Toda sociedade encontra maneiras de reconhecer aqueles que considera dignos de admiração. Algumas são discretas; outras assumem caráter solene. Títulos honoríficos, medalhas, menções honrosas e homenagens públicas fazem parte dessa tradição. Quando concedidas com critério, cumprem uma função legítima: registram uma contribuição, preservam uma memória e tornam público aquilo que uma instituição considera relevante.
O problema, portanto, não está na existência das homenagens, mas no significado que lhes atribuímos. Uma distinção pode reconhecer o mérito, mas não pode produzi-lo. Ao receber uma medalha ou um título, uma pessoa incorpora à sua trajetória também parte do prestígio da instituição que a homenageou. Esse reconhecimento tem valor simbólico e pode influenciar a percepção pública sobre o homenageado. O cuidado necessário é não transformá-lo em prova definitiva de competência, autoridade ou excelência. A homenagem pode reconhecer uma qualidade; não substitui a necessidade de demonstrá-la.
O tempo de permanência em uma instituição ajuda a compreender essa diferença. Uma longa trajetória pode revelar dedicação, experiência, continuidade e compromisso. Em muitos casos, esses elementos constituem méritos importantes. Mas sua duração não permite avaliar, sozinha, a qualidade da trajetória. Pessoas que permanecem durante o mesmo período em uma organização podem apresentar contribuições e resultados muito diferentes. O tempo demonstra continuidade; o mérito se revela naquilo que foi realizado ao longo dele.
O mesmo princípio vale para medalhas, menções honrosas e títulos. Uma medalha pode reconhecer uma realização excepcional; uma menção honrosa pode destacar uma contribuição específica; um título honorífico pode expressar o respeito de uma instituição por determinada trajetória. Nenhuma dessas distinções, porém, elimina a necessidade de saber o que está sendo reconhecido. O valor da homenagem depende da relação entre a distinção e o mérito que a justifica.
Essa questão se torna ainda mais relevante em uma época na qual os currículos também funcionam como instrumentos de apresentação pública. Títulos, cargos, medalhas e homenagens podem ser acumulados, registrados e divulgados, formando uma narrativa de prestígio que nem sempre permite conhecer, de imediato, a natureza de cada reconhecimento. Isso não significa que uma extensa lista de homenagens seja artificial ou imerecida. Uma pessoa pode ter uma trajetória excepcional e ser legitimamente reconhecida por diferentes instituições. O que merece cautela é transformar a quantidade de distinções em medida da qualidade das realizações. O número de homenagens mostra quanto reconhecimento alguém recebeu; não determina, por si só, o valor de sua trajetória.
Essa reflexão conduz ao papel das instituições. Organizações são formadas por pessoas, e as pessoas estabelecem relações profissionais, acadêmicas, culturais e sociais. Essas relações fazem parte da vida institucional e não constituem, por si mesmas, sinal de favorecimento. Da mesma forma, uma homenagem não deve ser vista como resultado de interesse particular apenas porque existe alguma relação entre o homenageado e aqueles que participam da decisão.
O ponto é outro: quanto maior a importância de uma distinção, maior deve ser o cuidado com os critérios usados para concedê-la. Critérios claros não servem apenas para prevenir desvios; também protegem decisões legítimas. Quando uma instituição consegue explicar por que determinada pessoa foi escolhida, fortalece a legitimidade do homenageado e a própria credibilidade institucional.
Essa preocupação ganha importância quando diferentes organizações compartilham pessoas, ambientes e mecanismos de reconhecimento. É natural que profissionais, intelectuais e dirigentes circulem entre instituições e, em diferentes momentos, participem de atividades, conselhos ou decisões. Essa circulação faz parte da vida institucional. Justamente por isso, procedimentos transparentes ajudam a demonstrar que as escolhas obedecem a critérios compreensíveis e não apenas às circunstâncias do momento.
Essa é, antes de tudo, uma questão de credibilidade institucional, não de natureza partidária ou ideológica. Instituições dependem de confiança. Essa confiança não resulta apenas da reputação construída ao longo dos anos, mas também da percepção de que as decisões são coerentes, justificáveis e compatíveis com os valores que a própria instituição afirma defender.
Cada instituição pode adotar critérios diferentes. Uma pode valorizar a longevidade e a dedicação; outra, a produção intelectual, a contribuição social, a liderança ou a inovação. Não é necessário que todas sigam o mesmo modelo. O essencial é que o critério seja compreensível e que exista uma relação clara entre aquilo que se pretende valorizar e a pessoa escolhida para receber a distinção.
