Peço licença ao leitor
Que chegou pra escutar,
É história simples de ouvir
Mas dá pano pra pensar:
Conversa de calçada,
Mesa, copo e olhar.
Não é sermão nem promessa,
Nem discurso de ocasião,
É palavra dita mansa
No meio da confusão;
Quem entra nessa conversa
Sai com mais reflexão.
Se Deus quiser escutar
O que o povo tem guardado,
Senta do nosso lado
Sem roteiro preparado;
Aqui fala Zé Brasileiro,
Com juízo já calejado.
Oxente, Deus, se tu é mesmo
Desse Brasil varonil,
Chega mais perto da gente,
Senta no banco do bar;
Tenho umas perguntas grandes
Pra caber nesse caneco.
Tu sabe bem como é duro
Viver do jeito que dá,
Promessa nasce vistosa
E morre antes de brotar;
A gente aprende na marra
A cair e levantar.
Não te peço milagre grande,
Nem tesouro nem mansão,
Só um empurrão discreto
Na roda da confusão:
Que a lei enxergue todo mundo
Com a mesma direção.
Tu conhece bem a fila,
O balcão e o carimbo torto,
O papel que sempre falta
Quando o direito tá morto;
Se puder, dá um jeitinho
De encurtar esse porto.
Na política eu confesso
Que já cansei de gritar,
É bandeira pra todo lado
E pouco chão pra pisar;
Se puder, ensina o povo
A pensar antes de brigar.
No futebol eu sou desses
Que sofre até ganhar,
Mas sei que bola não salva
Nem resolve o penar;
Serve pra distrair a alma,
Mas não paga o jantar.
Se tu rir junto com a gente
Já fico satisfeito,
Riso quando é bem pensado
Conserta muito defeito;
Pior que errar caminho
É se achar já perfeito.
Não deixa o ódio virar
Profissão nem missão,
Nem faça da opinião
Uma nova religião;
Discordar com respeito
Ainda é revolução.
Se no fim tu for embora
Sem clarão nem procissão,
Deixa ao menos espalhada
Uma ponta de noção:
Menos grito no ouvido
E mais gesto pelo chão.
Assina quem lhe fala aqui:
Zé Brasileiro é meu nome,
Aprendi com a vida dura
A desconfiar de renome,
De promessa muito alta
E de verdade que some.
E se alguém achar estranha
Essa conversa no bar,
Digo logo, sem rodeio,
Pra ninguém se enganar:
Não é Deus que falta ao povo,
É juízo pra pensar.
Por Palmarí H. de Lucena