Se Deus fosse brasileiro
Num vinha com luz brilhando,
Chegava era se explicando
Do atraso verdadeiro:
“Foi trânsito o dia inteiro,
Obra aberta me atrasando.”
Num trazia lei na mão
Nem tábua de mandamento,
Dava conselho pequeno
Do tamanho do sertão:
“Mais juízo e coração
Vale mais que juramento.”
Se Deus fosse brasileiro
Conhecia repartição,
Sabia que solução
Tem prazo meio rasteiro:
“Só falta um papel primeiro”
É promessa sem razão.
Via fila todo dia
E não ficava espantado,
Via o povo indignado
Furando com maestria;
Pensava com ironia:
“Cada um se acha abençoado.”
Milagre grande num fazia,
Achava até exagero,
Preferia o passageiro
Que resolve o dia a dia:
Ônibus chegando um dia,
Conta fechando por um fio inteiro.
Nos gabinete entrava mudo
E saía do mesmo jeito,
Via erro virar direito
E culpa virar conteúdo:
“Responsável é todo mundo
Quando ninguém tem defeito.”
Se Deus fosse brasileiro
Ria da confusão danada,
Promessa vira paisagem
E problema vira estrada:
“O povo aguenta a pancada
E chama isso de jornada.”
Na política só via
Torcida sem reflexão,
Um grita, outro perde a razão,
Ninguém muda a direção;
“Num precisa guerra, não,
Pra viver melhor o dia.”
No futebol coçava a barba
Vendo a fé virar esquema:
Perdeu? É fim do sistema.
Ganhou? Resolveu o problema.
“Num misture bola e lema,
Que assim só rende mais larva.”
Se Deus fosse brasileiro
Num tomava lado algum,
Certeza demais é tum-tum
Batendo feito pandeiro:
Preferia um pensamento inteiro
Que grito vazio comum.
Rir de si, Ele sabia,
É jeito bom de clarear,
Num diminui o pensar,
Só tira ferrugem fria;
Ironia com harmonia
Vale mais que berrar.
Se deixasse ensinamento
Num era ordem nem sermão:
“Discorde sem maldição,
Mude sem arrependimento,
Num faça do ódio um talento
Nem da opinião religião.”
No fim do dia se sentava
Num bar de mesa na calçada,
Pagava a conta ajustada
Sem promessa atrasada,
Sumia no meio da estrada
Sem luz, sem voz anunciada.
Porque se Deus fosse brasileiro,
Sabia bem, sem confusão:
Num é milagre que salva a nação,
É menos grito no terreiro
E mais juízo verdadeiro
No meio da cantoria e do chão.
Por Palmarí H. de Lucena