Estive por pouco tempo no aeroporto de Lisboa. Era uma dessas paradas de viagem em que mal conseguimos nos situar e já precisamos pensar no próximo embarque. Depois de conferir o horário e o portão do meu voo, resolvi dar uma volta pelo terminal. Não gosto de ficar muito tempo sentada esperando.
O aeroporto estava cheio. Havia gente puxando malas, famílias procurando onde se acomodar e passageiros olhando repetidamente para os painéis. Os avisos pelos alto-falantes interrompiam as conversas de vez em quando. Senti o cheiro de café vindo de uma das cafeterias e pensei que seria bom tomar um antes de seguir viagem.
Foi nesse passeio, sem nenhuma intenção especial, que entrei numa livraria. Gosto de livros. Mesmo aos 85 anos, ainda tenho o hábito de olhar as novidades e folhear aqueles que me chamam a atenção. Percorri algumas prateleiras até encontrar Poesia de Fernando Pessoa, organizado por Adolfo Casais Monteiro, da Editora Presença.
Peguei o livro e comecei a folheá-lo. Foi uma daquelas escolhas que acontecem sem muito planejamento. Pensei numa pessoa amiga e logo imaginei que aquele seria um bom presente. Comprei-o, guardei-o na bolsa e continuei meu caminho até o portão de embarque.
Não foi uma compra importante pelo valor ou pela ocasião. O que me agradou foi ter encontrado alguma coisa que me fez lembrar de alguém em meio à movimentação de um aeroporto, onde quase todos parecem estar pensando apenas em chegar ou partir.
Quando cheguei em casa, retirei o livro da bagagem. Antes de entregá-lo, resolvi ler algumas páginas. Confesso que sempre faço isso quando compro um livro para presentear. Gosto de saber um pouco do que estou oferecendo. Li alguns poemas, voltei a outros e me demorei um pouco mais do que pretendia.
Aos 85 anos, tenho minhas preferências e meu ritmo. Já não leio para cumprir uma meta ou terminar um livro rapidamente. Leio quando tenho vontade, paro quando quero e retomo depois. Com Fernando Pessoa, aconteceu exatamente assim.
Agora preciso apenas escrever uma dedicatória. Quero contar à pessoa amiga que encontrei o livro numa breve passagem pelo aeroporto de Lisboa e que me lembrei dela ao vê-lo. É uma explicação simples, mas verdadeira.
Talvez, quando receber o presente, ela nem imagine a pequena cena que o antecedeu: eu, andando sem pressa entre as lojas, o anúncio de um voo, o cheiro de café e aquele livro numa prateleira.
Gosto de pensar que um pedaço daquela passagem por Lisboa seguirá comigo, não apenas na lembrança da viagem, mas também na alegria de oferecer um presente escolhido com carinho.
Palmarí H. de Lucena