Viajar já foi um exercício de curiosidade; hoje, com frequência crescente, tornou-se um teste de visibilidade. A mala divide espaço com a ansiedade de postar, e o roteiro se organiza menos pela geografia do lugar do que pela qualidade do sinal de internet. A viagem começa no aeroporto, mas só parece se completar quando aparece no feed. Se não foi fotografada, corre o risco de não ter acontecido.
As mídias sociais moldaram um novo tipo de viajante: aquele que não percorre, desfila. O cenário importa desde que seja imediatamente reconhecível. Uma rua anônima não rende curtidas; já a fachada de uma grife internacional funciona como atalho narrativo. Não é preciso explicar onde se está — o logotipo resolve. A fotografia diante da loja cara diz, com eficiência publicitária: “estive aqui, pertenço a este mundo, ainda que por instantes”.
Há algo de involuntariamente cômico nessa coreografia global. Cruza-se um oceano para posar diante das mesmas marcas disponíveis no shopping de casa, apenas com outro câmbio e uma legenda mais entusiasmada. A cidade, com sua história, tensões e singularidades, vira figurante. A vitrine iluminada assume o papel principal. É o turismo do reconhecimento imediato: quanto menos esforço interpretativo, maior o engajamento.
Não se trata de condenar a fotografia — lembranças também gostam de imagens —, mas de observar a inversão de prioridades. A foto deixa de ser consequência da experiência para se tornar seu objetivo central. Primeiro a selfie, depois o lugar. Primeiro a postagem, depois o olhar. O humor involuntário está em perceber que, enquanto se busca singularidade nas redes, produz-se uma repetição quase industrial de poses, sorrisos e enquadramentos.
As plataformas digitais, é verdade, premiam o previsível. Preferem a vitrine famosa ao banco de praça anônimo, o prato caro ao café discreto, o cenário consagrado ao detalhe inesperado. A viagem, porém, em sua versão mais interessante, sempre foi o oposto disso. Ela começa onde não há legenda pronta, onde o nome da rua não é familiar, onde o olhar precisa trabalhar.
Talvez seja o caso de recuperar um pouco de elegância — e de humor — no ato de viajar. Fotografar menos, observar mais. Passar diante da grife sem a obrigação do registro, como quem já não precisa provar nada. Descobrir que algumas das melhores lembranças não cabem em stories e que certas experiências perdem a graça quando excessivamente expostas.
Viajar, afinal, não deveria ser um desfile de vitrines, mas um exercício de liberdade. Inclusive a liberdade de não ser fotografado o tempo todo — nem mesmo por si próprio.
Por Palmarí H. de Lucena