“O esquecimento é também uma forma de violência.”
Sob a cúpula carbonizada de Hiroshima, o vento parece carregar não apenas poeira, mas ecos de vozes antigas. O filme de Alain Resnais, Hiroshima, mon amour, volta à memória como uma ferida que se recusa a cicatrizar, lembrando-nos que há dores que não se encerram no calendário. A protagonista, estrangeira, caminha pelas ruas reconstruídas da cidade, mas o que seus olhos veem não são apenas prédios novos ou praças silenciosas: ela percebe a tensão entre lembrar e esquecer, entre amar e condenar.
O domo da bomba, sobrevivente solitário do clarão atômico, ergue-se como um altar da catástrofe e, ao mesmo tempo, da persistência da vida. Ao seu redor, florescem as cerejeiras, que em cada primavera cobrem de rosa o concreto, como se a natureza quisesse ensinar a doçura do renascer. Os passantes se movem devagar, como se saboreassem esse sopro de esperança, esse silêncio que já não é vazio, mas memória viva e vigilante.
Entretanto, esse renascimento, tão delicado quanto as pétalas que o vento espalha, volta a ser ameaçado. O mundo, que jurou não repetir Hiroshima e Nagasaki, parece ter esquecido a própria promessa. Os mecanismos multilaterais que deveriam conter a corrida armamentista enfraqueceram, submetidos às vontades volúveis de líderes autoritários. O antigo terror da destruição mutuamente assegurada, que durante a Guerra Fria servia como freio, dissolveu-se em bravatas e discursos inflamados. O “clube nuclear”, antes restrito e temido, expande-se sem critério, transformando ogivas em troféus de poder, enquanto a humanidade se aproxima perigosamente da beira de um abismo de intolerâncias.
O pedido do povo de Hiroshima, que se tornou um símbolo mundial da memória da guerra e da resistência à barbárie nuclear, é claro e recorrente desde 1945: que nenhuma cidade do mundo passe novamente pelo horror da bomba atômica. Na abertura de cada cerimônia anual no Parque da Paz de Hiroshima, sobreviventes — os hibakusha — e autoridades locais pedem o fim das armas nucleares e a construção de um futuro baseado na paz.
A mensagem que ecoa do chamado “Domo da Bomba” é de advertência: lembrar, para não repetir. O apelo não é apenas japonês, mas humano. Os hibakusha insistem em que a memória da destruição não pode ser usada para justificar novas violências, mas sim para fundar valores humanitários universais. Pedem ao mundo que substitua o orgulho bélico pela solidariedade, que preserve os compromissos internacionais de não proliferação e que rejeite a tentação de líderes que, embalados pelo nacionalismo, consideram algumas vidas descartáveis.
Talvez, como advertiu Einstein, devamos lembrar que “A força sempre atrai homens de baixa moral… É um engano pensar que o poder é um meio de destruir ideais.” Ao contemplar o domo e as cerejeiras que florescem sobre as cicatrizes da terra, compreendemos que o maior gesto de lealdade — não só à pátria, mas à própria espécie — é manter viva a memória das chamas para que os tambores da guerra, cada vez mais ensurdecedores, não nos arrastem outra vez à repetição da tragédia.
Por Palmarí H. de Lucena