A prisão de Nicolas Sarkozy na França, o cerco judicial a Jair Bolsonaro no Brasil e o encarceramento de Imran Khan no Paquistão formam um retrato simbólico do nosso tempo. Três líderes eleitos, de estilos distintos, confrontados pelo mesmo princípio: o poder não isenta ninguém da lei. Esses episódios testam a maturidade das instituições e a força das democracias.
Na França, o ex-presidente Nicolas Sarkozy, político da direita liberal e herdeiro do gaullismo, foi condenado por financiamento ilegal de campanha com dinheiro vindo da Líbia. Defensor de políticas duras em segurança e imigração, ele sempre combinou pragmatismo econômico com firmeza ideológica. Sua prisão mostrou que a Justiça francesa não se curva a biografias nem a prestígios. Parte da direita acusou politização; parte da esquerda viu depuração moral. O país, contudo, aceitou o julgamento como parte do funcionamento republicano.
No Brasil, Jair Bolsonaro, líder da direita populista e ex-militar, foi condenado por tentativa de golpe e cumpre prisão domiciliar. Sua ascensão foi marcada pelo discurso contra a corrupção e pela retórica nacionalista. Para alguns, a decisão judicial reforça o Estado de Direito diante dos ataques às instituições; para outros, reflete pressões políticas. A polarização impede consenso e transforma a Justiça em palco de disputas simbólicas. O desafio brasileiro é aplicar a lei sem transformá-la em instrumento de revanche.
No Paquistão, o ex-primeiro-ministro Imran Khan, de direita nacionalista e base religiosa, foi condenado em vários processos que somam décadas de prisão. Entre as acusações, estão corrupção, venda irregular de presentes oficiais e vazamento de segredos de Estado. Ex-astro do críquete e líder carismático, ele conquistou popularidade com um discurso moralista e anti-elite. Seus advogados alegam perseguição política, e a ONU classificou parte de sua prisão como arbitrária. O caso reflete a instabilidade entre o poder civil, o Judiciário e o Exército paquistanês.
Apesar das diferenças, há um ponto comum: a tensão entre a autoridade da Justiça e a percepção pública de legitimidade. Democracias fortes dependem da confiança de que as leis são aplicadas sem preferências políticas. Quando a sociedade acredita no processo, a democracia se fortalece; quando dúvida, ela se fragiliza.
Há, ainda, uma diferença marcante. Na França e no Paquistão, mesmo com críticas, os partidos de direita respeitaram as instituições nacionais. Nenhum apelou para interferência estrangeira, tampouco buscou apoio de Donald Trump ou pediu sanções contra juízes e governos. O debate permaneceu interno e institucional — o que mostra um grau de maturidade cívica ausente em certos momentos do cenário brasileiro.
O desafio contemporâneo não está em prender ou absolver, mas em preservar o sentido ético da Justiça. Sarkozy, Bolsonaro e Imran Khan pertencem a realidades distintas — o primeiro, à direita liberal europeia; o segundo, à direita populista latino-americana; o terceiro, à direita nacionalista islâmica. Todos, porém, enfrentam o mesmo dilema: como aplicar a lei aos poderosos sem transformar o julgamento em espetáculo, nem a Justiça em arma política.
Por Palmarí H. de Lucena