Religião, política e soberania: os sentidos em disputa no 7 de Setembro

Religião, política e soberania: os sentidos em disputa no 7 de Setembro

O 7 de setembro, data que deveria celebrar a independência e a soberania do Brasil, tem sido cada vez mais disputado no campo simbólico. Em 2025, em São Paulo, além do tradicional desfile cívico-militar no Sambódromo do Anhembi — que reuniu milhares de participantes em homenagem à República e à sua história — a capital também testemunhou manifestações políticas de forte caráter religioso. Nessas marchas, discursos de tom messiânico e o uso de símbolos externos dividiram a cena com a bandeira nacional, em meio a uma atmosfera que evocava mais um espetáculo esportivo global do que a memória de um ato fundacional da pátria. Enquanto isso, no centro da cidade, o Grito dos Excluídos lembrava que independência também significa justiça social, inclusão e democracia.

A evocação da Marcha Integralista e de slogans como “Ouro para o Bem do Brasil”, associados ao nacionalismo autoritário do século XX, revelam como antigas ideias ainda ecoam no presente. O integralismo de Plínio Salgado, que defendia a fusão entre religião, moral e Estado, permanece como sombra que paira sobre o debate público, indicando riscos à pluralidade democrática.

Esse cenário remete a processos históricos mais amplos. Durante a ditadura militar (1964–1985), o país abriu espaço para a expansão de correntes pentecostais e, posteriormente, neopentecostais vindas dos Estados Unidos, vistas então como alternativa à influência da Teologia da Libertação no catolicismo. Ao longo das décadas, esses grupos consolidaram-se como forças políticas e midiáticas, ampliando sua capacidade de influência sobre a sociedade e sobre o sistema representativo.

A história também oferece exemplos de alerta. Em 1978, na Guiana, a comunidade criada por Jim Jones terminou em tragédia, com mais de novecentas mortes em um suicídio coletivo forçado. O episódio de Jonestown tornou-se símbolo mundial do perigo que surge quando a fé é instrumentalizada e transformada em mecanismo de controle absoluto sobre corpos e consciências. Ali, como em outras experiências autoritárias, a promessa de igualdade e justiça foi substituída por culto à personalidade e obediência cega.

A comparação é inevitável: quando discursos políticos se valem da religião para impor uma visão única de mundo, há o risco de se abrir caminho para um teocratismo disfarçado de patriotismo. Nesse processo, líderes espirituais tornam-se figuras de poder, enquanto políticos, em alianças oportunistas, tratam a fé como moeda de troca. O resultado pode ser a substituição do debate democrático por dogmas rígidos, da diversidade pela uniformidade, da esperança pela lógica do medo.

É nesse ponto que o sentido do 7 de setembro se fragiliza. A independência, conquistada para garantir autonomia e pluralidade, não pode ser reduzida a encenação ou a celebração de interesses externos. A preservação da soberania brasileira passa pela defesa intransigente de um Estado laico e democrático, capaz de assegurar espaço para todas as vozes.

A lição que a história nos oferece — seja nas marchas do passado, seja na lembrança amarga de Jonestown — é clara: quando a fé é utilizada como instrumento de poder político, corre-se o risco de transformar a liberdade em submissão. Cabe à sociedade garantir que a data da independência não seja apropriada por projetos que neguem sua essência. Só assim o Brasil poderá afirmar-se, de fato, como uma nação livre, plural e soberana

Por Palmarí H. de Lucena