Um cordel de aroma, desejo e sedução
Quem disse que um bom café
Não conhece sedução?
Quando sobe a sua fumaça,
Aquece o meu coração.
Cada gole faz convite,
Sem pedir explicação.
Na espuma mora um segredo,
Feito renda de algodão;
A roseta abre as pétalas
Com perfeita precisão.
Parece um beijo suspenso,
Pedindo contemplação.
A xícara branca espera
O calor de cada mão;
Os lábios chegam de leve,
Cumprindo antiga intenção.
Beijo quente, demorado,
Feito pura comunhão.
O amargo dança com o doce
Num perfeito casamento;
O aroma invade o peito,
Desarruma o pensamento.
Quem se entrega ao bom café
Bebe mais que um sentimento.
Não precisa corpo exposto,
Nem exagero ou paixão;
O desejo mora oculto
Na mais breve sensação.
Há erotismo na espera,
No vapor da infusão.
Quem disser que o bom café
É só simples bebida,
Nunca viu na branca espuma
Uma flor tão atrevida.
Há xícaras que nos beijam
E despertam nossa vida.
Palmarí H. de Lucena