Em nome de Rose, conhecemos uma amiga que sabia passear pela vida com bom humor — e, às vezes, com um humor picante, exagerado, quase over the top. Mas era justamente isso que a tornava tão especial. Rose não se levava muito a sério. Sempre encontrava alguma coisa em si mesma, em uma situação qualquer ou nas pequenas trapalhadas do cotidiano que pudesse arrancar uma risada das outras pessoas.
Ela tinha esse dom raro de cativar. Aproximava, satisfazia, alegrava. Sua presença deixava marcas leves, mesmo quando a vida, para ela, havia sido tudo menos leve.
Ao longo dos anos de convivência, Rose conheceu perdas que poderiam ter feito qualquer pessoa desistir do caminho. Primeiro, seu pai. Depois, sua querida mãe. Mas nenhuma dor se compararia à maior de todas: a perda de um filho, em circunstâncias trágicas.
Há dores que não cabem em palavras. Algumas simplesmente se instalam dentro da gente e passam a fazer parte da paisagem da alma. O peso foi maior do que ela poderia carregar, e, ainda assim, Rose continuou.
Foi galgando, como pôde, o aclive da tristeza. Um passo depois do outro. Retomando o rumo, mesmo que nunca mais completamente inteira, nunca mais exatamente a mesma.
E talvez tenha sido aí que seu amor pela vida tenha ganhado ainda mais força.
Rosa amava viver. E amava registrar a vida. O celular virou uma extensão do seu humor, da sua autoestima, da sua maneira de se enxergar e de mostrar ao mundo quem era. Havia sempre uma foto, um registro, uma pose, um detalhe a ser guardado.
Seu marido costumava brincar que, nas viagens, sua única função era fotografar a amada esposa.
E não era simplesmente tirar fotos.
Era fotografá-la, revisar, escolher, editar cuidadosamente. Afinal, Rose merecia aparecer exatamente como queria ser lembrada: bonita, alegre, vaidosa, divertida e cheia de vida.
Os selfies eram quase uma declaração de existência.
“Estou aqui. Estou vivendo. Estou bonita. Estou feliz.”
E talvez fossem também uma pequena vitória contra tudo aquilo que a vida havia tentado lhe tirar.
Agora, Rosa se foi.
E, com ela, acabaram os selfies, as poses, as fotos cuidadosamente escolhidas, as brincadeiras inesperadas, o humor picante e aquelas histórias que sempre acabavam fazendo alguém rir.
Talvez a tristeza, depois de tanta luta, finalmente tenha encontrado seu descanso.
Para nós, porém, ficou a saudade.
Ficaram as lembranças de uma mulher que sofreu muito, mas que também soube rir muito. Que carregou dores imensas sem deixar que elas apagassem completamente sua capacidade de celebrar a vida.
Ficou Rose — não apenas a mulher das fotografias, mas aquela que estava por trás delas.
E talvez seja essa a melhor fotografia que podemos guardar agora: Rose sorrindo, fazendo alguma brincadeira, encontrando graça em alguma coisa e nos lembrando, mais uma vez, que a vida, apesar de tudo, merece ser vivida.
Os selfies acabaram.
Mas a imagem dela ficou.
E essa, o tempo não apaga.
Palmarí H. de Lucena