Quando os loucos parecem os últimos lúcidos

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Quando os loucos parecem os últimos lúcidos

À primeira vista, O Rei de Copas e O Alienista partem de premissas semelhantes: uma cidade, um asilo e a suspensão das hierarquias usuais entre sanidade e loucura. Mas seus movimentos são opostos — e justamente por isso complementares. Juntos, oferecem uma lente poderosa para compreender o mundo contemporâneo, marcado por polarização, moralismo e perda de mediações racionais.

No filme de Philippe de Broca, a guerra esvazia a cidade “normal” e deixa o palco para os internos do hospício. Quando os chamados loucos assumem o cotidiano, o que surge não é o caos, mas uma convivência pacífica, lúdica e estranhamente razoável. A insanidade, ali, não ameaça a vida; a guerra, sim. A lucidez aparece onde menos se espera. O mundo “são” é o mundo que mata.

Machado de Assis percorre o caminho inverso. Em O Alienista, o médico Simão Bacamarte constrói um sistema racional perfeito para classificar a loucura — e, ao fazê-lo, enlouquece a cidade inteira. Aqui, não são os loucos que tomam o poder, mas a razão absoluta, desprovida de limites, ironia e autocrítica. O asilo não é refúgio; é instrumento de controle. A normalidade vira exceção estatística.

O ponto de encontro entre as duas obras está menos na loucura e mais na crítica à certeza. Em Rei de Copas, a certeza militar — ordens, estratégias, patriotismo — conduz ao absurdo moral da guerra. Em O Alienista, a certeza científica conduz ao autoritarismo travestido de método. Em ambos, o perigo não está no desvio, mas na convicção inabalável.

O presente ecoa essas duas advertências. Vivemos um tempo em que a política frequentemente assume traços de cruzada moral ou de experimento tecnocrático. De um lado, discursos que dividem o mundo entre “salvos” e “perdidos”, “patriotas” e “inimigos”, tratando o dissenso como ameaça existencial. De outro, soluções supostamente técnicas, algorítmicas ou jurídicas que ignoram o tecido social e dispensam o debate público em nome da eficiência ou da pureza institucional.

Vista por Rei de Copas, a situação atual revela um paradoxo inquietante: em nome da ordem, aceita-se a violência simbólica e real; em nome da normalidade, tolera-se o desumano. A empatia passa a parecer ingenuidade, e a moderação, fraqueza. A guerra cultural substitui a política.

Vista por O Alienista, o risco é outro, mas complementar: a tentação de classificar, rotular e excluir em escala crescente. Quem discorda é tratado como irracional; quem questiona, como desvio; quem resiste, como patologia social. A Casa Verde reaparece sob novas formas — tribunais morais, bolhas digitais, unanimidades impostas.

Se Simão Bacamarte vivesse hoje, talvez não precisasse de um manicômio físico. Bastariam métricas, algoritmos e consensos automáticos. Se os personagens de Rei de Copas caminhassem pelas cidades atuais, talvez fossem os únicos capazes de perguntar por que tanta fúria é chamada de lucidez.

Ambas as obras convergem numa lição incômoda: sociedades não enlouquecem por falta de razão, mas por excesso de certezas. Quando a política perde o humor, a dúvida e o limite, ela se aproxima perigosamente da guerra ou do asilo — às vezes dos dois ao mesmo tempo.

No fim, o Rei de Copas e O Alienista não defendem a loucura; defendem a humildade. Num mundo que confunde convicção com virtude e força com verdade, talvez os últimos lúcidos sejam aqueles que ainda desconfiam das explicações perfeitas.

Por Palmarí H. de Lucena