Se Deus fosse brasileiro, não chegaria anunciando o fim dos tempos. Chegaria dizendo “foi mal o atraso”, com naturalidade absoluta, explicando que pegou trânsito, obra sem placa e um desvio que ninguém sabe quem inventou. Milagre mesmo seria chegar no horário.
Entenderia tudo antes mesmo de explicarem. Saber ia que “já está resolvido” costuma significar “ninguém mexeu”, que “só falta assinar” é código para “volte mês que vem” e que “confia” quase sempre inaugura uma decepção longa. Ainda assim, confiaria. Porque, por aqui, até a desconfiança é cordial.
Talvez fosse visto em filas — sempre nelas. Não para reclamar, mas para observar. Veria gente indignada com o sistema enquanto ensaia um jeitinho de furar a fila. Anotaria mentalmente: fé inabalável na própria exceção. Não interferiria. Deus brasileiro não gosta de atrapalhar processos naturais.
Não faria milagres grandiosos. Preferiria os pequenos: o ônibus que chega quando já não se espera, o documento que aparece sem explicação, a conta que fecha mesmo sem fechar. Milagres discretos, desses que ninguém agradece oficialmente, mas todo mundo comenta.
Nos gabinetes, entraria calado e sairia do mesmo jeito. Descobriria rápido que ali ninguém erra — apenas “interpreta diferente”. Que a responsabilidade é sempre coletiva e a culpa, individual. Suspiraria e seguiria em frente. Onisciência não inclui paciência infinita.
Teria senso de humor treinado no cotidiano. Riria da criatividade nacional para transformar promessa em expectativa vaga e problema em paisagem. Não se ofenderia quando alguém dissesse “Deus sabe o que faz”. Ficaria mais atento aos que acreditam que Ele resolve tudo sozinho.
No fundo, se Deus fosse brasileiro, não tentaria convencer ninguém. Não faria discursos, não escolheria lado, não disputaria aplausos. Já teria aprendido que, por aqui, o excesso de certeza costuma ser mais barulhento do que a razão.
Talvez Seu maior ensinamento fosse a recusa ao exagero. A política não precisa virar guerra santa; o futebol não exige profissão de fé. O Brasil não melhora quando transforma tudo em duelo, mas quando aceita que pensar dá mais trabalho do que torcer — e rende menos curtidas.
Deus brasileiro saberia que o humor é uma forma elevada de lucidez. Rir de si mesmo não enfraquece argumentos; apenas os livra do ranço da vaidade. E a ironia, quando usada com cuidado, vale mais do que gritos carregados de convicções frágeis.
Se deixasse uma lição final, não seria um mandamento. Seria um conselho simples, desses que passam despercebidos justamente por serem sensatos: discordar sem hostilidade, criticar sem ódio, mudar de ideia sem culpa. Nada revolucionário. Apenas civilizatório.
E enquanto o país insiste em dividir o mundo entre bons e maus, vencedores e traidores, Deus brasileiro seguiria fazendo o que faz melhor: observar, sorrir de canto e esperar que, entre uma eleição e um campeonato, a gente entenda que o Brasil não precisa de salvadores — só de menos gritaria e mais juízo.
Pagaria a conta sem reclamar. Aqui até Deus sabe: reclamar não adianta, mas rir ajuda. Agradeceria o atendimento e sairia sem anúncio. Porque, se Deus fosse brasileiro, saberia que sair de cena, às vezes, é o gesto mais eloquente de todos. Se Deus fosse brasileiro.
Por Palmarí H. de Lucena