Há personagens que, mesmo depois de mortos, continuam trabalhando. Ulisses é um deles. Há quase três milênios, o pobre homem navega de um lado para outro, enfrenta ciclopes, feiticeiras, monstros marinhos, tempestades e tentações, perde companheiros, resiste às sereias e, quando finalmente consegue regressar a Ítaca, descobre que sua jornada ainda não terminou. No século XXI, sua desgraça ganhou uma dimensão suplementar: transformaram sua vida em assunto.
Christopher Nolan fez um filme sobre a viagem de Ulisses, e o mundo imediatamente iniciou outra viagem, talvez ainda mais longa, em torno do filme. Não bastava assistir à produção, gostar ou desgostar dela, admirar as imagens, discutir a atuação ou simplesmente sair do cinema pensando em outra coisa. Era preciso produzir uma interpretação, uma contra-interpretação e, naturalmente, uma reação à interpretação alheia. Em pouco tempo, a história de um homem tentando voltar para casa transformou-se numa excursão coletiva pela indústria contemporânea do comentário.
Não tenho nada contra comentários. Eu mesmo estou escrevendo um, o que me coloca na posição pouco honrosa daquele sujeito que reclama da festa enquanto permanece dentro dela, com um copo na mão. O problema não é falar sobre arte; é nossa crescente incapacidade de deixá-la respirar.
Uma grande obra costumava conservar alguma coisa de misterioso. Terminava o livro, acabava o filme, baixava o pano, e parte da experiência permanecia conosco sem nome e, talvez, sem explicação. Hoje, essa incerteza parece quase uma falha. Se saímos do cinema emocionados, alguém pergunta qual é a mensagem. Se não gostamos, exigem argumentos. Se gostamos, precisamos justificar. Até uma impressão provisória parece exigir um parecer definitivo.
A cultura digital não tolera muito bem aquilo que permanece sem legenda. Tudo precisa ser convertido em linguagem, e a linguagem, por sua vez, em conteúdo. O filme chega às salas; depois chegam críticas, entrevistas, vídeos, podcasts, teorias, memes e especialistas, seguidos pelos especialistas que explicam por que os primeiros especialistas estão errados. A obra deixa de ser apenas aquilo que foi criada para ser e passa a ser também aquilo que todos decidiram dizer sobre ela.
Homero, se pudesse observar a cena, talvez reconhecesse na nossa época uma nova espécie de pretendentes. Em vez de assediarmos Penélope enquanto Ulisses está ausente, assediamos a própria obra com interpretações. Cada qual quer ocupar um lugar à mesa e anunciar o que tudo aquilo realmente significa.
E significados não faltam. A Odisseia pode ser lida como aventura, poema de guerra, narrativa de sobrevivência, reflexão sobre identidade, família, lealdade, poder, violência e astúcia. Há material suficiente para alimentar gerações de estudiosos e, ao que parece, também departamentos de marketing e consultorias empresariais. Não demorará para que alguém descubra como usar o Ciclope para melhorar a gestão de equipes.
Rimos disso porque há alguma verdade na caricatura. Desenvolvemos uma necessidade quase compulsiva de transformar experiências em lições. Um filme precisa ensinar liderança; um livro, produtividade; uma viagem, autoconhecimento. Até o lazer deve justificar sua existência com algum benefício mensurável. Como se viver não fosse suficiente: tudo precisa produzir aprendizado.
Talvez por isso estejamos ficando cansados justamente das coisas que deveriam nos proporcionar prazer. Não temos apenas cinema, música, livros e esportes demais; temos comentários demais sobre cinema, música, livros e esportes. O acontecimento tornou-se insuficiente. Precisamos do acontecimento, da cobertura, da reação à cobertura e da reação à reação. A realidade chega acompanhada de um exército de notas de rodapé.
A internet é extraordinariamente eficiente em destruir o intervalo entre a experiência e a opinião. Antes, era possível assistir a um filme e passar alguns dias pensando nele. Hoje, enquanto ainda procuramos o carro no estacionamento, alguém já publicou um vídeo explicando aquilo que acabamos de ver. O espectador chega cada vez menos sozinho à obra. Chega acompanhado por uma multidão invisível que já tem opinião sobre o diretor, o elenco, o roteiro e até sobre a opinião que ele ainda nem formulou.
Talvez seja necessário recuperar o direito de não ter uma opinião imediatamente. Ver alguma coisa e deixar que ela permaneça conosco durante algum tempo, sem transformá-la em postagem. Gostar sem fazer campanha. Não gostar sem abrir um tribunal. Admitir que ainda não sabemos o que pensamos.
Homero sabia que certas experiências precisam de demora. Seu herói levou anos para voltar para casa. Nós queremos compreender tudo em quinze segundos, de preferência acompanhados por uma imagem e uma legenda espirituosa.
Ulisses, afinal, talvez ainda tenha algo a nos ensinar. Não sobre liderança, produtividade ou estratégia empresarial, mas sobre a importância de saber para onde queremos voltar. Enquanto ele procurava Ítaca, nós navegamos sem destino entre notificações, opiniões, vídeos e polêmicas.
As sereias contemporâneas não cantam sobre as rochas. Aparecem na tela, oferecem uma manchete, uma controvérsia, uma novidade e prometem apenas alguns segundos de atenção. Frequentemente levam a tarde inteira.
Talvez esse seja o verdadeiro labirinto de nosso tempo: não a falta de informação, mas o excesso dela. Temos ao alcance dos dedos uma biblioteca quase infinita, mas raramente conseguimos permanecer diante de uma única página tempo suficiente para ouvi-la.
Depois de assistir ao filme, podemos conversar sobre ele, admirá-lo, criticá-lo, compará-lo com Homero e discordar apaixonadamente. Mas chega uma hora em que precisamos permitir que a obra sobreviva sem nossa assistência. Uma história não precisa ser acompanhada até a exaustão. Há uma forma de respeito que consiste simplesmente em saber quando parar.
Quanto a Ulisses, talvez seja finalmente justo deixá-lo em paz. O homem já enfrentou monstros, deuses, tempestades, amantes, pretendentes e a distância de casa. Não precisa enfrentar também nossa necessidade interminável de explicar quem ele é.
Que volte para Ítaca. E que nós, por uma vez, tenhamos a sabedoria de desligar o telefone, fechar a janela das opiniões e voltar para casa.
Palmarí H. de Lucena