Há uma certa injustiça na maneira como costumamos falar de exercício depois dos 60. Quase sempre aparece alguma promessa de salvação: fortalecer o corpo, melhorar o equilíbrio, evitar isso, prevenir aquilo. O corpo, coitado, recebe uma lista de tarefas como se tivesse sido convocado para uma reunião de condomínio.
O Pilates é mais interessante quando não precisa prometer tanto.
Numa aula, há aparelhos, molas, faixas, instruções e uma concentração que às vezes parece maior do que a necessária para pilotar um avião. O exercício trabalha força, equilíbrio, flexibilidade, coordenação e controle do movimento. Nada disso é pouco. Afinal, são justamente essas capacidades que entram em cena quando se levanta de uma cadeira, se sobe uma escada, se alcança alguma coisa no armário ou se atravessa a rua antes que o sinal fique vermelho.
O corpo não costuma pedir grandes discursos. Ele prefere resultados bastante prosaicos.
Quando a aula acontece em grupo, entretanto, aparece uma camada a mais. As pessoas chegam mais ou menos no mesmo horário, reconhecem os rostos, trocam algumas palavras e, eventualmente, sabem até quem sempre chega cinco minutos atrasado. Não é terapia de grupo, nem precisa ser. É apenas uma forma de sociabilidade que acontece enquanto todo mundo tenta descobrir por que aquela perna deveria estar exatamente naquela posição.
Para algumas pessoas mais velhas, isso pode ter importância. Não porque envelhecer seja necessariamente solitário — seria outra generalização fácil —, mas porque a vida social muda ao longo dos anos. Há quem trabalhe, viaje, cuide de familiares, estude, mantenha uma agenda cheia ou prefira a tranquilidade de uma rotina mais reservada. Há também quem veja diminuir os encontros que antes pareciam garantidos.
Nesse cenário, uma atividade regular pode representar uma oportunidade concreta de manter-se em movimento e, ao mesmo tempo, encontrar outras pessoas. O mérito está justamente em não precisar escolher entre uma coisa e outra.
Também convém desconfiar da expressão “envelhecimento produtivo”. Depois de uma vida inteira ouvindo que produtividade é trabalhar mais, produzir mais e entregar mais, talvez seja um pouco cruel levar essa palavra intacta para a velhice. Uma pessoa não precisa justificar seu lugar no mundo por sua capacidade de produzir. Ainda assim, poder continuar realizando atividades, cuidando da própria rotina, trabalhando quando quiser, ajudando alguém ou simplesmente fazendo aquilo de que gosta é uma possibilidade que merece ser preservada.
É aí que o exercício ganha uma dimensão que ultrapassa a sala.
Não porque o Pilates transforme ninguém, muito menos porque uma sessão de cinquenta minutos seja capaz de resolver os problemas existenciais da humanidade. Há limites para a função de uma prancha de equilíbrio. Mas trabalhar o corpo pode facilitar a realização de coisas muito comuns, e talvez seja justamente nas coisas comuns que uma boa parte da vida acontece.
Há, portanto, uma questão que não deveria ser colocada apenas sobre o indivíduo. É fácil dizer que pessoas mais velhas precisam fazer atividade física. Mais difícil é garantir que existam lugares acessíveis, profissionais preparados, transporte possível e condições econômicas para que diferentes pessoas possam participar. Recomendar movimento sem criar condições para que ele aconteça é uma forma bastante elegante de transferir a responsabilidade para quem já enfrenta as dificuldades.
Por isso, o Pilates pode ser visto como parte de uma questão maior. Não é uma solução para o envelhecimento, nem uma receita para uma vida perfeita — felizmente, porque seria uma responsabilidade excessiva para algumas molas e um colchonete. É uma prática corporal que pode contribuir para a manutenção de capacidades físicas e que, quando realizada em grupo, acrescenta uma oportunidade de encontro à rotina.
Talvez seja esse o seu valor mais interessante: o exercício não precisa ser transformado em metáfora para ter importância. O corpo trabalha, a pessoa se movimenta, algumas limitações podem ser enfrentadas com mais segurança e, no intervalo entre uma orientação e outra, alguém pergunta como foi o fim de semana.
Depois, a aula termina. Os aparelhos ficam onde estão, as molas descansam e cada um segue seu caminho. Alguém vai ao mercado, outro volta para casa, outro ainda tem uma consulta ou um compromisso qualquer.
A vida continua do lado de fora.
E talvez seja justamente para isso que vale a pena cuidar do corpo: não para parecer mais jovem, não para cumprir uma obrigação e muito menos para provar alguma coisa, mas para continuar participando da vida possível, com seus movimentos, seus limites, seus encontros e suas pequenas complicações.
O Pilates, no fim das contas, não precisa ensinar ninguém a envelhecer. Basta ajudar o corpo a acompanhar a vida enquanto ela acontece. O restante — inclusive a responsabilidade de criar espaços para que essa vida continue sendo vivida em sociedade — é uma tarefa nossa.
Palmarí H. de Lucena