Malagrida e seu Tempo

Malagrida e seu Tempo

Tentando encontrar lugares que já não existiam, nossos olhos viajavam ladeira abaixo, à procura dos meandros da nossa própria história. Estávamos à borda da escadaria do beco da antiga Faculdade de Direito, denominação genérica utilizada durante décadas para um logradouro cuja verdadeira identidade havia sido encoberta pelo esquecimento. O abandono revelava-se em cada detalhe: a ausência de preservação, o descaso do poder público e os perigos ocultos na penumbra da noite.

Ali convivem vizinhos ilustres e uma decadência constrangedora. A poucos metros erguem-se a Praça dos Três Poderes, o Palácio do Governo, a Assembleia Legislativa e o Tribunal de Justiça. Instituições destinadas a representar a permanência do Estado cercam um espaço abandonado pelo próprio Estado. A parede lateral da antiga Faculdade de Direito foi mutilada pela instalação de geradores e pelo emaranhado de cabos elétricos; o calçamento histórico encontra-se esburacado, ocupado por carros oficiais e vendedores ambulantes. Um museu a céu aberto da deterioração urbana, onde rachaduras, infiltrações, ervas daninhas e a erosão do patrimônio são expostos gratuitamente a qualquer hora do dia. Bem-vindo ao Centro Histórico.

O retângulo formado pelas ruas paralelas da ladeira e pelas avenidas que delimitavam aquele bairro foi, durante décadas, um dos núcleos da prosperidade econômica da cidade. Pequenas casas, bares e estabelecimentos comerciais conviviam com o intenso movimento dos moradores. Conhecida como Manchúria, a zona do Baixo Meretrício mantinha, durante o dia, uma rotina quase comum. Famílias caminhavam tranquilamente, faziam compras, levavam os filhos à escola e dividiam as calçadas com comerciantes e trabalhadores. Atrás das portas fechadas, pequenas janelas e campainhas constituíam o discreto elo entre dois mundos: o da vida cotidiana e o da noite que apenas começaria ao cair do sol. Existia uma convivência silenciosa entre as donas dos prostíbulos e as autoridades, um pacto tácito que permitia à cidade preservar suas aparências.

Vieram os tempos modernos, mas o progresso prometido nunca chegou àquelas ruas. Os prostíbulos desapareceram; a pobreza permaneceu. Os antigos vícios da carne foram substituídos pelos vícios da exclusão social: imóveis abandonados, comércio decadente, violência, drogas, desordem urbana e o lento desaparecimento da memória coletiva. A cidade mudou de costumes, mas continuou relegando aquele espaço à margem.

Somente sessenta anos depois de termos vivido no Centro Histórico descobrimos que o beco atrás da Faculdade de Direito possuía um nome verdadeiro: Rua Gabriel Malagrida. A revelação parecia devolver identidade a um lugar que a cidade insistia em esquecer.

Gabriel Malagrida nasceu em Menaggio, na Lombardia, em 1689. Jesuíta italiano, chegou a Portugal ainda jovem e, pouco depois, partiu para o Brasil, onde permaneceria por quase três décadas. Missionário incansável, percorreu a Amazônia e o Nordeste, fundando missões, evangelizando populações indígenas, assistindo escravizados, acolhendo pobres e criando recolhimentos destinados à recuperação de mulheres que desejavam abandonar a prostituição. Sua atuação ultrapassava a catequese: via na dignidade humana a expressão mais concreta da fé cristã.

Malagrida viveu em um dos momentos decisivos da história portuguesa. O século XVIII assistia ao declínio da influência política da Igreja e ao fortalecimento do Estado absolutista sob a liderança de Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro Marquês de Pombal. Inspirado pelo Iluminismo, Pombal pretendia modernizar Portugal, reorganizar a administração, fortalecer a economia e subordinar as ordens religiosas aos interesses da Coroa. Os jesuítas, pela autonomia intelectual, influência social e presença nos domínios ultramarinos, passaram a ser vistos como um obstáculo ao novo projeto de poder.

O terremoto que devastou Lisboa em 1º de novembro de 1755 tornou-se o divisor de águas. Enquanto filósofos iluministas procuravam explicar a tragédia pelas leis da natureza e transformar a reconstrução da cidade em símbolo da razão e da engenharia moderna, Malagrida interpretava a catástrofe segundo a tradição religiosa de seu tempo: um chamado à conversão moral de uma sociedade que julgava afastada dos princípios cristãos. Sua leitura contrariava frontalmente o projeto político pombalino.

A partir desse momento, o velho missionário deixou de ser apenas um religioso influente para transformar-se em adversário do Estado. Preso, afastado da Companhia de Jesus, submetido ao Tribunal do Santo Ofício e acusado de heresia, foi condenado ao garrote e, em seguida, teve o corpo queimado em praça pública, no Rossio, em Lisboa, em 1761. A historiografia contemporânea reconhece que sua condenação teve motivação predominantemente política. O fogo consumiu menos um herege do que uma voz inconveniente.

Talvez resida aí a mais profunda ironia da história. O homem que dedicou parte da vida ao acolhimento de mulheres marginalizadas emprestou seu nome justamente a uma rua que, durante décadas, seria conhecida como território da prostituição. Não deixa de ser um símbolo eloquente. As mesmas mulheres que a sociedade preferia esconder encontravam, na memória daquele missionário, uma inesperada dignidade. A rua tornou-se, involuntariamente, um monumento silencioso à coerência entre sua vida e sua missão.

As cidades, entretanto, também escolhem aquilo que desejam lembrar e aquilo que preferem esquecer. O abandono de um logradouro histórico nunca é apenas um problema urbanístico; constitui um processo lento de apagamento cultural. Quando desaparecem os nomes, as pedras, as fachadas e os significados, desaparece também parte da identidade coletiva. Uma cidade sem memória transforma seu patrimônio em ruínas e sua história em silêncio.

Há, por fim, uma dolorosa simetria entre o destino do homem e o destino da rua.

Gabriel Malagrida foi queimado duas vezes.

A primeira, literalmente, em 1761, quando a intolerância política utilizou a Inquisição para eliminar um adversário cuja voz contrariava os interesses do poder.

A segunda continua acontecendo diante de nossos olhos. Não há fogueira, carrasco nem sentença. O fogo agora é lento e invisível. Arde na indiferença administrativa, na omissão dos governantes, no abandono do patrimônio, na erosão das pedras, no esquecimento da memória e na incapacidade de reconhecer que uma cidade também é feita de seus becos.

A Rua Gabriel Malagrida agoniza como agonizam tantos lugares cuja história deixou de interessar aos vivos. Permitir que ela desapareça será consumar uma segunda execução. Não a de um homem, mas a de sua memória.

Porque toda cidade que abandona seus lugares de memória termina, inevitavelmente, por abandonar a si mesma.

Palmarí H. H. de Lucena