É nesse contexto que se deve distinguir entre reconhecer o mérito e construir uma imagem de mérito. O primeiro é uma função legítima das instituições. O segundo pode ocorrer quando uma distinção passa a ser interpretada como prova suficiente de competência ou excelência. A chamada “fogueira das vaidades” pode ser entendida nesse sentido: não como acusação contra pessoas específicas, mas como uma tendência humana.
O desejo de reconhecimento é legítimo. Ser valorizado pelo trabalho realizado faz parte da experiência humana. A dificuldade surge quando o reconhecimento passa a ser mais importante do que aquilo que deveria ser reconhecido. Nesse momento, o símbolo corre o risco de ocupar o lugar da realidade.
Uma sociedade madura não precisa rejeitar cerimônias, símbolos ou homenagens. Precisa apenas preservar a proporção entre o símbolo e aquilo que ele representa. Uma medalha tem valor porque existe uma realização que a sustenta; um título tem significado porque existe uma trajetória que o justifica; uma homenagem é relevante porque existe algo digno de ser lembrado.
Quando essa relação é preservada, todos ganham. O homenageado recebe um reconhecimento legítimo, a instituição reafirma seus valores e a sociedade consegue identificar contribuições que merecem ser conhecidas. Quando essa relação se enfraquece, a distinção pode se banalizar, o currículo pode se encher de símbolos e o significado original da homenagem pode perder força.
Por isso, diante de qualquer honraria, talvez seja mais útil perguntar o que está sendo efetivamente reconhecido do que simplesmente observar quantos títulos alguém possui. Que contribuição foi realizada? Que conhecimento foi produzido ou compartilhado? Que resultado foi alcançado? Que benefício foi gerado para a instituição ou para a sociedade? Essas perguntas não diminuem o valor da homenagem; ao contrário, ajudam a preservá-lo, porque recolocam o foco naquilo que deveria estar em sua origem: a realidade que o símbolo pretende representar.
Depois que a cerimônia termina, os discursos são esquecidos e as fotografias deixam de circular. Permanecem a trajetória, a contribuição, o conhecimento, o trabalho realizado e os resultados alcançados. É nesse momento que o reconhecimento encontra seu verdadeiro sentido. Honrar alguém não deveria significar atribuir-lhe um mérito que não possa ser demonstrado, mas reconhecer publicamente um mérito que já se revelou na realidade.
A diferença pode parecer pequena. Institucionalmente, porém, é fundamental. Preservá-la significa proteger o valor das homenagens e evitar que elas se transformem em instrumentos de prestígio desvinculados daquilo que deveriam representar. O verdadeiro valor de uma homenagem está menos na solenidade que a acompanha do que na consistência da trajetória que ela pretende celebrar.
Uma honraria criteriosa engrandece quem a recebe porque reconhece algo que merece ser lembrado. Ao mesmo tempo, fortalece a instituição que a concede, porque demonstra que seus valores não são apenas declarados, mas praticados. Honrarias devem coroar o mérito, não construí-lo; registrar uma trajetória, não substituí-la; reconhecer uma contribuição, não criar a aparência de que ela existiu.
Essa perspectiva não diminui o valor das distinções. Ao contrário, procura preservá-lo. Quanto mais responsável for a escolha, maior será o significado da homenagem. Reconhecimento e mérito devem caminhar juntos, mas não devem ser confundidos: o reconhecimento é a expressão pública do mérito, enquanto o mérito precisa encontrar fundamento na trajetória e nas realizações de quem o recebe.
No fim, a questão não é ser favorável ou contrário a títulos, medalhas e homenagens. É compreender a responsabilidade que acompanha o ato de reconhecer. Quando uma instituição concede uma distinção, também afirma o que considera digno de ser valorizado. Preservar a coerência entre essa escolha e o mérito que a sustenta é uma forma de proteger a confiança, a reputação institucional e o próprio significado do reconhecimento.
Quando essa coerência é mantida, a homenagem cumpre seu papel: torna visível aquilo que já possui valor. Quando se perde, o símbolo começa a ocupar o lugar da realidade. A fronteira entre essas duas situações é discreta, mas fundamental. É nela que se encontra a diferença entre simplesmente distribuir honrarias e saber, de fato, reconhecer o mérito.
Palmarí H. de Lucena