Um Terreiro Chamado Cordon Bleu

Um Terreiro Chamado Cordon Bleu

Durante muitos anos vivi no exterior. Por isso, minhas visitas a João Pessoa aconteciam quase sempre no Natal. Cada regresso tinha seus rituais: os abraços da família, as notícias dos parentes e, inevitavelmente, alguém anunciava:

— Você precisa conhecer a novidade deste ano.

Cada Natal trazia a sua.

Primeiro foi o Cooper, com as distâncias marcadas na calçadinha da orla. Depois, o Tambaú Hotel, recém-inaugurado, destacando-se à beira-mar. Vieram a Gran Pires, novos edifícios, restaurantes e lojas. Algumas dessas novidades resistiram ao tempo; outras desapareceram depressa. Todas, porém, passaram a fazer parte da cidade que eu reencontrava a cada dezembro.

Foi numa dessas visitas que me recomendaram o Cordon Bleu.

Diziam que era o restaurante mais elegante da cidade: boa cozinha, serviço impecável e um pianista que tocava discretamente, sem competir com a conversa das mesas. Funcionava na Rua Duque de Caxias, no velho centro de João Pessoa.

Aceitei a sugestão sem hesitar.

Numa noite de chuva, tomei um táxi acompanhado de um companheiro de viagem. Antes de fechar a porta, disse ao motorista:

Cordon Bleu.

Ele confirmou com um leve movimento de cabeça e partiu.

Mal nos acomodamos, retomamos, em inglês, a conversa que permanecera em suspenso desde sua chegada. Até então, a presença constante dos familiares tornara pouco natural o uso de uma língua estrangeira. O breve trajeto nos oferecia, enfim, a oportunidade de conversar sem reservas.

Em poucos minutos, estávamos completamente absorvidos pelo reencontro. Enquanto isso, o motorista conduzia o carro com a tranquilidade de quem conhecia cada rua da cidade.

Nada fazia supor que aquela corrida terminaria de maneira muito diferente do que imaginávamos.

Em determinado momento, porém, percebi que já não seguíamos em direção ao centro. Estávamos nas imediações da Bica. O carro parou diante de uma casa simples, perto do antigo lixão. O motorista desceu, conversou com um morador, ouviu atentamente as explicações, agradeceu e voltou.

Seguimos adiante.

Poucos minutos depois, nova parada. Desta vez era um casal. Os dois tentavam ajudá-lo, mas apontavam para direções diferentes e acabaram discutindo entre si, tão intrigados quanto ele.

Nós continuávamos conversando em inglês, alheios ao que acontecia do lado de fora.

A chuva engrossava. As ruas tornavam-se cada vez menos familiares para quem pretendia jantar na Rua Duque de Caxias.

Foi então que interrompi a conversa.

Olhei para o taxímetro e, já sem esconder a impaciência, disse:

— Meu amigo, nasci e me criei em João Pessoa. O senhor está dando voltas para aumentar o valor da corrida.

Ele voltou-se imediatamente. Não havia irritação em seu rosto, apenas surpresa.

— De jeito nenhum, doutor. Estou procurando o lugar que o senhor pediu. Já perguntei a um bocado de gente, mas ninguém sabe onde fica esse terreiro de candomblé.

Fiquei olhando para ele por um instante.

— Terreiro de quê?

— De candomblé.

Só então compreendi o mal-entendido.

— Não, meu amigo… Cordon Bleu. É um restaurante francês.

Ele levou a mão à testa, sorriu e deu uma leve pancada no volante.

— Ah… Agora entendi!

Naquele instante percebi que a injustiça era minha. Enquanto eu desconfiava de sua honestidade, ele percorrera boa parte da cidade tentando encontrar o destino de dois passageiros que, conversando em inglês, pareciam procurar um misterioso terreiro de candomblé.

Poucos minutos depois, chegamos ao verdadeiro Cordon Bleu. O pianista tocava discretamente, os garçons cruzavam o salão sem alarde e a cozinha fez jus à fama da casa.

Na saída, ainda divertidos com a aventura, meu companheiro de viagem resumiu a noite numa única frase:

— Deviam mudar o nome deste restaurante para Bode de Ouro. Seria muito mais fácil de encontrar.

Rimos os três.

Nunca mais encontrei aquele motorista. Muitas vezes pensei que lhe devia um pedido de desculpas. Naquela noite, julguei sua honestidade quando ele apenas se esforçava para cumprir bem o seu trabalho.

Os anos passaram. Voltei a morar em João Pessoa e vi a cidade transformar-se, como todas as cidades se transformam. O Cooper deixou de ser novidade. A Gran Pires desapareceu. O Cordon Bleu também fechou as portas.

Hoje já não me lembro do que jantei naquela noite. Nem do vinho que bebemos. Nem da música que o pianista tocava.

Lembro-me apenas de um táxi atravessando a chuva e de um motorista que, de porta em porta, procurava um terreiro de candomblé que nunca existiu.

Sempre que passo pela Rua Duque de Caxias, imagino aquele carro reduzindo a marcha. Vejo o motorista baixar o vidro e perguntar ao primeiro morador:

— O senhor sabe onde fica o terreiro de candomblé?

Talvez seja isso que permanece das cidades: não os edifícios, nem os restaurantes, mas as histórias que, por um instante, deram vida a esses lugares.

Palmarí H. de Lucena