Quando o escândalo vira torcida

Quando o escândalo vira torcida

Houve um tempo em que o escândalo político parecia carregar consigo uma espécie de sentença. Uma revelação suficientemente grave podia interromper uma carreira, provocar uma crise, obrigar um partido a se explicar e, em determinadas circunstâncias, levar um governante à renúncia. Não era preciso que todos concordassem sobre política. Bastava, em alguns momentos, que houvesse algum entendimento comum sobre aquilo que uma sociedade considerava grave demais para ser simplesmente ignorado. Talvez uma das mudanças mais perceptíveis da política contemporânea seja a impressão de que determinados escândalos já não produzem, com a mesma frequência, consequências políticas previsíveis.

A questão aparece com força em uma análise recente de Amanda Taub, publicada no The New York Times, a partir de episódios da política americana. O argumento central é que a explicação para a sobrevivência política de pessoas envolvidas em controvérsias talvez não esteja simplesmente em uma suposta perda da vergonha. A autora recorre a pesquisas de ciência política para sugerir uma explicação mais ampla: em ambientes de elevada polarização, a relação tradicional entre a revelação de uma conduta inadequada, a reação pública e alguma consequência política pode se tornar menos direta. O escândalo continua sendo revelado, mas sua interpretação pode variar significativamente conforme a posição política de quem o observa.

Durante muito tempo, pelo menos como expectativa, imaginava-se uma sequência relativamente simples: uma denúncia grave chegava ao conhecimento público, provocava indignação, os adversários tentavam explorá-la politicamente e o próprio partido do acusado tinha razões para se afastar dele. Se a pressão crescesse, poderia haver renúncia, punição ou derrota eleitoral. Esse mecanismo nunca funcionou de maneira uniforme, mas existia a expectativa de que um escândalo pudesse impor algum custo político relevante.

O que acontece quando esse custo se torna menos previsível?

Uma possibilidade é que a identidade política passe a influenciar cada vez mais a maneira como o eleitor interpreta o escândalo. O cidadão que simpatiza com determinado político pode avaliar uma acusação de maneira diferente daquele que já se encontra em posição contrária. Isso não significa necessariamente que um esteja deliberadamente distorcendo os fatos e o outro esteja enxergando a realidade com absoluta clareza. Pode significar, simplesmente, que a mesma informação é recebida dentro de contextos políticos e emocionais diferentes.

É nesse ponto que a polarização ganha uma dimensão particularmente delicada. Quando as diferenças entre grupos políticos se tornam muito intensas, o adversário pode deixar de ser percebido apenas como alguém com quem se discorda e passar a ser visto como alguém cuja vitória teria consequências especialmente graves. Se essa percepção estiver presente, punir eleitoralmente alguém do próprio campo pode ser interpretado por alguns eleitores como uma possível vantagem concedida ao campo adversário.

A partir daí, o escândalo pode adquirir outro significado político. O acusado pode procurar apresentar-se como alvo de perseguição, de uma operação de adversários ou de uma tentativa de atingir aquilo que representa. A discussão deixa, então, de estar concentrada exclusivamente na acusação original e passa também a envolver a legitimidade de quem acusa, as intenções atribuídas a quem investiga e os interesses de quem divulga. A análise de Taub sugere que esse tipo de estratégia pode encontrar maior receptividade em ambientes políticos fortemente polarizados.

Isso também ajuda a compreender o papel da imprensa. Em sociedades politicamente divididas, os meios de comunicação podem ser percebidos de maneiras diferentes por públicos diferentes e, em alguns casos, desenvolver linhas editoriais mais próximas de determinados campos políticos. A análise de Taub cita pesquisadores que apontam para o risco de sistemas de mídia excessivamente partidários dificultarem o acesso dos eleitores a informações equilibradas sobre políticos de seu próprio campo e, simultaneamente, favorecerem interpretações mais severas sobre os adversários.

Não seria correto concluir que toda imprensa partidária produz necessariamente desinformação ou que toda denúncia divulgada por um veículo alinhado a determinado campo seja suspeita. O problema parece estar menos na existência de perspectivas editoriais distintas e mais na possibilidade de que, em ambientes muito polarizados, a identidade política passe a influenciar excessivamente aquilo que cada público considera confiável.

