Há frases que terminam quando o microfone é desligado. Outras continuam falando, não necessariamente porque sejam profundas, mas porque revelam algo sobre o modo como a política pretende entrar na cabeça das pessoas.
Foi o que me ocorreu ao ler, no BC1 — O Blog do Clilson, a referência à declaração do deputado federal Cabo Gilberto Silva sobre a vitória da direita e sua relação com o ambiente que antecedeu a ascensão do nazismo na Alemanha. Na formulação atribuída ao parlamentar, quem não estivesse assustado deveria “assustar quem não votou”. A frase merece atenção não porque autorize, por si só, uma comparação entre o Brasil de hoje e a Alemanha dos anos 1930, mas porque abre uma questão mais ampla: o que acontece com a política quando o temor passa a ocupar o lugar do argumento?
A repercussão jornalística do episódio registrou que Cabo Gilberto recorreu à experiência alemã para explicar uma possível reação política diante do que descreveu como uma situação de humilhação. O deputado afirmou que não estava comparando Jair Bolsonaro a Adolf Hitler. A ressalva é importante. Recorrer a um episódio histórico para estabelecer uma relação de causa e efeito é diferente de afirmar que personagens e circunstâncias são equivalentes.
É justamente aí que a história exige cuidado. A Alemanha de Weimar não cabe numa frase. O nazismo não nasceu de uma única humilhação, crise ou decisão. Houve derrota militar, instabilidade econômica, ressentimento nacionalista, radicalização política, antissemitismo, violência de rua e fragilidade institucional, além de circunstâncias que permitiram aos nazistas conquistar o poder e destruir as condições da própria democracia. Reduzir esse processo a uma fórmula — humilhação, ressentimento, Hitler — é tornar a história mais simples do que ela foi.
Há ainda uma imprecisão histórica: Winston Churchill não era primeiro-ministro britânico quando o Tratado de Versalhes foi assinado, em 1919. Ele só chegaria ao cargo em 1940. O detalhe não é irrelevante quando se utiliza a história como argumento político.
O problema maior, contudo, não está no erro de cronologia, mas no uso que se faz do passado. A política contemporânea gosta de analogias históricas porque elas encurtam o caminho entre acontecimento e emoção. Dizer que determinado momento lembra Weimar é mais rápido do que explicar quais instituições estariam sob pressão. Invocar Hitler produz uma atmosfera moral. O passado deixa de ser aquilo que precisamos compreender e passa a funcionar como um alarme.
Hannah Arendt desconfiava das explicações fáceis para acontecimentos difíceis. Seu pensamento sobre a política parte de uma ideia simples e exigente: os seres humanos são diferentes, e é dessa diferença que nasce a política. A pluralidade não é um defeito do espaço público; é sua condição. Se todos enxergassem o mundo da mesma maneira, não haveria propriamente política, mas apenas a administração de uma vontade única.
Essa perspectiva ajuda a compreender a frase sobre assustar quem não votou. Há uma diferença entre dizer ao eleitor “mostre por que sua escolha é necessária” e dizer “faça o outro sentir as consequências de não escolher como você”. Na primeira hipótese, a política solicita julgamento; na segunda, solicita reação.
Oz desconfiava do homem que deseja consertar o outro. O fanatismo pode começar com uma boa intenção: convencer, corrigir, salvar, fazer o outro enxergar aquilo que nós enxergamos. O problema aparece quando a diferença deixa de ser diferença e passa a ser falha moral. A política então muda de linguagem: não se trata mais de perguntar “como podemos discordar?”, mas “como podemos impedir que o outro prevaleça?”.
Oz desconfiava do homem que deseja consertar o outro. O fanatismo pode começar com uma boa intenção: convencer, corrigir, salvar, fazer o outro enxergar aquilo que nós enxergamos. O problema aparece quando a diferença deixa de ser diferença e passa a ser falha moral. A política então muda de linguagem: não se trata mais de perguntar “como podemos discordar?”, mas “como podemos impedir que o outro prevaleça?”.
Seria fácil olhar para a fala de Cabo Gilberto e concluir que o problema está apenas no campo político ao qual ele pertence. Seria também a conclusão mais confortável, mas pouco útil. Se o fanatismo consiste na incapacidade de reconhecer legitimidade no outro, ele não possui endereço eleitoral permanente.
Seria fácil olhar para a fala de Cabo Gilberto e concluir que o problema está apenas no campo político ao qual ele pertence. Seria também a conclusão mais confortável, mas pouco útil. Se o fanatismo consiste na incapacidade de reconhecer legitimidade no outro, ele não possui endereço eleitoral permanente.
