Mais de meio século se passou desde que pisei pela primeira vez na Islândia, terra de fogo e gelo, refúgio de um jovem que buscava recomeçar entre montanhas de lava e fiordes de silêncio. Volto agora não como fugitivo, mas como viajante reconciliado com o tempo. A paisagem reaparece intacta e ao mesmo tempo mais grandiosa: o vento gelado corta o rosto com violência, trazendo consigo o aroma salgado do Atlântico; as casas de turfa exalam madeira e terra úmida; os campos de lava soam como tambores ocos sob os passos, lembrando a instabilidade das placas tectônicas que sustentam a ilha.
Não é difícil compreender por que, na Idade Média, monges europeus acreditavam que o inferno se abria na Islândia. As erupções cuspindo rios de fogo sobre a neve, o cheiro de enxofre impregnando o ar, a terra tremendo como se respirasse — tudo parecia descrição bíblica do castigo eterno. O que para eles era inferno, para nós se tornou espetáculo: a coreografia implacável da natureza. E quando a aurora boreal rasga o céu em verdes e púrpuras, parece zombar desses temores antigos, transformando a noite em um vitral vivo, uma liturgia cósmica.
Do gelo islandês sigo para o Báltico, onde as cicatrizes humanas substituem as marcas da terra. Na Lituânia, o Monte das Cruzes ergue-se como oração coletiva e obstinada: milhares de cruzes de madeira, ferro ou pedra, amontoadas ao vento, cada uma recordando um ausente — vítimas de ocupações, prisões, deportações. Caminhar entre elas é sentir o luto transformar-se em resistência, como se o campo inteiro rezasse em silêncio.
Em Riga e Vilnius, os museus da ocupação nazista e da KGB revelam a brutalidade com precisão quase insuportável. As celas estreitas ainda cheiram a umidade e ferro oxidado; os corredores parecem ecoar os passos daqueles que nunca regressaram. Rostos de desaparecidos pendem das paredes como olhos que nos interpelam, arquivos denunciam como a lei foi deformada em instrumento de terror, mapas exibem o saque sistemático de recursos. São espaços onde não se contempla apenas a história: sente-se nas entranhas a dor de povos submetidos ao arbítrio.
Em Tallinn, muralhas medievais guardam a memória, mas nelas ecoa hoje a música de jovens artistas e o aroma de pães recém-assados nas padarias da cidade antiga. Ali, onde tanques soviéticos já avançaram, crianças correm despreocupadas, e essa leveza cotidiana é talvez a forma mais vigorosa de liberdade. A Lituânia, a Letônia e a Estônia aprenderam a sobreviver às investidas de nazistas e soviéticos, à pilhagem de recursos e ao exílio imposto, e transformaram dor em fibra, silêncio em canto, submissão em soberania.
Entre os extremos — a Islândia moldada pela fúria da terra e os Bálticos marcados pela violência dos impérios — encontro um fio comum: a capacidade de renascer. A Islândia lembra que o planeta nunca repousa; os Bálticos ensinam que nenhum regime é eterno. Sob o céu ártico, a aurora dissolve a noite mais escura; no campo lituano, as cruzes erguem-se contra o esquecimento.
Viajar, afinal, é compreender que o retorno nunca é apenas geográfico. Ao deixar para trás o Atlântico e o Báltico, guardo comigo não o peso das dores que testemunhei, mas o sopro de sua superação: o brilho das auroras que dissolvem a escuridão, o murmúrio das cruzes que rezam pela vida, o riso das crianças nas praças de Vilnius e Tallinn. É nesse instante que entendo que o futuro nasce da memória — e que cada viagem, como a própria existência, é uma promessa de recomeço.
Por Palmarí H. de Lucena