Um cordel no mercado popular

Um cordel no mercado popular

Outro dia, eu estava andando por um mercado popular quando ouvi duas crianças conversando perto de uma banca de frutas. A feira estava cheia, como sempre: gente comprando frutas, vendedores chamando os clientes, cheiro de comida por todo lado e muita conversa acontecendo ao mesmo tempo. Uma das crianças perguntou: “Tu viu aquele filme de dragão ontem?”. A outra respondeu: “Vi! Foi muito massa! Eu gosto dessas histórias de aventura.” A primeira então disse: “Eu gosto mais de princesa.” As duas começaram a rir, e eu fiquei pensando: será que elas conhecem as histórias que fazem parte da nossa cultura?

Na mesma hora, lembrei do Saci, do Curupira, da Iara, do Boto e de tantas outras histórias que escutamos desde pequenos. Pensei também nas histórias que os avós contam, nas festas da região, nas comidas típicas e nos costumes que passam de uma geração para outra. Temos tanta coisa interessante no Brasil que, às vezes, fico imaginando por que as crianças não conhecem mais essas histórias.

Foi então que vi alguns folhetos de cordel em uma banca. Peguei um deles e pensei: e se essas crianças pudessem criar seus próprios cordéis? Imaginei as duas sentadas juntas, tentando inventar uma história. Primeiro, escolheriam o assunto. “Vamos fazer uma história do Saci?” “Vamos! Mas ele tem que fazer alguma bagunça!” E pronto: a história já teria começado.

Depois, elas poderiam pesquisar. Poderiam perguntar aos avós se conheciam aquela lenda, conversar com o professor e procurar informações em livros. Talvez descobrissem coisas que nunca tinham ouvido antes. Em seguida, seria hora de inventar a aventura. Quem seriam os personagens? Onde a história aconteceria? O que iria acontecer? Talvez o Saci aparecesse justamente naquele mercado, escondesse algumas frutas e deixasse todo mundo procurando por elas. Só de imaginar, eu já comecei a rir.

Aí viria a parte das rimas. E essa, eu acho, seria uma das mais divertidas. Uma criança escreveria uma frase e a outra tentaria encontrar uma palavra que rimasse. Algumas ideias seriam boas; outras seriam apagadas. “Essa ficou esquisita.” “Então vamos fazer outra.” E elas tentariam de novo. Aos poucos, a história iria ficando pronta, uma rima depois da outra.

Quando terminassem, poderiam ler o cordel em voz alta. Assim, perceberiam se alguma parte ficou difícil de entender ou se alguma rima não combinou direito. Se precisassem, poderiam mudar algumas palavras. Depois, poderiam desenhar a capa, ilustrar os personagens e escolher um título bem legal para a história.

Por fim, chegaria a melhor parte: mostrar o cordel para outras pessoas. Elas poderiam apresentar para a turma, levar para casa e ler para os pais ou até fazer uma exposição na escola. E talvez descobrissem que os colegas também tinham histórias para contar: um sobre o Curupira, outro sobre uma festa popular, outro sobre uma história que ouviu da avó.

Fiquei pensando que criar cordéis poderia ser muito mais do que uma tarefa da escola. Poderia ser uma brincadeira que ajuda as crianças a conhecerem melhor o lugar onde vivem. Enquanto pesquisam, inventam personagens, criam rimas e desenham, elas também descobrem que a cultura brasileira está cheia de histórias legais. E, sem perceber, vão descobrindo também o prazer de ler e de escrever.

As duas crianças já estavam indo embora quando uma delas disse: “Eu ainda gosto mais dos dragões.” A outra respondeu: “E eu quero saber mais do Saci!” Eu sorri. Pensei que não havia problema nenhum em gostar dos dois. Criança pode gostar de dragão, princesa, super-herói e também de Saci, Curupira e Iara. O importante é que tenha a oportunidade de conhecer diferentes histórias e descobrir que algumas delas nasceram bem perto de casa.

Talvez seja justamente aí que o cordel encontre sua maior força. Ele não é apenas um papel cheio de versos e rimas. É memória, é voz, é imaginação. É um jeito de uma geração conversar com a outra e dizer: “Olha, isso também faz parte de quem somos.” Quando uma criança lê um cordel, abre uma porta para a leitura. Quando cria seu próprio cordel, abre outra para a imaginação. E quando conta essa história para alguém, ajuda a cultura a continuar caminhando.

Por isso, incentivar as crianças a ler, conhecer e produzir cordéis é também dar espaço para a cultura regional dentro da infância. É fazer com que nossas lendas, nossos costumes e nossas histórias não fiquem esquecidos em algum canto do passado. Afinal, uma cultura permanece viva quando encontra quem queira escutá-la, lê-la, reinventá-la e, principalmente, contá-la outra vez. E talvez seja esse o encanto maior de uma criança com um papel na mão, algumas palavras na cabeça e uma história para contar: sem perceber, ela pode estar escrevendo não apenas um cordel, mas um pequeno pedaço da memória do lugar onde vive.

Palmarí H. de Lucena