Quase noventa anos depois de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, o Brasil segue reconhecível — o que não é exatamente um elogio. O livro nasceu como diagnóstico de uma transição inacabada: um país que proclamava a modernidade institucional, mas continuava operando segundo códigos privados, afetivos e personalistas. O contraste com a situação atual revela menos uma superação do problema do que sua adaptação aos novos tempos.
O “homem cordial”, conceito tantas vezes mal compreendido, não era o brasileiro amável, mas o cidadão que rejeita a mediação impessoal das normas. Prefere o vínculo ao contrato, o favor à regra, a proximidade à institucionalidade. O Brasil contemporâneo, mesmo cercado por tecnologias, indicadores e discursos técnicos, ainda funciona sob esse mesmo impulso. A diferença é que a cordialidade perdeu a máscara gentil: hoje, ela se expressa muitas vezes como intolerância seletiva, lealdade cega e agressividade identitária.
Na política, o traço permanece cristalino. O Estado segue tratado como extensão de grupos, famílias e facções, não como patrimônio comum. A liturgia democrática é preservada — eleições, discursos, ritos formais —, mas o funcionamento real se organiza por alianças circunstanciais e fidelidades pessoais. Sérgio Buarque identificou esse padrão quando descreveu a dificuldade brasileira de aceitar a impessoalidade da lei. O presente apenas sofisticou o método, não o superou.
Na economia, o mesmo espírito se manifesta na aversão ao planejamento de longo prazo. Preferem-se soluções emergenciais, remendos fiscais, exceções transformadas em regra. A improvisação vira virtude; a instabilidade, rotina. Não se trata de incapacidade técnica, mas de resistência cultural à ideia de limites e compromissos duradouros. Planejar exige abdicar do privilégio do improviso — algo que o país, historicamente, evita fazer.
Há, contudo, um elemento novo e inquietante em relação ao Brasil de Sérgio Buarque: a erosão do mínimo consenso civilizatório. Se antes a cordialidade suavizava conflitos, hoje ela convive com a polarização permanente. Ainda assim, o fundo é o mesmo: a disputa não se dá em torno de projetos de país, mas pelo controle de narrativas e pelo acesso aos recursos do Estado. O conflito é ruidoso, mas raramente estrutural.
Raízes do Brasil nunca foi um livro de condenação, mas de advertência. O autor não sugeria que o país estivesse preso a um destino imutável, e sim que precisava enfrentar seus próprios hábitos históricos para amadurecer institucionalmente. O contraste com o Brasil atual revela o preço de ignorar esse alerta: democracia fragilizada, economia errática e uma cidadania que oscila entre a dependência do favor e o ressentimento contra as regras.
O desafio permanece o mesmo, agora sem desculpas históricas. Trocar a ética do compadrio pela ética do direito; substituir a política da proximidade pela política da responsabilidade; compreender que instituições fortes não são inimigas da convivência, mas sua condição. Enquanto o país insistir em governar-se como uma grande família desorganizada, continuará moderno na aparência — e arcaico na essência.
Por Palmarí H. de Lucena