Será que ainda lembram o que é o Natal?

Será que ainda lembram o que é o Natal?

Será que ainda se lembram
Do que é, de fato, o Natal?
Ou virou data vazia
Num calendário formal,
Enquanto a fome vigia
Seu presépio desigual?

Crianças largam brinquedos,
Correm atrás da refeição,
Comida fria, mofada,
Salivam de humilhação.
Esperam ordem pra entrar
Na falsa trégua do pão.

Catam restos no lixo alheio,
Vítimas sem tribunal,
Do ajuste que corta vidas
Com régua estrutural:
Nos bairros de Buenos Aires,
Nas favelas do Rio igual.

Barrigas cheias de água,
Corpos deitados no chão,
Esperam o tiro começar
Ou fogem da repressão;
No deserto, imigrantes
Correm da deportação.

Em Gaza, olham escombros
Da casa onde foram gente,
Da escola, da fé, do nome,
Do ontem ainda recente.
Rezando sobre a cova rasa
Dos pais mortos, inocentes.

Será que ainda se lembram
Do Natal que diz nascer?
Se ele não nasce no outro,
É só ornamento a vender.
Sem justiça e sem partilha,
Natal não sabe viver.

Por Palmarí H. de Lucena

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