Em tempos de oratória ruidosa e discursos apressados, ainda há quem fale com elegância, ironia e ternura — três virtudes que o destino reuniu num só homem: Severino Ramalho Leite, nascido em 6 de outubro de 1943, no pacato distrito de Camuçá, em Bananeiras, e que desde então parece ter feito um pacto com a lucidez e o bom humor.
Formado em Direito pela Universidade Federal da Paraíba, Ramalho Leite percorreu o vasto território da vida pública com a compostura de um gentleman e a língua afiada de um cronista. Foi vereador em Borborema, promotor de Justiça, procurador do Estado, deputado estadual por quatro legislaturas, deputado federal e, por fim, presidente do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, sem jamais perder o hábito de rir — inclusive de si mesmo, o que é, convenhamos, o mais raro dos dons.
Como escritor, transfigurou a política em literatura e o cotidiano em anedota. Em livros como Em Prosa e Verso – Mais Histórias do Folclore Político da Paraíba e O Poder de Bom Humor, mostra que a memória da Paraíba também sabe dançar forró e contar casos de bastidor. Seu estilo é uma mistura de Câmara Cascudo com Stanislaw Ponte Preta — erudito, mas travesso; sério, porém sempre sorridente.
Na Academia Paraibana de Letras, onde ocupa a Cadeira nº 7, é visto como um guardião da história e do riso. E foi dali mesmo, dos degraus da velha casa de letras, que fez recentemente um pedido público ao ladrão da bengala de Augusto dos Anjos — uma súplica tão cortês quanto espirituosa, digna de quem sabe que até os símbolos da poesia merecem respeito, mas que não se perdem se ainda há quem os defenda com graça e verbo.
Fora das letras, Ramalho Leite também é cúmplice de um dos episódios mais saborosos da vida cultural bananeirense: a criação e exibição pública das lendárias “bananas forrozeiras”, uma mistura irresistível de sátira, criatividade e amor à terra natal — prova cabal de que o humor, quando nasce na roça e floresce na praça, é também patrimônio imaterial.
Aos 82 anos, Ramalho Leite continua o mesmo: lúcido, espirituoso e com o olhar afiado de quem sabe que o poder é passageiro, mas a palavra bem-dita é eterna. Recentemente, diante de mais um furto de objetos da Academia, lançou um aviso que já entrou para o folclore literário paraibano: pediu ao ladrão que não voltasse a roubar — afinal, “somos imortais”.
Foi o recado mais elegante já dado a um delinquente e a prova definitiva de que, nas mãos de Ramalho Leite, até o humor é uma forma de eternidade.
Por Palmarí H. de Lucena