A discussão sobre terras raras costuma surgir envolta em alarmismo geopolítico. A China apareceria como detentora de um insumo estratégico, o Ocidente como vulnerável e a resposta imediata seria abrir novas minas. Essa narrativa, embora atraente, pouco contribui para que países como o Brasil formulem uma estratégia industrial consistente e de longo prazo.
O Brasil não é um ator marginal nesse tabuleiro. Possui reservas relevantes de terras raras e outros minerais críticos, base científica respeitável e um parque industrial enfraquecido, mas ainda existente. O problema central não está na geologia, e sim na posição ocupada na cadeia de valor: o país extrai pouco, processa menos ainda e importa quase tudo que carrega maior densidade tecnológica.
Terras raras não são raras no sentido literal. O que é escasso é o domínio das etapas intermediárias — separação, refino e transformação em ligas e componentes. É nesse núcleo da cadeia que se concentra o poder econômico e estratégico, e é justamente aí que o Brasil historicamente falhou.
Avanços recentes na mineração são relevantes, mas insuficientes. Persistir no modelo de exportar insumos primários e importar produtos industrializados apenas perpetua a dependência tecnológica. O debate nacional oscila entre dois equívocos: acreditar que a abertura de minas basta ou supor ser possível dominar toda a cadeia de uma só vez. A experiência internacional indica outro caminho: industrialização por etapas, com escolhas claras e coordenação estatal.
A comparação com os Estados Unidos é elucidativa. A estratégia americana recente combina incentivos industriais, acordos com aliados e reconstrução de capacidades produtivas, com foco no verdadeiro gargalo da cadeia: o processamento. Trata-se de uma política industrial explícita, frequentemente apresentada sob o argumento da segurança nacional.
O Brasil chega atrasado a esse debate, mas não sem possibilidades. A industrialização tardia pode permitir saltos, desde que o foco esteja na construção de capacidade doméstica de processamento e separação, hoje concentrada majoritariamente na China. Essa etapa exige conhecimento, escala e rigor ambiental — desafios elevados, mas não intransponíveis para um país com instituições científicas consolidadas.
Há também uma frente subexplorada: a reciclagem e a recuperação de minerais críticos presentes em rejeitos de mineração, sucata industrial e equipamentos descartados. Investir nesse campo reduz impactos ambientais, diminui vulnerabilidades externas e alinha a estratégia industrial a exigências contemporâneas de sustentabilidade.
A cooperação com os Estados Unidos oferece oportunidades de financiamento, mercado e tecnologia, mas requer cautela. Parcerias mal desenhadas podem cristalizar o Brasil como fornecedor primário. A diferença entre cooperação estratégica e nova dependência está em onde se processa, onde se agrega valor e onde se forma conhecimento.
Uma estratégia coerente passa por três eixos: mineração responsável, investimento em processamento doméstico e estímulo a aplicações industriais específicas, conectadas a setores nos quais o país já atua. Política industrial não é panaceia, mas sua ausência quase sempre conduz à irrelevância.
As terras raras não são solução mágica. Tornam apenas mais visível um dilema recorrente do desenvolvimento brasileiro: permanecer na base da pirâmide produtiva ou disputar, com realismo e método, os degraus intermediários onde se define o futuro industrial. A resposta não está na generosidade do subsolo, mas na consistência das escolhas e na continuidade da estratégia.
Por Palmarí H. de Lucena