Trump, a inteligência artificial e a conta que começa a chegar

Trump, a inteligência artificial e a conta que começa a chegar

Durante algum tempo, a inteligência artificial pareceu ser uma daquelas histórias em que quase todo mundo enxergava apenas o futuro. Empresas anunciavam investimentos bilionários, investidores apostavam numa nova corrida tecnológica e governos passaram a tratar a IA como instrumento de desenvolvimento econômico e de competição entre países. No centro dessa transformação estão os data centers, estruturas que podem parecer distantes da vida cotidiana, mas que dependem de grandes quantidades de energia, espaço e, em muitos casos, água para funcionar.

É justamente quando essa infraestrutura deixa de ser uma abstração e chega ao território que surgem perguntas menos futuristas e mais prosaicas. Quem pagará pela expansão da rede elétrica? Quanto de água será utilizado? Quais serão os efeitos sobre as comunidades? Quantos empregos permanentes serão criados? E qual será a proporção entre os benefícios privados e os custos que poderão ser distribuídos pela sociedade?

Nos Estados Unidos, essas perguntas já entraram no debate político. Pesquisa da Gallup mostrou forte oposição à construção de data centers de inteligência artificial nas próprias comunidades dos entrevistados, com preocupações relacionadas ao uso de terra, eletricidade, água e possíveis efeitos sobre as contas de energia. O dado, porém, não permite concluir que os americanos sejam contra a inteligência artificial. Uma pessoa pode reconhecer o potencial da tecnologia e, ao mesmo tempo, não querer um grande data center perto de sua casa.

Essa distinção é importante porque desloca o debate de uma disputa simplificada entre progresso e atraso para uma questão clássica da política: quem recebe os benefícios e quem assume os custos de uma determinada decisão.

Donald Trump escolheu claramente o lado da expansão tecnológica. Seu governo trata a liderança americana em inteligência artificial como questão estratégica, especialmente diante da competição com a China, e o presidente tem defendido investimentos privados em infraestrutura digital. Em 14 de setembro, Trump reagiu às críticas recentes ao setor classificando-as como parte de uma conspiração contra a IA e os data centers, ao mesmo tempo em que afirmou que os Estados Unidos possuem instrumentos para responsabilizar empresas de tecnologia.

É possível compreender a lógica dessa posição. Em uma disputa tecnológica entre grandes potências, limitar a construção de infraestrutura pode ser visto como risco estratégico. Para quem pensa em competitividade nacional, energia, computação, semicondutores e inteligência artificial fazem parte de uma mesma corrida. Mas existe outra perspectiva, que começa na comunidade e não em Washington. Para o morador, a disputa geopolítica pode parecer distante quando comparada com a conta de energia, o abastecimento de água ou a transformação da paisagem onde vive.

Essa diferença de escala ajuda a explicar a resistência. Ela não deveria ser automaticamente interpretada como rejeição à inovação. Uma comunidade pode apoiar a pesquisa em inteligência artificial e exigir que uma empresa arque com os custos adicionais que sua atividade impõe à infraestrutura local. Pode defender investimentos e pedir garantias ambientais. Pode reconhecer a importância estratégica da tecnologia e querer transparência sobre água, energia, empregos e incentivos públicos.

É uma tensão particularmente delicada para Trump porque seu discurso político sempre explorou a desconfiança do cidadão comum diante de elites econômicas e estruturas de poder. No caso da IA, entretanto, sua defesa de uma expansão acelerada aproxima sua agenda de uma indústria formada por algumas das empresas mais poderosas do capitalismo contemporâneo. Isso não significa que ele esteja simplesmente a serviço das Big Techs; significa que sua política tecnológica precisa responder a um eleitor que pode apoiar a inovação e, ainda assim, perguntar quais serão os custos concretos dessa escolha.

O Brasil começa a entrar nessa discussão em uma etapa diferente. O governo federal vê nos data centers uma oportunidade para fortalecer a infraestrutura digital, desenvolver a inteligência artificial, reduzir a dependência do processamento de dados no exterior e atrair investimentos. A Política Nacional de Data Centers apresentada pelo governo prevê incentivos associados a compromissos ambientais e investimentos em pesquisa e desenvolvimento.

O Congresso, porém, discute como essa expansão deverá ocorrer. Projetos em tramitação tratam de infraestrutura de energia, soberania digital, uso de água e energia, proteção ambiental, compensações, monitoramento e proteção socioeconômica. Isso mostra que o debate brasileiro não está simplesmente dividido entre ser a favor ou contra os data centers. A discussão mais importante é sobre as condições em que esses empreendimentos devem ser autorizados.

Não basta saber quanto uma empresa pretende investir. Será necessário saber quanto de energia será consumido, de onde virá essa energia, quanto de água será utilizado, quais serão os impactos ambientais e o que permanecerá para as populações das regiões escolhidas. Uma comunidade pode comemorar a chegada de um investimento bilionário e, ao mesmo tempo, perguntar quantos empregos permanentes serão criados. Pode considerar positivo um empreendimento tecnológico e querer garantias sobre o abastecimento de água.

O Brasil tem, nesse sentido, uma oportunidade que talvez não devesse desperdiçar: discutir as regras antes que a expansão produza conflitos maiores. O governo quer atrair investimentos, o Congresso formula normas e as empresas procuram novos territórios. Há espaço para estabelecer critérios antes que a necessidade de competir seja usada como argumento para adiar perguntas essenciais.

Não se trata de escolher entre tecnologia e meio ambiente, investimento e comunidade, competitividade e regulação. Essa é uma falsa oposição. O verdadeiro desafio é permitir que a inovação avance sem que seus custos sejam simplesmente transferidos para quem possui menor capacidade de negociação.

Nos Estados Unidos, o eleitorado começa a colocar essa questão na mesa. No Brasil, governo e Congresso ainda têm a possibilidade de fazê-lo de maneira preventiva. Em ambos os casos, a pergunta é semelhante: como participar dos benefícios de uma transformação tecnológica sem assumir sozinho os seus custos?

Trump tem razão ao reconhecer que a inteligência artificial será decisiva para a competição econômica e estratégica entre os países. O governo brasileiro também tem razões para tentar posicionar o país nessa transformação. Mas nenhuma estratégia tecnológica está acima da necessidade de prestar contas à sociedade. Quanto maior o investimento, maior deve ser a clareza sobre seus efeitos, benefícios e custos.

No fim, a discussão talvez seja menos sobre máquinas do que sobre uma velha questão humana: quem decide e quem paga. A inteligência artificial chegou prometendo mudar o mundo, mas antes terá de convencer o cidadão que mora ao lado do data center de que esse futuro também pode ser vantajoso para ele. Talvez esse seja seu primeiro grande teste democrático: não provar apenas até onde as máquinas conseguem chegar, mas estabelecer até onde a sociedade está disposta a ir para acompanhá-las.

Palmarí H. de Lucena