Essa diferença se torna fundamental quando se invoca Hitler. O nazismo não deve ser convertido em adjetivo disponível para qualquer conflito contemporâneo. Uma vitória eleitoral da direita não é, por si mesma, uma repetição da ascensão nazista. Uma crítica ao Judiciário não é, por si só, autoritarismo. Uma reação política a uma sensação de injustiça não é, por si mesma, fascismo. Comparações históricas ganham consistência quando identificam elementos concretos de continuidade e reconhecem aquilo que é diferente.
Essa diferença se torna fundamental quando se invoca Hitler. O nazismo não deve ser convertido em adjetivo disponível para qualquer conflito contemporâneo. Uma vitória eleitoral da direita não é, por si mesma, uma repetição da ascensão nazista. Uma crítica ao Judiciário não é, por si só, autoritarismo. Uma reação política a uma sensação de injustiça não é, por si mesma, fascismo. Comparações históricas ganham consistência quando identificam elementos concretos de continuidade e reconhecem aquilo que é diferente.
Essa diferença se torna fundamental quando se invoca Hitler. O nazismo não deve ser convertido em um adjetivo disponível para qualquer conflito contemporâneo. Uma vitória eleitoral da direita não é, por si mesma, uma repetição da ascensão nazista. Uma crítica ao Judiciário não é, por si só, autoritarismo. Uma reação política a uma sensação de injustiça não é, por si mesma, fascismo. Comparações históricas só ganham consistência quando identificam elementos concretos de continuidade — e também reconhecem aquilo que é diferente.
Por isso, a declaração em questão seja mais interessante como sintoma da linguagem política do que como previsão histórica. Não há base para afirmar que o Brasil esteja repetindo a Alemanha de Weimar. Tampouco é possível atribuir, a partir de uma declaração, um projeto político inteiro a quem a pronunciou. O que existe é uma fala pública que utiliza uma referência histórica extrema para organizar uma interpretação do presente.
Por isso, a declaração em questão seja mais interessante como sintoma da linguagem política do que como previsão histórica. Não há base para afirmar que o Brasil esteja repetindo a Alemanha de Weimar. Tampouco é possível atribuir, a partir de uma declaração, um projeto político inteiro a quem a pronunciou. O que existe é uma fala pública que utiliza uma referência histórica extrema para organizar uma interpretação do presente. Isso já é suficientemente relevante.
Essa ideia é difícil em ambientes políticos polarizados porque compromisso passou a ser confundido com fraqueza. Quem conversa com o adversário pode ser acusado de traição; quem reconhece alguma razão no outro pode parecer menos fiel ao próprio grupo.
Arendt e Oz podem conversar bem neste episódio, embora tenham percorrido caminhos intelectuais diferentes. Arendt lembra que a política depende da pluralidade; Oz, que o fanatismo começa quando a diferença se torna insuportável. Entre os dois há uma advertência comum: uma sociedade livre precisa resistir à tentação de transformar toda divergência numa batalha final.
Essa ideia é difícil em ambientes políticos polarizados porque compromisso passou a ser confundido com fraqueza. Quem conversa com o adversário pode ser acusado de traição; quem reconhece alguma razão no outro pode parecer menos fiel ao próprio grupo.
Mas uma democracia não é um concurso para descobrir quem possui a certeza mais absoluta. É uma forma de organizar a convivência entre pessoas que discordam.
Arendt e Oz podem conversar bem neste episódio, embora tenham percorrido caminhos intelectuais diferentes. Arendt lembra que a política depende da pluralidade; Oz, que o fanatismo começa quando a diferença se torna insuportável. Entre os dois há uma advertência comum: uma sociedade livre precisa resistir à tentação de transformar toda divergência numa batalha final.
Talvez seja essa a questão que permanece depois que o microfone é desligado. Não se Cabo Gilberto tem razão ou não ao recorrer à Alemanha de Hitler. A comparação histórica pode e deve ser discutida em seus próprios limites. Forças políticas participam da democracia, disputam o voto e devem ser julgadas por suas ideias, seus atos e seus resultados.
A pergunta é outra: por que uma escolha política precisaria transformar o adversário em ameaça para ser defendida?
A política deveria convencer antes de intimidar, explicar antes de simplificar e reconhecer no outro alguém que continuará existindo depois da eleição. Talvez seja essa a pequena grandeza da democracia: ninguém vence a ponto de eliminar o outro. O adversário permanece, o eleitor que não votou continua cidadão e a manhã seguinte continua pertencendo a todos.
Porque, no fim, a democracia não é o lugar onde as ameaças desaparecem. É o lugar onde nenhuma delas recebe o direito de decidir sozinha quem somos nós e quem são eles.
Nota de apuração: a referência ao episódio foi atribuída no texto ao BC1 — O Blog do Clilson; a repercussão e os dados históricos mencionados foram confrontados com reportagem do UOL publicada em 6 de outubro de 2026.
Palmarí H. de Lucena