Quando o poder sugere o lado “certo” da Imprensa

Quando o poder sugere o lado “certo” da Imprensa

Uma declaração recente do governador João Azevêdo, feita durante a abertura do Midiacom — evento dedicado a discutir o futuro da comunicação — provocou reações imediatas e compreensíveis. Ao afirmar que a Imprensa deveria “assumir um lado”, deixando explícito quem defende e quem combate, o governador tocou num dos pontos mais sensíveis da democracia moderna: o lugar da imprensa numa sociedade livre.

A repercussão aponta para um desconforto legítimo. A ideia de que veículos jornalísticos devam se declarar partidarizados não é simples constatação de maturidade política — é uma proposta perigosa. Em contextos democráticos frágeis, essa lógica raramente favorece o pluralismo; mais frequentemente, serve como instrumento de pressão e classificação: quem está “com” e quem está “contra”.

O empresário Eduardo Carlos, do Sistema Paraíba de Comunicação, sintetizou bem o núcleo do problema ao rebater que essa leitura é “distorcida”. E foi além, ao afirmar que o único “lado” que a Imprensa deve assumir de forma permanente é o do interesse público. Essa fórmula pode parecer abstrata, mas é ela que sustenta a independência editorial, a credibilidade e a utilidade social do jornalismo.

Quando se pede que a imprensa se alinhe, o que geralmente está em jogo não é transparência — é controle. Exigir que veículos se declarem é, muitas vezes, tentativa indireta de classificá-los como aliados ou adversários. E, nesse jogo, não se fortalece a pluralidade: constrói-se um mapa de amigos e inimigos. A partir daí, o risco é claro: premia-se a fidelidade e pune-se a crítica.

A observação de Eduardo Carlos também toca num ponto essencial: confundir jornalismo com assessoria de comunicação é um erro estrutural. Autoridades públicas não são clientes a serem agradados; são agentes a serem fiscalizados. O jornalismo existe justamente para tensionar o poder, não para servi-lo.

Uma imprensa que “toma partido”, no sentido proposto, deixa de cumprir seu papel mais precioso: fazer perguntas incômodas, investigar contradições e iluminar zonas de sombra. O engajamento que se espera da imprensa não é ideológico — é ético. Não é programático — é público.

Em um país já marcado por intensa polarização, sugerir que a imprensa “escolha lados” é adicionar combustível a um incêndio institucional. A comunicação não pode ser empurrada para trincheiras, sob pena de perder seu próprio fundamento: ser espaço de mediação, não de militância.

É compreensível que governantes desejem previsibilidade no ambiente informacional. Mas previsibilidade não é virtude quando se trata de imprensa. O jornalismo que não incomoda não informa. Apenas decora o poder.

A democracia não se fortalece quando a imprensa se declara.
Fortalece-se quando a imprensa investiga.

Não é exigindo alinhamento que se constrói confiança.
É respeitando autonomia.

O governador, talvez sem intenção, entrou em terreno movediço. Ao defender uma imprensa engajada no sentido político-partidário, terminou por enfraquecer a ideia mais robusta de imprensa livre: aquela que mantém distância do poder justamente para poder vigiá-lo.

A história mostra que toda vez que a imprensa é convidada a “escolher lado”, quem ganha não é a verdade. É o poder.

E o país já viu esse filme vezes demais.

Por Palmarí H. de Lucena