Há cidades que se visitam; outras parecem ter sido inventadas para justificar uma viagem.
Sancerre pertence à segunda categoria.
Chega-se pela estrada que sobe entre os vinhedos e, pouco a pouco, a paisagem começa a adquirir aquela aparência enganosa das coisas que parecem existir desde sempre. As casas se espalham pela encosta, as vinhas ocupam os terrenos mais inclinados e, no alto, a cidade conserva a postura de quem sabe que já esteve ali muito antes de nós.
Sancerre está sobre uma colina. Na França, isso quase nunca é uma casualidade. Em geral significa que houve um castelo, um bispo, uma família poderosa, uma guerra — ou, como acontece com frequência, tudo isso ao mesmo tempo.
Houve senhores feudais. Houve guerra. E houve um castelo.
Os condes de Sancerre fizeram da colina um lugar de poder e defesa. Séculos mais tarde, durante as Guerras de Religião, os protestantes da cidade resistiram ao exército real num cerco que ficou inscrito na história francesa. É difícil imaginar aquela Sancerre sitiada quando se olha hoje para a paisagem. Lá embaixo, o Loire avança com a tranquilidade dos rios antigos; as vinhas descem pelas encostas; as pequenas aldeias parecem indiferentes às ambições que um dia fizeram homens matarem-se por uma doutrina.
Talvez seja uma das ironias da História: os lugares onde ela foi mais violenta costumam, depois de alguns séculos, tornar-se extraordinariamente fotogênicos.
Da antiga fortaleza resta, entre outras memórias, a Tour des Fiefs. Sobe-se por uma escada que parece ter sido concebida por alguém pouco preocupado com o conforto dos visitantes futuros. Conta-se uma parte dos degraus, perde-se a conta, recomeça-se. Há uma idade em que as pedras medievais começam a ser avaliadas também pelo estado das articulações.
No alto, porém, tudo é perdoado.
A vista explica Sancerre melhor do que qualquer folheto. A cidade está suspensa sobre a paisagem, e as vinhas descem em direção ao horizonte em linhas que parecem naturais até que se perceba o imenso trabalho humano escondido por trás delas.
É uma das especialidades da França: transformar trabalho em paisagem.
Séculos de poda, colheita, espera, fracasso e persistência acabam adquirindo a aparência de uma coisa inevitável. Como se as vinhas sempre tivessem estado ali. Como se os homens apenas tivessem descoberto onde colocar as pedras das casas e as fileiras das videiras.
O vinho, naturalmente, vem logo depois.
Ou talvez tenha vindo antes.
Em Sancerre, é difícil saber onde termina a cidade e começa o vinho. Um explica o outro. A colina determina a vinha; a vinha determina a economia; a economia determina a arquitetura; e, no fim, tudo retorna à garrafa.
O Sauvignon Blanc é a grande celebridade local, embora os entendidos prefiram falar de terroir, exposição, pedra e solo. Há nisso algo de tipicamente francês: transformar uma bebida em uma disciplina intelectual.
Em certas mesas, fala-se do vinho como se se discutisse metafísica.
E talvez seja mesmo.
Há quem seja capaz de reconhecer num gole a diferença entre dois terrenos separados por poucos quilômetros. Essas pessoas me causam uma mistura de admiração e desconfiança. Eu me contento em perceber que a segunda taça costuma tornar a primeira mais compreensível.
Poucos quilômetros adiante está Chavignol, cuja celebridade seria suficiente para uma aldeia muito maior. O nome está associado ao seu pequeno queijo de cabra, o Crottin de Chavignol, que chega à mesa com a modéstia das coisas que não precisam de apresentação.
É um queijo de personalidade.
Não procura seduzir imediatamente. Tem firmeza, caráter e aquela espécie de insolência gastronômica que se encontra com frequência na França. Ao lado de um Sancerre, contudo, estabelece-se uma trégua. E algumas combinações parecem ter sido inventadas não por chefs, mas por gerações de pessoas que tinham tempo para descobrir o que funcionava.
É à mesa que se começa a compreender que os mapas são instrumentos bastante pobres para conhecer uma região.
Um mapa mostra estradas, rios, fronteiras e cidades. Não mostra o cheiro de uma cave. Não mostra a inclinação de uma rua antiga. Não registra o modo como um produtor pronuncia o nome de uma parcela de terra que sua família cultiva há gerações. Não explica por que determinado queijo combina com determinado vinho.
Tampouco registra as pequenas obsessões humanas que acabam construindo uma cultura.
Sancerre é feita delas.
Uma torre que sobreviveu ao castelo. Uma cidade que resistiu a um cerco. Um viticultor que conhece cada parcela pelo nome. Uma família que continua fazendo queijo. Uma garrafa guardada por tempo suficiente para que alguém, muitos anos depois, possa abri-la e perguntar por que teve a prudência de esperar.
É esse tipo de coisa que interessa quando se viaja.
Não apenas aquilo que um lugar possui, mas aquilo que ele decidiu conservar.
Depois de tantas cidades monumentais, capitais imperiais, ruínas célebres e museus onde a Europa parece explicar a si mesma em vitrines, há algo de reconfortante em Sancerre. A cidade não precisa fazer muito esforço para parecer antiga. Ela simplesmente continua ali.
Talvez seja essa a função secreta das pequenas cidades históricas: não nos ensinar uma lição, mas devolver-nos, por algumas horas, a uma escala humana.
Em Sancerre, a História permanece nas pedras, mas o presente está nas garrafas.
E, quando a tarde começa a descer sobre os vinhedos, a paisagem adquire aquela luz que faz qualquer viajante experiente desconfiar das próprias conclusões. Afinal, talvez não seja necessário entender completamente um lugar.
Às vezes basta subir uma colina, olhar o rio, reconhecer o trabalho de muitas gerações nas linhas de uma vinha e sentar-se diante de um bom queijo e de uma taça de vinho.
O resto pode esperar.
Amanhã, afinal, haverá outra garrafa
Palmarí H. de Lucena