Sivuca, Eu e a Brisa

Sivuca, Eu e a Brisa

Sivuca, Eu e a Brisa

Há amizades que desafiam a cronologia. Quando tentamos alinhá-las em datas, fotografias e lugares, elas escapam pelas frestas, como certas melodias que sobrevivem menos na audição do que na memória. A minha amizade com Sivuca sempre pertenceu a essa categoria. Nunca foi contínua, mas jamais conheceu ruptura. Era feita de encontros improváveis, longos silêncios e reaparições que pareciam obedecer a um compasso invisível.

Conheci Sivuca antes que o Brasil inteiro o chamasse de mestre. Para nós, era apenas o primo que aparecia de tempos em tempos, trazendo a sanfona pendurada ao peito e uma discrição que contrastava com a força da música que carregava.

Numa dessas visitas, depois do jantar, abriu o estojo do acordeão. Bastaram os primeiros acordes para que a sala deixasse de ser sala. As janelas encheram-se de vizinhos; a rua mergulhou num silêncio atento. Os foles pareciam dar outro ritmo ao ar da casa. Não era apenas virtuosismo. Havia qualquer coisa de inesperado na maneira como fazia o instrumento respirar. As notas pareciam ganhar corpo, brilho e peso. Até hoje conservo a impressão de que, naquela noite, ele ladrilhou nossa rua com pequenas pedras de luz.

Quando fechou a sanfona, o silêncio pareceu fazer parte da composição.

Vieram os aplausos, os abraços e o sorriso quase envergonhado de quem ainda não sabia o espanto que era capaz de provocar.

Depois desaparecia.

Era sua maneira de permanecer. Sumia durante meses, às vezes anos, mas continuávamos a encontrá-lo nas ondas do rádio, nas páginas dos jornais e nas histórias que chegavam da Europa, da Escandinávia, da África ou dos Estados Unidos. Um dia estava excursionando com Os Brasileiros; noutro, aparecia num filme francês; mais adiante, acompanhava Marlene Dietrich, que terminaria cantando Luar do Sertão em português diante de plateias europeias.

Quando nos reencontrávamos, retomávamos a conversa exatamente onde ela havia parado. Falávamos de música, naturalmente, mas também da liberdade, da política e daquele destino comum a tantos artistas brasileiros que, em certos momentos da história, precisaram deixar o país para continuar criando.

Foi assim em 1964. Enquanto o Brasil mergulhava na ditadura, Sivuca aceitou o convite de Carmen Costa e partiu para Nova York. Não gostava de despedidas. Preferia deixar as conversas em suspenso, como quem sabe que uma boa melodia nunca termina na última nota.

Em 1968, no Hollywood Palladium, Miriam Makeba pediu silêncio, aproximou-se do microfone e anunciou, saboreando cada sílaba:

“From Brazil… Si-vu-ca.”

O que aconteceu em seguida ultrapassava a ideia de espetáculo. A sanfona, a voz, o improviso e o ritmo pareciam nascer da mesma respiração. O público levantou-se num único impulso. Naquela noite compreendi que alguns músicos dominam um instrumento; outros acabam tornando-se um.

Enquanto seguia o mundo ao lado de Miriam Makeba, nossas trajetórias continuavam a cruzar-se. Reaparecia trazendo histórias das conversas com Miguel Arraes no exílio, dos concertos na Tanzânia, das viagens por uma África que descobria novas independências e novas sonoridades.

Pouco depois, Nova York tornou-se novamente seu porto. O musical Joy conquistava o circuito off-Broadway. Um crítico escreveu que Sivuca era “um gênio que soa como um instrumento humano”. A definição parecia menos um elogio do que uma descrição.

Dividia estúdios com Harry Belafonte, Paul Simon, Astrud Gilberto, Hugh Masekela e tantos outros. Ainda assim, aparecia no meu apartamento sem cerimônia, sentava-se, pegava o violão e começava a tocar Eu e a Brisa, de Johnny Alf.

Nunca achei aquela escolha casual.

Havia naquela melodia uma delicadeza que lhe era própria: a aceitação serena de que as coisas mais preciosas não pertencem a ninguém. Passam por nós como a brisa, deixando apenas a lembrança do que tocaram.

Em 1975, quando me casei na Capela das Nações Unidas, em Nova York, Sivuca foi meu padrinho. Como se isso não bastasse, preparou uma adaptação de Luar do Sertão para acompanhar a entrada dos noivos.

Sob as bandeiras de dezenas de países, foi o sertão brasileiro que abriu a cerimônia.

Nenhum presente poderia traduzir melhor quem ele era. Mesmo depois de conquistar o mundo, continuava levando consigo a paisagem sonora onde aprendera a escutar.

No ano seguinte voltou ao Brasil. Partiu como sempre partira: discretamente, sem transformar a despedida em acontecimento. Eu seguiria, mais tarde, para a África. Os anos fariam o resto. Voltamos a nos encontrar já no começo do novo milênio, como se o tempo houvesse apenas respirado entre um encontro e outro.

Hoje compreendo que nossa amizade nunca foi construída pelos encontros.

Foi construída pelos intervalos.

Pela certeza silenciosa de que a conversa recomeçaria exatamente da última frase.

Quando penso em Sivuca, não o vejo primeiro nos grandes palcos, nem nos estúdios de gravação. Vejo a sala da minha infância tomada pelos vizinhos, a Capela das Nações Unidas atravessada por um Luar do Sertão inesperado e um homem sentado em meu apartamento, dedilhando Eu e a Brisa como quem conversava baixinho com o tempo.

Talvez seja essa a vocação das grandes amizades.

Elas não desafiam o tempo.

Apenas aprendem a respirar dentro dele, como o fole de uma sanfona que continua cheio de música mesmo quando o silêncio parece definitivo.

Publicado originalmente no livro Nem Aqui, Nem Ali, Nem Acolá, Editora Bagaço, 2009.

Palmarí H. de Lucena