O médico terminou de revisar os exames — radiografias, eletrocardiograma, análises laboratoriais — e pigarreou como quem já respirava havia décadas aquele ar rarefeito. Depois anunciou, com uma simplicidade quase ofensiva:
— Apto. O senhor pode viver e trabalhar em La Paz.
Àquela altitude — 3.660 metros acima do mar — até a palavra “apto” parecia exigir fôlego.
Vínhamos do Quênia, onde o calor ainda tinha densidade animal e terrestre. Agora seguíamos rumo ao sul, convocados para a Bolívia, atingida pelas enchentes e deslizamentos provocados pelo El Niño. O destino parecia menos uma transferência do que um lento deslocamento para outro planeta.
A aproximação de La Paz permanece intacta na memória: a cidade surgindo como uma cicatriz colossal aberta no altiplano, espalhada pelas encostas áridas, enquanto o Illimani pairava acima de tudo — imóvel, glacial, soberano. Havia naquela montanha algo de divindade silenciosa, um guardião mineral observando homens pequenos lutarem por oxigênio.
Talvez tenha sido ali que começamos a compreender os silêncios dos Andes.
Ao desembarcar, veio a vertigem. Não apenas a física, mas a sensação de que o corpo havia sido abandonado por sua antiga geografia. Caminhar alguns metros exigia pausas; subir escadas transformava-se numa negociação com os pulmões. Descobrimos rapidamente o velho conhecido andino: o soroche, o mal da altitude — dores de cabeça, náusea, lassidão, um cansaço que parecia nascer diretamente dos ossos. O organismo aprende depressa, mas aprende com sofrimento.
No aeroporto de El Alto, a mais de quatro mil metros de altitude, vimos uma cena que explicava melhor do que qualquer tratado médico a força invisível da montanha. Numa aeronave parada na pista, jogadores do Clube de Regatas do Flamengo deitados sobre os assentos, imóveis, tentando poupar energia antes de desembarcarem para uma partida contra uma equipe boliviana.
Alguns respiravam lentamente de olhos fechados; outros encaravam o teto da cabine como pacientes resignados antes de uma cirurgia. Não era superstição esportiva, mas estratégia de sobrevivência. Em La Paz, não se joga apenas contra onze adversários. Joga-se contra a altitude, contra os pulmões, contra o próprio corpo.
Do lado de fora, o altiplano seguia indiferente. Funcionários do aeroporto caminhavam normalmente naquele ar rarefeito; mulheres aimarás atravessavam a pista carregando mercadorias; ao fundo, os Andes observavam tudo com sua habitual impassibilidade mineral.
A Bolívia de 1995 vivia uma estranha coexistência entre esperança e desgaste. O governo de Gonzalo Sánchez de Lozada prometia modernizar o país através de privatizações e reformas econômicas. A hiperinflação da década anterior parecia finalmente controlada, mas a vida cotidiana seguia difícil para a maior parte da população. Nas ruas de La Paz, o país sobrevivia no improviso: micro-ônibus lotados serpenteavam pelas ladeiras, vendedores ambulantes ocupavam esquinas envoltos pelo cheiro de sopa quente, milho cozido e gasolina mal queimada. O comércio informal sustentava bairros inteiros.
Trabalharíamos na Corneta Mamani, uma rua discreta em forma de L, próxima à universidade, onde funcionava o programa humanitário da Igreja Católica destinado às comunidades afetadas pelo El Niño. Aquela pequena rua tornou-se o centro do nosso universo.
Nosso trabalho concentrava-se na distribuição de alimentos e medicamentos para bairros atingidos pelas enchentes e deslizamentos. Mas a verdadeira engrenagem da ajuda humanitária não estava nos escritórios improvisados nem nos relatórios enviados aos doadores estrangeiros. Estava nos Clubes de Mães — pequenas organizações comunitárias conduzidas por mulheres aimarás e quéchuas que conheciam cada família, cada ausência e cada necessidade das encostas de La Paz. Eram elas que organizavam filas, repartiam mantimentos, preparavam refeições coletivas e mantinham funcionando uma rede silenciosa de solidariedade em meio à escassez. Sem aqueles grupos de mulheres, a ajuda dificilmente alcançaria os bairros mais pobres do altiplano.
Nas áreas rurais, para onde frequentemente viajávamos, a dureza assumia outra dimensão. Aldeias aimarás e quéchuas sobreviviam em encostas isoladas, onde eletricidade, saneamento ou atendimento médico eram luxos improváveis. Ainda assim, a cultura indígena permanecia intacta, resistente como as pedras do altiplano. Mulheres de saias pesadas e chapéus-coco caminhavam por mercados ancestrais falando aimará; festas religiosas misturavam santos católicos e crenças antigas; crianças mastigavam folhas de coca enquanto pastoreavam lhamas sob um céu excessivamente azul.
