Estudo publicado no BMJ, uma das mais tradicionais revistas científicas internacionais de medicina, chama atenção para um fenômeno que pode passar despercebido: quando um efeito colateral é confundido com um novo problema de saúde e acaba dando origem a outra receita.
Há momentos em que a vida parece caber dentro de uma caixa de remédios. Um comprimido pela manhã, outro depois do almoço, mais um à noite. Cada um chegou em um momento diferente, para uma necessidade diferente. E, com o passar do tempo, a lista cresce quase sem que a gente perceba.
Então aparece um sintoma novo. Uma dor que não existia, uma noite de sono que se torna difícil, o intestino que deixa de funcionar como antes. A impressão é de que alguma coisa nova aconteceu com o corpo. E é natural procurar uma solução.
Às vezes, essa solução vem na forma de outro medicamento.
É justamente nesse ponto que começa uma história que a medicina chama de “cascata de prescrição”. O nome parece complicado, mas a ideia é simples: um remédio provoca um efeito indesejado, esse efeito é confundido com uma nova doença e outro medicamento é prescrito para tratá-lo. Assim, um remédio pode acabar chamando outro.
O assunto ganhou atenção com um estudo publicado no BMJ — British Medical Journal, uma das mais tradicionais revistas científicas internacionais na área da medicina. A publicação reúne pesquisas avaliadas por especialistas antes de serem divulgadas. Nesse trabalho, pesquisadores analisaram dados de mais de 2 milhões de pessoas idosas em Ontário, no Canadá, e identificaram 24 combinações de medicamentos que merecem atenção por sua possível relação com cascatas de prescrição.
O número chama atenção, mas é preciso entender o que ele significa.
Os pesquisadores não estão dizendo que essas combinações sejam necessariamente erradas, nem que os medicamentos devam ser abandonados. O próprio estudo ressalta que a lista não deve ser tratada como uma relação de remédios a serem evitados. Em determinadas situações, acrescentar uma segunda medicação pode ser necessário e importante para o cuidado do paciente.
O que o estudo propõe é uma pausa. Uma espécie de olhar para trás antes de seguir adiante.
Quando um novo sintoma aparece, será que ele realmente representa um novo problema? Ou pode ter alguma relação com um medicamento que já vinha sendo usado?
A pergunta é especialmente importante para os idosos. Com o passar dos anos, diferentes doenças podem se acumular — e, junto com elas, diferentes tratamentos. Um medicamento pode ter sido prescrito há muito tempo; outro, mais recentemente. Um pode ter sido indicado por um especialista; outro, por um clínico. No meio dessa história, podem surgir sintomas cuja origem já não é tão fácil de identificar.
Há ainda um detalhe que torna tudo mais difícil: nem todo efeito colateral aparece imediatamente. Alguns podem surgir semanas ou meses depois do início de um tratamento. Quando isso acontece, a ligação entre o medicamento e o sintoma pode se perder na memória do paciente e na rotina das consultas.
Os exemplos citados no estudo ajudam a tornar essa situação mais clara. O ferro, por exemplo, pode provocar prisão de ventre e, diante disso, o paciente acabar recebendo um laxante. Algumas estatinas, usadas para controlar o colesterol, podem causar dores musculares e levar à utilização de medicamentos para aliviar a dor.
Outro exemplo envolve os inibidores da colinesterase, utilizados para tratar sintomas cognitivos relacionados à demência. Como também podem interferir no sono, um problema de sono pode acabar levando, em determinadas situações, à prescrição de um medicamento para dormir.
É uma sequência que merece atenção, mas não julgamento.
A medicina não trabalha com receitas iguais para pessoas diferentes. O que é adequado para um paciente pode não ser para outro. Há situações em que o segundo medicamento é necessário e seus benefícios superam os possíveis riscos. É por isso que os pesquisadores falam em possíveis cascatas de prescrição, e não em erros de prescrição.
Talvez a grande lição esteja justamente nessa diferença.
Vivemos em uma época em que, diante de um sintoma, somos rapidamente levados a procurar alguma coisa que o faça desaparecer. É compreensível. A dor incomoda, a insônia desgasta, a prisão de ventre atrapalha. Queremos uma resposta e, muitas vezes, uma resposta rápida.
Mas nem toda resposta precisa começar com um novo comprimido.
Às vezes, antes de perguntar “o que tomar?”, vale perguntar “por que isso está acontecendo?”
Essa pequena mudança de pergunta pode abrir outra conversa no consultório.
Quando surge um novo sintoma, pode ser útil lembrar quando ele começou, quais medicamentos estavam sendo usados naquele período e se houve alguma mudança recente no tratamento. Também vale informar ao profissional todos os medicamentos utilizados, inclusive aqueles comprados sem receita.
O estudo recomenda manter uma lista atualizada dos medicamentos, com seus nomes, doses, momento em que foram iniciados e motivo pelo qual foram prescritos. Parece uma providência simples, mas pode ajudar o profissional de saúde a enxergar o tratamento como um todo.
E há uma razão para insistir nisso. Um medicamento contado pela metade também produz uma história pela metade.
Aquele analgésico comprado na farmácia, o laxante usado de vez em quando ou o remédio para dormir que alguém recomendou também fazem parte da rotina. Os pesquisadores observam que os medicamentos adquiridos sem receita por iniciativa própria não foram considerados na análise, mas ressaltam a importância de informar seu uso aos profissionais de saúde.
No consultório, algumas perguntas podem ser mais importantes do que parecem: esse sintoma pode estar relacionado a algum medicamento que já estou tomando? Esse tratamento ainda é necessário? Existe outra opção? A dose pode ser ajustada?
São perguntas para serem feitas ao profissional de saúde, não decisões para serem tomadas sozinho. Medicamentos importantes não devem ser interrompidos ou modificados sem orientação.
O que o estudo do BMJ nos lembra, no fundo, é algo bastante humano: às vezes, ficamos tão concentrados em resolver o problema que esquecemos de perguntar de onde ele veio.
Medicamentos são uma das grandes conquistas da medicina. Controlam doenças, aliviam sofrimento, previnem complicações e salvam vidas. O objetivo não é ter menos remédios a qualquer custo. É ter tratamentos que façam sentido para cada pessoa e sejam revistos sempre que necessário.
Talvez seja essa a imagem que fica depois de conhecer o estudo: a de uma caixa de medicamentos que merece ser aberta não apenas para tomar os comprimidos, mas também para lembrar a história de cada um deles.
Quem prescreveu? Por quê? Quando começou? Ainda é necessário? Algum sintoma apareceu depois?
Perguntas simples podem revelar uma história que, com o tempo, ficou escondida entre tantas outras.
Porque cuidar também é saber acrescentar.
Mas cuidar é, igualmente, saber parar por um instante, olhar o que já está sendo feito e perguntar se ainda faz sentido.
E talvez, diante de uma nova queixa, antes de pensar no próximo comprimido, valha fazer uma pausa:
será que o remédio que deveria ajudar não está, sem querer, participando da história desse novo sintoma?
Palmarí H. de Lucena
Crédito científico: texto baseado no estudo “Exploring high priority potentially inappropriate prescribing cascades in older adults: population level retrospective cohort study”, publicado no The BMJ em 2026. A pesquisa analisou mais de 2 milhões de pessoas idosas e identificou 24 padrões de medicamentos que merecem atenção por sua possível relação com cascatas de prescrição.