Tanques e Verdades

Tanques e Verdades

Vivemos tempos em que a força parece querer ocupar o lugar da razão. A retórica da imposição substitui o diálogo, e o gesto autoritário disfarça-se de coragem política. A história, no entanto, já mostrou que tanques e discursos inflamados não bastam para sustentar uma nação. O jornalista italiano Roberto Savio, fundador da Inter Press Service (IPS), recorda isso com a serenidade de quem atravessou muitas décadas observando o mundo e suas repetições. Aos noventa anos, continua a oferecer algo raro em tempos de ruído: lucidez.

Savio enxerga, com preocupação, uma mutação silenciosa da política contemporânea. Segundo ele, as fronteiras ideológicas tradicionais perderam relevância. O que se desenha hoje é uma disputa mais profunda — entre democracia e autocracia, entre o diálogo e o dogma. E o que distingue esses dois polos não é apenas o método de governar, mas a maneira de compreender a verdade.

Desde que o conceito de “verdade alternativa” foi lançado no debate público, a política passou a conviver com um novo tipo de ficção: aquela em que o que importa não é o que é verdadeiro, mas o que convence. A desinformação tornou-se instrumento de poder, e a tecnologia, que poderia iluminar, às vezes apenas distorce. Em vez de aproximar as pessoas do conhecimento, os algoritmos constroem bolhas de crença, moldando percepções sob medida.

Savio alerta que, ao delegar à máquina o papel de pensar, o ser humano renuncia a sua capacidade crítica. E sem espírito crítico, não há cidadania — há apenas audiência. A política, rendida ao imediatismo e ao espetáculo, cede terreno à manipulação. O resultado é um esvaziamento moral: líderes que medem seu sucesso em cifras e popularidade esquecem que a legitimidade também se apoia na ética e no respeito ao outro.

A corrupção, antes escondida, tornou-se visível e, em certos casos, até ostentada. A economia global, marcada por concentração de riqueza e impunidade, enfraquece a coesão social. Nesse cenário, o descrédito das instituições cresce, e o cidadão comum sente-se alheio às decisões que moldam o seu destino. Como resume Savio, “o mundo virou um imenso negócio sem relação com as prioridades da sociedade”.

Ainda assim, ele não se entrega ao pessimismo. Acredita que a saída não virá da força, mas da consciência. Sacar tanques à rua não serve, diz ele, lembrando que a repressão é sempre o fracasso da razão. O futuro — se houver — dependerá da capacidade de cada geração de reconstruir o sentido de pertencimento e de empatia. As novas mobilizações, surgidas em diferentes partes do mundo, mostram que há resistência e desejo de mudança.

A lição é simples e, por isso mesmo, essencial: a democracia só sobrevive se for cultivada. Ela exige diálogo, escuta e a disposição de compreender antes de julgar. Nenhuma ideologia, seja qual for, deve pretender substituir o pluralismo que sustenta a convivência civilizada. A verdade não pertence a partidos nem a líderes — pertence à busca honesta de quem deseja compreender o mundo sem medo nem arrogância.

Num tempo em que se confunde poder com razão e autoridade com autoritarismo, é preciso lembrar o que Savio repete: a força pode impor silêncio, mas não cria consenso. A política que ignora o ser humano acaba governando apenas sobre o vazio.

Por Palmarí H. de Lucena

Crônica inspirada em Roberto Savio, fundador da Inter Press Service (IPS), a partir de entrevista concedida a Norma Fernández, publicada em TEKTÓNIKOS, 21 de outubro de 2025.