A comida refletia a geografia: batatas em dezenas de variedades, sopas espessas, arroz e milho. Havia o chuño, batata escurecida e desidratada naturalmente pelo frio das montanhas, alimento austero criado para resistir ao tempo e à escassez. E havia as salteñas, pastéis assados de massa levemente doce, recheados de carne, frango ou legumes temperados, vendidos fumegantes nas manhãs geladas de La Paz. Comer parecia menos um prazer do que uma negociação silenciosa com a altitude — uma adaptação ao frio, ao ar rarefeito e à dureza mineral dos Andes.
Entre crises econômicas, greves, bloqueios de estradas e incertezas constantes, sobrevivemos doze meses respirando metade do ar e observando uma humanidade inteira comprimida entre montanhas.
Os mercados aimarás fervilhavam de batatas improváveis, rádios melancólicos e mulheres que pareciam caminhar sem sentir a altitude. À noite, as luzes das casas penduradas nas encostas davam a impressão de que o céu havia escorregado montanha abaixo.
E havia o silêncio.
Não o silêncio vazio dos desertos africanos, mas outro: antigo, vertical, mineral. O silêncio dos Andes não nasce da ausência de sons; nasce da sensação de que as montanhas observam tudo e nada esquecem.
Partimos um ano depois. Levamos poucas coisas além da paisagem, de algumas amizades e daquela sensação difícil de explicar: os Andes não são um lugar que se visita; são uma presença que permanece dentro de quem passa por eles.
Décadas mais tarde, o nome Mamani reapareceu inesperadamente pela televisão.
Era outubro de 2010. O mundo inteiro acompanhava o drama dos 33 mineiros presos a setecentos metros de profundidade na mina San José, no Deserto do Atacama. Após dezessete dias de silêncio absoluto, uma broca voltou à superfície trazendo um bilhete curto:
“Estamos bien en el refugio los 33.”
Na madrugada de 14 de outubro, a cápsula Fénix devolveu à superfície o quarto mineiro resgatado: Carlos Mamani, boliviano, o único estrangeiro entre os trinta e três homens soterrados. Sua imagem coberta de poeira reacendeu instantaneamente nossas lembranças da Corneta Mamani.
Foi então que resolvemos descobrir quem havia sido aquele Mamani original.
A rua homenageava Pascual Mamani, corneteiro aimará morto durante a War of the Pacific. Ferido gravemente em combate, subiu sobre um canhão capturado e tocou sua corneta pedindo reforços. Morreu assim: soprando um instrumento militar no meio da poeira, do sangue e do deserto.
Mais de um século depois, outro Mamani lutava novamente pela sobrevivência no mesmo Atacama — não sobre a terra, mas debaixo dela.
Entre Pascual e Carlos existia mais que um sobrenome. Existia a persistência de uma mesma geografia humana: homens acostumados à dureza da montanha, à precariedade, ao trabalho silencioso e à resistência cotidiana.
Talvez por isso os Andes produzam uma espécie particular de dignidade. Uma dignidade discreta, sem heroísmo declarado. Ela aparece nas mulheres que caminham quilômetros carregando mercadorias; nos mineiros que descem diariamente às entranhas da terra; nos camponeses que cultivam encostas impossíveis; nos rostos queimados de frio e sol que aprendem, desde cedo, a conviver com a escassez.
Nossa permanência no ar rarefeito de La Paz durou apenas um ano, embora às vezes parecesse uma vida inteira. Quando finalmente o corpo começava a aceitar a altitude, recebemos nova transferência. Havíamos sido promovidos para o programa sub-regional da América Central, sediado em San José.
Trocaríamos os Andes pelo istmo tropical centro-americano.
Abandonaríamos o frio mineral do altiplano, os mercados aimarás, o Illimani suspenso sobre a cidade e aquele silêncio antigo que parecia brotar das próprias pedras. À nossa frente, outro mundo nos aguardava: florestas úmidas, fronteiras tensas, países ainda marcados pelas cicatrizes recentes das guerras civis centro-americanas.
Mas compreendemos, ao partir, algo que só as viagens longas ensinam.
Os lugares verdadeiros nunca terminam quando os abandonamos.
Continuam existindo dentro de nós, silenciosamente.
Às vezes regressam através de um nome ouvido por acaso. Às vezes através do cheiro de sopa quente numa manhã fria. Ou pela lembrança de uma montanha branca observando uma cidade inteira lutar por ar.
E talvez seja isso que os Andes oferecem aos viajantes:
não respostas,
mas permanência.
Entre o Illimani e o Atacama,
entre o soroche e o silêncio,
ficaram homens e mulheres que jamais aparecerão nos livros de história,
mas que continuam sustentando a vida em altitudes onde respirar já é, por si só, um ato de coragem.
E os Andes, indiferentes e eternos,
continuam escutando.
Por Palmarí H. de Lucena