Se Augusto dos Anjos fosse convocado a olhar o Congresso brasileiro, dificilmente recorreria à sátira leve ou à ironia elegante. Seu olhar — feito de microscópio e abismo — buscaria o que apodrece por dentro, não o que se anuncia por fora. Veria ali não apenas homens públicos, mas organismos fatigados, células políticas em decomposição lenta, retórica como secreção automática de um corpo que já não pensa.
O Parlamento, sob sua ótica, seria um cadáver em atividade. Um corpo que anda, vota e discursa, mas cujo metabolismo moral entrou em falência múltipla. As palavras — “povo”, “democracia”, “representação” — surgiriam como resíduos verbais, restos de um vocabulário nobre já sem função vital. O que se move não é a ideia, mas o reflexo; não a convicção, mas o instinto de sobrevivência.
Augusto não se impressionaria com o barulho do plenário. O ruído, para ele, é sintoma, não força. Gritos, apartes, discursos inflamados seriam apenas espasmos de um organismo nervoso, incapaz de silêncio — e, portanto, incapaz de reflexão. Onde não há pausa, não há consciência. Onde tudo é urgência, nada é essencial.
O Congresso lhe pareceria um grande laboratório de patologias do poder: a vaidade como vírus, o corporativismo como tumor, a autoproteção como sistema imunológico que ataca o próprio corpo social. Leis surgiriam não como construções racionais, mas como secreções defensivas — feitas para blindar, não para ordenar; para proteger castas, não para servir à coletividade.
Em sua poesia científica e sombria, Augusto talvez descrevesse o Parlamento como um ossuário institucional, onde ideias antigas são recicladas com maquiagem nova. Nada morre de fato — e nada vive plenamente. A política, ali, não é projeto: é inércia organizada. Não é confronto de visões: é acomodação de interesses.
Mas seria um erro imaginar apenas desprezo. Há, em Augusto dos Anjos, uma compaixão trágica. Ele não odiava a matéria em decomposição; ele a compreendia. Veria no Congresso não só culpa, mas decadência estrutural — um sistema que perdeu o vínculo com o espírito e se deixou dominar pela fisiologia do poder. Um organismo sem transcendência.
Talvez concluísse, com sua lucidez incômoda, que o drama não está apenas nos homens que ocupam as cadeiras, mas no fato de que a política deixou de aspirar à ideia. Quando a política abdica do pensamento, ela não se torna neutra: torna-se biológica, instintiva, predatória.
E Augusto dos Anjos, diante desse espetáculo, não escreveria um panfleto. Escreveria um epitáfio — não para o Congresso enquanto edifício, mas para a consciência pública que um dia acreditou que ali pulsava um cérebro coletivo. Hoje, restaria apenas o corpo. Em funcionamento. Em decomposição.
Por Palmarí H. de Lucena