O filme O Jardineiro Fiel nos devolveu a um território que nunca deixamos por completo. Não um lugar definido, mas uma condição — poeira no ar, silêncio atravessado pelo vento, a sensação constante de que tudo pode mudar sem aviso. Chegamos ao Quênia em 1982, num tempo de urgência discreta em que as coisas aconteciam sem anúncio prévio e, quase sempre, tarde demais.
A estrada entre Marsabit e o Lago Turkana não oferecia concessões. Terra ondulada, visibilidade irregular, tensão constante. Região de shiftas, onde a ajuda humanitária avançava sob escolta e incerteza. Íamos acompanhados quando o grito — simba — rompeu o ar seco. Bastou um segundo: o veículo perdeu estabilidade e capotou. Sobrevivemos. A picape ficou para trás, uma carcaça verde abandonada no deserto, visível por algum tempo como um marco involuntário.
Acordamos numa base avançada antes do amanhecer, envoltos pelo cheiro de café e pelo som distante de um rádio transmitindo Rachmaninov com uma nitidez improvável. O contraste era absoluto. O norte do país atravessava uma seca prolongada. Entre os Turkana, a vida havia sido reduzida ao mínimo funcional: rebanhos mortos, água escassa, deslocamentos constantes. O gado não representava riqueza, mas permanência. Seguiam as nuvens, disputavam território, e as armas, presentes, eram apenas mais um elemento do cotidiano. Sobreviver era um exercício diário.
Abandonamos as estradas e passamos ao ar. De Nairóbi, voávamos em aeronaves leves rumo a pistas improvisadas, onde o pouso dependia de afastar animais, alinhar visualmente e aceitar o improviso. No solo, duas palavras se repetiam com frequência suficiente para dispensar explicação: jilali e agoro. Seca. Fome. Em um dos voos, fomos envolvidos por uma tempestade de areia. Desviamos, pousamos onde foi possível e seguimos por terra, até sermos interceptados por homens armados que levaram os medicamentos. Não houve negociação. Ali, valor e necessidade raramente coincidiam.
Foi nesse território de tensão que encontramos formas inesperadas de lucidez. Padre Leonel, colombiano, falava pouco e evitava abstrações. Em vez de alimentos, solicitou recursos para adquirir cabras, criando um sistema local capaz de reduzir vulnerabilidades específicas. Não era uma solução ampla. Era uma solução possível. E funcionava. Em Nairóbi, outro encontro nos marcou profundamente. Madre Teresa de Calcutá nos pediu alimentos para Mathare — centenas de milhares vivendo em pobreza abjeta no coração da cidade. Explicamos restrições. Ela respondeu com clareza: não havia tempo para estruturas formais. A demanda era imediata.
Partimos, em seguida, para as Seicheles. Do alto, o Oceano Índico parecia uniforme — até que uma mancha escura começou a se formar na superfície, aproximando-se de Praslin.
Maré vermelha.
Na praia, nada denunciava o fenômeno. Areia clara, mar estável, rotina intacta. À noite, sob luz irregular, o cenário se transformava. Ao som de um acordeão e de uma rabeca, casais dançavam quadrille — uma herança deslocada, mas persistente. Ao mesmo tempo, caranguejos emergiam em grande número, ocupando a areia com movimentos coordenados.
Dois sistemas coexistiam.
No Vale de Mai, a paisagem sugeria outra temporalidade: vegetação densa, ar saturado de aromas, ausência de ruído. Como se o mundo tivesse sido suspenso antes de qualquer intervenção humana. Ali, encerramos nossa estada no Leste Africano. Partimos em 1985.
O próximo destino seria a Bolívia, onde nos aguardava a coordenação de um programa de ajuda humanitária em resposta ao fenômeno El Niño. Mudava o continente, mudava a paisagem, mas não a natureza das urgências. A África ficava para trás — ao menos geograficamente. O que ela havia deixado, não se deixava partir.
Anos depois, retornamos — desta vez rumo à Etiópia. Cruzamos o Vale do Rift, onde a terra se abre e expõe sua própria história. Ali, a ideia de origem deixa de ser abstrata e se torna visível. A tradição menciona a Rainha de Sabá e seu encontro com Rei Salomão como ponto de partida de uma linhagem imperial. Verdade ou construção, pouco importa. A narrativa permanece. E sustenta.
O cristianismo se estabeleceu cedo. No reino de Axum, sob São Frumêncio e o rei Ezana, tornou-se estrutura. A recusa ao Concílio de Calcedônia consolidou uma identidade própria: Tewahedo — unidade.
No Museu Nacional da Etiópia, um jovem nos levou ao subsolo, apontou para um mostruário e disse apenas: “nossa mãe”. Era Lucy — pequena, precisa, irrefutável. Caminhava ereta há mais de três milhões de anos. O nome veio de uma música; a implicação, não. Saímos sem comentários.
Na manhã seguinte, o café foi preparado antes do sol. Rahel conduzia o ritual com precisão. Ao me entregar a xícara, mencionou nuvens no horizonte. Partimos de Addis Abeba.
Em Lusaka, a chuva confirmou o padrão. À noite, no The Brown Frog, a atmosfera era de despedida. Luz irregular, conversas fragmentadas. Aos poucos, tornou-se claro: vários colegas haviam recebido diagnósticos recentes.
HIV.
Não houve dramatização.
Apenas silêncio.
Ainda assim, permanecemos. Bebemos. Conversamos. Dançamos.
Não por negação.
Por continuidade.
No dia seguinte, caminhamos ao longo do Rio Zambeze. Solo úmido, silêncio denso, presença discreta de vida. Sob um baobá, uma criança nos observou por algum tempo, aproximou-se e declarou, com naturalidade, que eu era seu animal favorito.
Não houve contestação.
O céu abriu. As nuvens se dissiparam.
E ficou claro — com a precisão que só vem depois — que não atravessamos a África.
Fomos atravessados por ela.
Seguimos.
Sem conclusões.
Mas com perguntas melhores.
E, por ora, isso basta.
Por Palmarí H. de Lucena