Num raro momento de franqueza e lucidez, o ex-presidente Jimmy Carter ofereceu a Donald Trump — e ao mundo — uma síntese desconcertante sobre os rumos da liderança americana. “A China nos ultrapassou porque não gastou um centavo em guerras”, disse ele. Não foi um ataque à pátria, mas um diagnóstico amargo sobre um império que ainda se alimenta da ilusão de ser o único centro de gravidade do planeta.
Desde que Carter normalizou relações com Pequim, em 1979, a China canalizou seus recursos para o futuro: infraestrutura, trens-bala, hospitais, robótica, inteligência artificial e tecnologia de ponta. Não precisou de porta-aviões para dominar mercados nem de bases militares para influenciar continentes. Seu arsenal é feito de aço ferroviário, redes digitais e investimentos estratégicos. Enquanto isso, os Estados Unidos, aferrados a um papel autoproclamado de polícia do mundo, desperdiçaram bilhões em conflitos que pouco resolveram — e muito custaram.
O contraste entre as duas potências é gritante. A China aposta no crescimento; os EUA, na contenção. E o instrumento escolhido não é mais a diplomacia, mas a tarifa. Impor barreiras comerciais punitivas ao principal rival tornou-se, nos últimos anos, uma estratégia recorrente — tão cara quanto ineficaz. Como se o futuro pudesse ser adiado à força, taxando chips, aço, carros elétricos ou painéis solares.
Internamente, o discurso se agrava. Enquanto se levantam muros tarifários contra a China, ergue-se também uma retórica excludente contra estrangeiros — estudantes, pesquisadores, trabalhadores qualificados — tratados ora como ameaça econômica, ora como risco à segurança nacional. A América, que por décadas atraiu os melhores cérebros do mundo, hoje flerta com a ideia de expulsá-los. Resta a pergunta: quem desenvolverá os trens de alta velocidade, os sistemas de saúde e a próxima geração de inovações, se os trilhos da xenofobia continuam ganhando força?
A fantasia autoindulgente de ser o “guardião da ordem mundial” permitiu que os EUA ignorassem sua própria desordem interna. As pontes ruem, o transporte público é obsoleto, os hospitais lotam, as escolas perdem qualidade. A guerra ao terror, a guerra às drogas, a guerra por hegemonia — todas elas desviaram a atenção de uma guerra mais urgente e legítima: aquela contra o colapso da infraestrutura e o esgotamento social dentro de casa.
Carter, com seus 99 anos e nenhum cargo a preservar, apontou o óbvio que tantos ainda se recusam a ver: a obsessão por domínio global tem um custo doméstico devastador. O problema não está apenas no excesso de gastos militares, mas na ausência de imaginação civil. A América que chegou à Lua parece incapaz de chegar, hoje, a um consenso sobre trens de alta velocidade. Prefere continuar vencendo guerras que não terminam, a vencer o atraso que a sufoca.
Não se trata de imitar o regime chinês — com sua repressão, censura e modelo autoritário — mas de aprender com sua frieza estratégica. A China constrói enquanto os EUA vigiam. E nesse descompasso, o futuro deixa de ser liderado por quem tem o maior exército, passando às mãos de quem melhor constrói pontes — reais e simbólicas.
A insistência em tratar o planeta como um tabuleiro de poderio bélico impede os Estados Unidos de perceberem que a influência duradoura não virá das armas, mas da relevância. Um país será líder global não por impor sua bandeira, mas por inspirar respeito, inovação e bem-estar. A força que não cuida de seu próprio povo é apenas barulho.
Ainda há tempo para mudar o curso. Mas para isso, será preciso fazer o que impérios raramente conseguem: escutar, ceder, reavaliar. Será preciso abandonar a nostalgia de uma supremacia incontestável e aceitar que o mundo já não gira em torno de um só eixo. Será preciso entender que liderança não é mais imposta — ela é conquistada, partilhada e, acima de tudo, merecida. Só então, talvez, os trilhos da guerra poderão enfim dar lugar aos trilhos de um futuro comum — menos armado e mais humano.
Por Palmarí H. de Lucena