certos gestos dispensam explicações e permanecem na memória mais do que muitos rostos.
As paradas eram frequentes e o dinheiro curto. Pequenos trabalhos temporários ajudavam a prolongar a travessia. Pela janela, a América passava como um filme irregular: pântanos, desertos, motéis, montanhas, cidades enfumaçadas e longas estradas perdidas no horizonte.
Meu primeiro porto foi a Califórnia. Fresno, Morgan Hill, San Jose, Los Angeles, San Francisco, El Centro, Calexico. Mais ao sul, as cidades da fronteira mexicana — Mexicali, Tijuana — pareciam existir suspensas entre dois mundos. Foi ali que comecei a perceber que os mapas pouco explicam sobre as pessoas que vivem entre linhas imaginárias.
A Califórnia dos anos 1960 fervia em protestos, conflitos raciais e manifestações contra a guerra do Vietnã. Tudo parecia provisório. Tudo parecia prestes a mudar.
Ainda tentando compreender aquele país, ajudei a formar uma organização chamada Mission Rebels, criada para trabalhar com jovens latino-americanos envolvidos com drogas, violência e gangues urbanas. Não tínhamos experiência nem recursos. Apenas a sensação de que permanecer indiferente seria uma forma de fracasso.
O trabalho cresceu rapidamente e me aproximou dos programas comunitários da chamada “Guerra contra a Pobreza”, lançada pelo presidente Lyndon Johnson. A ideia central era simples: pobreza não seria enfrentada apenas com assistência material, mas também com organização social. Era preciso encontrar os invisíveis.
Aprendi cedo que pobreza raramente é acidente. Quase sempre é abandono organizado.
O trabalho levou-me para regiões agrícolas da Califórnia, entre trabalhadores rurais e famílias migrantes vivendo em condições que lembravam As Vinhas da Ira, de John Steinbeck. Organizávamos comunidades, cooperativas improvisadas e pequenas formas de resistência cotidiana. No campo, a pobreza possuía um silêncio diferente.
Em 1968 nasceu minha filha, Michiko.
Durante muitos anos pensei naquele nascimento apenas como uma raiz americana deixada para trás enquanto eu continuava viajando. Eu seguia mudando de país, idioma e paisagem, enquanto sua presença permanecia imóvel em algum lugar da memória — distante, mas nunca ausente.
Na época eu chamava aquilo de acaso.
Hoje penso em kismet.
Décadas mais tarde compreendi que algumas pessoas deixam de ocupar espaço físico em nossas vidas e passam a existir de outra maneira — como uma presença silenciosa atravessando o tempo sem jamais desaparecer completamente.
Embora distante, sua ausência tornou-se permanente dentro de mim. Feita de sonhos breves, lembranças fragmentadas e da sensação persistente de que parte da minha vida permanecera suspensa naquele começo.
Com o tempo aprendi que filhos nunca deixam inteiramente a nossa vida. Mesmo distantes, continuam viajando conosco — silenciosamente presentes nas cidades que atravessamos, nas decisões que tomamos e nas memórias que carregamos sem perceber.
Foi algum tempo depois do nascimento de Michiko que houve um pequeno hiato na minha vida californiana.
Uma pausa breve entre estradas, conflitos sociais e o ruído permanente da América daqueles anos.
Viajei para o Japão.
Na época não compreendi inteiramente o que me atraía para lá. Hoje penso que eu procurava silêncio.
Depois da combustão americana — protestos, pobreza, violência, urgência — o Japão surgiu diante de mim como outra velocidade do tempo. Tudo parecia guiado por uma delicadeza invisível: os gestos contidos, os jardins silenciosos, o som distante da água, a disciplina das ruas, a reverência pelo espaço vazio.
Aquilo me seduziu profundamente.
Entreguei-me ao Japão com a intensidade de quem tenta aprender outra maneira de existir. Aos sons suaves da língua, ao perfume do incenso nos templos, à melancolia discreta escondida nas pequenas coisas, à estética da simplicidade e ao sentimento quase espiritual de quietude que eu precisava naquele momento da vida.
Em Kyoto visitei o Templo Dourado.
Lembro da superfície imóvel da água refletindo o ouro silencioso do pavilhão. Nada parecia precisar de explicação. Pela primeira vez em muitos anos tive a sensação de que a paz talvez não fosse ausência de conflito, mas apenas a capacidade de permanecer imóvel por alguns instantes diante da impermanência do mundo.
O encantamento durou pouco.
Mas certas viagens continuam acontecendo dentro de nós muito depois do retorno.
Anos mais tarde, ao lembrar do Japão, voltaria também à voz de Madama Butterfly esperando diante do mar: Un bel dì, vedremo! Talvez toda ausência longa conserve alguma coisa daquela esperança silenciosa — a sensação de que alguém, em algum lugar do tempo, ainda continua esperando nosso retorno.
Hoje, olhando para trás, percebo que minha viagem nunca foi apenas geográfica. Enquanto atravessava aeroportos, desertos, fronteiras e cidades provisórias, eu tentava compreender algo mais difícil do que distância: as linhas invisíveis que separam pertencimento e exílio, memória e esquecimento.
Depois de tantos anos, restou apenas uma conclusão possível.
Talvez a verdadeira pátria de um homem seja formada pelas pessoas, pelas ausências e pelos lugares que ele nunca conseguiu abandonar inteiramente.
E talvez toda longa viagem seja apenas isso: uma tentativa lenta e imperfeita de regressar ao ponto exato onde uma parte de nós ficou esperando em silêncio.
Por Palmarí H. de Lucena