Sob o Silêncio das Pirâmides: Mulheres que Pedem Voz

Sob o Silêncio das Pirâmides: Mulheres que Pedem Voz

A grandiosidade das pirâmides, vista do alto no instante da aterrissagem, impõe uma reverência muda — como se o tempo, fatigado de correr, se permitisse um suspiro. Mas essa paz é breve. Logo é tragada pelo caos que pulsa nas ruas do Cairo, onde buzinas se confundem com preces e o trânsito se torna metáfora de uma sociedade em permanente negociação com o destino.

Estava ali a convite da Igreja Copta, no âmbito de um programa de ajuda humanitária. Esse detalhe — que à primeira vista poderia parecer circunstancial — revelou-se, desde o início, estruturante. Não viajávamos apenas para ver, mas para compreender; não apenas para atravessar paisagens, mas para tocar, ainda que de forma provisória, realidades onde a fé se entrelaça com a urgência da sobrevivência.

A caminho do hotel, fomos engolidos por uma torrente de impaciência. Três batidas no carro e nenhum olhar de culpa. O motorista, com um gesto de resignação quase poético, ergueu as mãos e murmurou: “Ma’alesh… Inshallah.” Assim começamos a compreender as palavras que, ao longo das semanas seguintes, se tornariam um refrão existencial — não a simples resignação, mas uma forma cultural de acomodar o imprevisível.

O Egito que percorremos era o de Naguib Mahfouz: uma terra de contrastes onde a eternidade e o improviso convivem lado a lado. Por quatro semanas, atravessamos cidades e desertos em busca de histórias de fé e resistência — sobretudo das mulheres que sustentam, com mãos invisíveis, os alicerces de um mundo que insiste em não as reconhecer.

Entre os zabbaleen — catadores de lixo, em sua maioria cristãos coptas — descobrimos uma forma de santidade sem altar. Eram cerca de quarenta mil pessoas que, entre montanhas de detritos, separavam o que a cidade descartava, devolvendo-lhe utilidade e dignidade. Vi mulheres com crianças ao colo, revolvendo sacos de lixo sob o sol impiedoso. Vi nelas o rosto de um Egito marginal, mas essencial — aquele que sustenta, em silêncio, a funcionalidade do todo.

Nosso trabalho, em parceria com a fundação da Irmã Emmanuelle — uma mulher que fazia da fé um ofício concreto —, buscava oferecer saúde, formação e oportunidades. Falávamos de cooperativas, de microcrédito, de dignidade. Mas, em cada gesto, emergia o medo ancestral: o medo de perder o pouco que se tem, o medo do julgamento alheio, o medo — sobretudo — da mudança.

Foi então que a viagem deixou de ser apenas deslocamento e passou a inscrever-se numa geografia mais profunda: a da memória espiritual. No Cairo Antigo, na cripta da Igreja de Abu Serga, revive-se a tradição da passagem da Sagrada Família pelo Egito — uma narrativa que, mais do que religiosa, organiza simbolicamente o território. A partir dali o percurso ao longo do Nilo parecia ecoar esse mesmo itinerário: uma travessia feita de pausas, refúgios e silêncios.

De Cairo a Assiut, o cheiro do lixo misturava-se às camadas da memória. Em Minya, a tradição sugere passagens discretas — abrigos temporários, como nas encostas de Gabal al-Tayr, onde a narrativa fala de proteção em meio ao perigo. Não há ali monumentalidade, mas continuidade. O sagrado manifesta-se no intervalo, não no espetáculo.

Em Assiut, essa geografia simbólica se condensa. No Mosteiro de Al-Muharraq, onde a tradição situa a permanência mais longa da Sagrada Família, o sagrado assume forma austera: pedra, silêncio, permanência. E foi ali que encontramos Mariam — Maria, em árabe — uma mulher cuja coragem tensionava os limites invisíveis do possível.

O projeto de apoio às verdureiras havia transformado sua vida. Já não era apenas uma comerciante: tornara-se uma microempresária. E isso bastava para desestabilizar o equilíbrio ao redor.

Recebeu-nos com cordialidade contida. Seu quintal, onde secava grãos ao sol, era um altar da perseverança. Sobre a mesa improvisada, três pirâmides de tomates reluziam sob o calor, como oferendas domésticas à resistência. Mas bastou mencionarmos o sucesso de seu pequeno negócio para o clima se alterar. Seu semblante se fechou, a voz se elevou, e logo as vizinhas se juntaram. Tomates voaram, e as pirâmides vermelhas desabaram como metáfora de um interdito profundo: o de que uma mulher não deve ultrapassar os limites impostos — nem pelos homens, nem pelo medo internalizado por outras mulheres.

Mais tarde, o intérprete nos explicou o que aquelas palavras carregadas de fúria significavam. O progresso de Mariam despertara suspeitas. As mulheres temiam não apenas a ruptura das normas sociais, mas o efeito contagioso da mudança. Naquela reação, ao mesmo tempo brutal e reveladora, compreendi que o campo de batalha da mulher não se limita às estruturas externas de poder, mas se estende aos sistemas simbólicos que moldam a própria percepção do possível.

Ao deixar o vilarejo, avistei outra mulher montada num burro, o olhar perdido no horizonte. Talvez fosse outra Maria, tentando alcançar um fragmento de liberdade além das dunas, onde o vento ainda não carrega o peso da obediência. Inshallah, murmurei — não como resignação, mas como desejo.

Décadas se passaram desde aquela viagem. O mapa político do Oriente Médio se redesenhou, mas as tensões persistem. O rosto de Mariam multiplicou-se nas mulheres de Teerã, de Cabul, de Gaza e do Cairo — as novas Marias do século XXI. No Irã, desafiam o regime com gestos mínimos que se tornam atos políticos. No Afeganistão, meninas aprendem às escondidas. Em Gaza, mães enfrentam não apenas a guerra, mas a invisibilidade.

Essas novas Marias caminham entre ruínas e fronteiras com a mesma coragem silenciosa de suas ancestrais. Carregam nos olhos o dilema entre fé e liberdade, tradição e desejo. São o fio invisível que costura as histórias interrompidas da humanidade — mulheres que ainda lutam pelo direito de existir sem mediação.

As pirâmides permanecem. Mas agora o tempo parece escutá-las.

Talvez esse seja o verdadeiro milagre do Nilo:
mulheres que não pedem bênção — pedem voz.

Por Palmarí H. de Lucena — Cairo, 1983