No salão silencioso de um velho instituto de estudos políticos, as paredes pareciam conter os ecos de séculos. Entre livros de capa dura e retratos de estadistas, dois homens, separados por quase duzentos anos, encontraram-se no fio do impossível.
De um lado, Alexis de Tocqueville, olhar agudo, feições esculpidas pela reflexão, segurando contra o peito seu exemplar já gasto de “Da Democracia na América”. Do outro, Donald J. Trump, terno impecável, gravata vermelha flamejante e um celular sempre em mãos.
Tocqueville foi o primeiro a quebrar o silêncio, com uma voz que soava tanto curiosa quanto pesarosa:
— Senhor Trump, devo confessar-lhe, com a franqueza de um observador da condição humana, que jamais imaginei, em minha época, que a democracia americana pudesse produzir figuras como… vossa senhoria.
Trump ajeitou a gravata, estufou o peito e respondeu, com aquela segurança que só ele parecia possuir:
— Veja, Alexis — disse, abanando a mão como quem afasta uma bobagem — eu previ tudo. A democracia? Funciona quando você sabe negociar. E ninguém, absolutamente ninguém, é melhor nisso do que eu. Pergunte a qualquer um. Todos sabem.
Tocqueville manteve a compostura. Seus olhos apertaram-se levemente, como quem analisa um fenômeno raro, quase patológico.
— E é justamente aí, senhor Trump, que reside o perigo. Quando a liberdade se dobra ao populismo, quando os cidadãos trocam sua autonomia por conforto, quando a busca pelo bem comum é substituída pelo culto à vaidade… a democracia adoece.
Trump, indiferente à gravidade do raciocínio, ergueu o dedo em riste, como quem dita sentença:
— Isso é papo de intelectual. O povo quer resultados, não discursos. Eles gostam de força, de quem fala na cara. Construo muros, não pontes. E quem não entende isso… perde.
Tocqueville respirou fundo. Olhou para o homem à sua frente, olhou além dele — para a América, para o mundo, para a história — e disse, quase num sussurro que atravessava gerações:
— Talvez, senhor Trump… talvez a história não seja, afinal, um mestre. Seja apenas um espelho torto. Um espelho no qual as repetições se tornam farsas…
Trump nem ouviu. Já teclava algo no celular. Um novo tweet, talvez.
“Encontrei hoje um francês muito estranho. Não entende nada de sucesso. #Sad #FakePhilosophy”