Rio Tinto: Arte, Memória e Permanência

Rio Tinto: Arte, Memória e Permanência

Rio Tinto nasceu mais de uma vez. Nasceu dos rios que lhe deram nome e da presença ancestral dos Potiguaras, primeiros guardiões daquela paisagem de mata, água e mar. Renasceu no início do século XX sob o ímpeto das máquinas, das chaminés e dos projetos industriais que transformaram profundamente o litoral norte paraibano. Entre esses diferentes começos, a cidade construiu uma trajetória marcada por deslocamentos e permanências, perdas e reconstruções, onde a cultura se tornou uma das formas mais duradouras de atravessar o tempo.

Durante boa parte do século passado, Rio Tinto foi apresentada como símbolo de progresso. A instalação da Companhia de Tecidos Rio Tinto pela família Lundgren alterou a geografia econômica da região e deu origem a uma das mais ambiciosas experiências industriais do Nordeste brasileiro. Fábricas, vilas operárias, escolas e edifícios administrativos surgiram rapidamente, desenhando uma cidade moldada pelas necessidades da produção.

Mas antes dos galpões industriais existiam os territórios Potiguaras. Antes do som das máquinas, havia os rios, a floresta e os caminhos percorridos por gerações indígenas. A expansão industrial ocupou áreas ancestrais, deslocou famílias e transformou profundamente uma paisagem que por séculos servira de sustento material e espiritual para seus habitantes originários. Muitos dos que perderam suas terras acabaram incorporados ao sistema produtivo que modificara radicalmente seu modo de vida.

A história de Rio Tinto, contudo, não pode ser reduzida à narrativa da industrialização. Ela também é a história de um povo que permaneceu.

Ao longo das décadas, os Potiguaras conservaram suas tradições, fortaleceram suas comunidades e mantiveram viva a relação com o território. A luta pela recuperação de áreas como Monte-Mor tornou-se um dos capítulos mais significativos da resistência indígena contemporânea no Nordeste. Mais do que uma reivindicação fundiária, tratava-se da reafirmação de uma memória coletiva e de um direito histórico à continuidade.

Essa permanência encontrou na cultura uma aliada poderosa.

Se os Potiguaras preservaram a ligação ancestral com a terra, os artistas de Rio Tinto assumiram outra tarefa igualmente importante: impedir que a cidade fosse reduzida às ruínas de sua experiência industrial.

José Lucena compreendeu isso cedo.

Nascido em Rio Tinto em 1938, quando a cidade vivia o auge da atividade fabril, tornou-se um dos mais importantes representantes da arte naïf paraibana. Seu olhar dirigia-se não aos grandes acontecimentos, mas àquilo que frequentemente escapa aos registros oficiais: a vida cotidiana. Feiras, procissões, mercados, festas populares, estações ferroviárias e personagens anônimos ganham presença em suas telas por meio de cores vibrantes e composições marcadas pela espontaneidade.

Seu talento consistia em reconhecer grandeza onde outros viam apenas rotina. As figuras que habitam sua obra não representam heróis nem autoridades; representam a continuidade da vida popular nordestina. Em suas pinturas, Rio Tinto deixa de ser cenário para tornar-se personagem. Cada tela preserva hábitos, gestos e encontros que ajudam a compreender a alma de uma comunidade.

Não por acaso, sua produção recebeu reconhecimento nacional e despertou a admiração de intelectuais como Ariano Suassuna, que identificava em sua pintura a força criadora das tradições populares brasileiras.

Newton Alves percorreu outro caminho, mas movido pela mesma necessidade de preservar.

Também filho de Rio Tinto, dedicou sua trajetória à arte sacra, dialogando com a rica tradição da imaginária religiosa brasileira. Suas esculturas e pinturas inspiradas nos séculos XVII e XVIII demonstram domínio técnico e profundo respeito por um patrimônio cultural transmitido através das gerações.

Ao recriar santos, mártires e figuras da devoção popular, Newton Alves não apenas reproduziu formas artísticas consagradas. Sua obra reafirma a continuidade de um universo simbólico que permanece vivo na experiência cotidiana do Nordeste. Em suas mãos, a tradição religiosa deixa de ser objeto de contemplação histórica e torna-se presença.

Entre a pintura de José Lucena e a escultura de Newton Alves existe um ponto de encontro fundamental: ambos compreenderam que a arte pode desafiar o esquecimento. Enquanto um registrou os ritmos da vida popular, o outro preservou os símbolos da espiritualidade coletiva. Juntos, ajudaram a construir um patrimônio cultural que ultrapassa os limites da cidade e integra a história artística da Paraíba.

Hoje, quando os antigos edifícios industriais procuram novos significados e os Potiguaras reafirmam sua presença nas terras de seus ancestrais, Rio Tinto parece atravessar um raro momento de reencontro consigo mesma. Durante décadas, a cidade foi narrada quase exclusivamente pelas façanhas da indústria. Aos poucos, porém, outras vozes emergem dos arquivos, das aldeias, das igrejas, dos ateliês e das lembranças familiares para compor um retrato mais amplo e mais verdadeiro.

O futuro de Rio Tinto talvez dependa justamente dessa capacidade de transformar herança em horizonte. Poucas cidades brasileiras reúnem, num mesmo território, a presença indígena dos Potiguaras, a memória de uma grande experiência industrial e uma produção artística tão profundamente enraizada na vida local. Reconhecer essa singularidade não constitui apenas um exercício de valorização histórica; representa uma oportunidade concreta para fortalecer a educação patrimonial, ampliar a proteção dos bens culturais e consolidar um modelo de turismo baseado na autenticidade de sua trajetória.

A antiga fábrica, as aldeias Potiguaras, a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, os acervos artísticos, as paisagens de Monte-Mor e as obras de José Lucena e Newton Alves não são elementos isolados. Juntos, formam uma narrativa rara sobre transformação, pertencimento e continuidade. Investir na conservação desse patrimônio, estimular a circulação da produção artística local e fortalecer iniciativas culturais ligadas às comunidades indígenas significa preservar o passado e, simultaneamente, ampliar as possibilidades do futuro.

Entre rios, antigas chaminés e territórios indígenas, Rio Tinto continua escrevendo a própria história. Não uma história encerrada nos arquivos ou preservada apenas nos monumentos, mas uma história viva, contada por aqueles que permanecem. Os artistas que registram o cotidiano. Os mestres que guardam tradições. Os Potiguaras que seguem defendendo a terra de seus ancestrais. E os moradores que, todos os dias, renovam os laços entre passado e futuro.

É nessa convivência entre lembrança e reinvenção que reside a verdadeira riqueza de Rio Tinto — uma cidade que nasceu mais de uma vez e que continua, ainda hoje, encontrando novas formas de permanecer.

Palmarí H. de Lucena