Quando acusações verdadeiras, exageradas, incompletas ou infundadas circulam no mesmo ambiente, pode surgir também um efeito de saturação. Se tudo é apresentado como escândalo, parte do público pode passar a receber novas denúncias com crescente desconfiança. E, se muitas acusações são percebidas como instrumentos de disputa política, torna-se mais difícil distinguir rapidamente entre uma denúncia que merece investigação cuidadosa e outra que não se sustenta.

O fenômeno descrito no artigo não parece ser exclusivamente americano. Mas não é necessário percorrer uma lista de países para perceber o problema. O caso dos Estados Unidos já oferece material suficiente para a reflexão: em um ambiente político profundamente dividido, a controvérsia pode deixar de produzir uma reação relativamente comum e passar a ser interpretada de acordo com a identidade política de quem está envolvido.

O Brasil oferece um campo igualmente interessante para essa reflexão, embora não seja possível simplesmente transportar para cá as conclusões extraídas do caso americano. Nossa história política recente foi marcada por grandes escândalos, investigações, processos judiciais, crises institucionais e disputas intensas em torno da atuação das instituições. Há, portanto, experiências próprias que precisam ser consideradas antes de qualquer comparação. A semelhança, quando existe, deve ser tratada como hipótese de reflexão, não como equivalência automática.

Há, contudo, uma situação familiar à política brasileira. Também por aqui uma denúncia contra determinado político pode ser respondida com a lembrança de algum episódio envolvendo seu adversário. É o conhecido “mas e os outros?”. A pergunta pode ser pertinente quando busca verificar coerência e igualdade de tratamento. Mas pode assumir outro significado quando serve apenas para deslocar a discussão do fato originalmente apresentado.

Imagine-se a cena: alguém aponta um problema e a resposta não é discutir aquele problema, mas lembrar outro. Em seguida, o outro lado faz o mesmo. E assim sucessivamente. O debate corre o risco de transformar-se numa contabilidade interminável de erros. Uma denúncia é seguida por outra; uma acusação, por uma contra-acusação; uma investigação, pela lembrança de outra investigação. Ao final, acumulam-se episódios, mas nem sempre se esclarece aquilo que estava originalmente em discussão.

É como se a política tivesse desenvolvido uma espécie de matemática moral em que a falha de um grupo pudesse ser utilizada para relativizar a falha de outro. Mas duas irregularidades não necessariamente produzem uma virtude.

A polarização afetiva ajuda a iluminar essa questão. Pesquisas sobre comportamento político mostram que as divisões podem envolver não apenas diferenças entre propostas e programas, mas também sentimentos de identificação e rejeição em relação aos diferentes campos. Isso não significa que todos estejam presos a uma lógica de torcida, nem que a polarização explique todos os comportamentos eleitorais. Sugere apenas que existe uma dimensão emocional na disputa política que merece ser considerada.

Talvez por isso o problema contemporâneo dos escândalos não esteja necessariamente na falta de informação. Temos hoje acesso a uma quantidade extraordinária de informações. A dificuldade pode estar em transformar esse volume de informação em algum tipo de julgamento público minimamente compartilhado.

Podemos acompanhar os mesmos acontecimentos e, ainda assim, interpretá-los a partir de narrativas diferentes. Uma investigação pode ser vista como instrumento necessário de apuração por um grupo e como possível perseguição política por outro. Uma decisão judicial pode ser considerada demonstração de independência institucional por alguns e excesso de poder por outros. Uma reportagem pode ser recebida como jornalismo necessário por uns e como militância por outros.

Isso não significa que todas as interpretações tenham o mesmo peso ou que toda acusação seja verdadeira simplesmente porque alguém acredita nela. Fatos podem ser verificados, documentos podem ser examinados e instituições continuam tendo funções específicas dentro das regras estabelecidas. A questão talvez seja saber até que ponto uma sociedade polarizada consegue construir algum entendimento comum sobre esses fatos.

É justamente aí que o diagnóstico sobre os escândalos ganha relevância. A análise de Taub sugere que, quando a polarização cresce, o custo político de determinadas transgressões pode diminuir, especialmente quando eleitores consideram mais importante impedir a vitória do campo adversário do que reagir negativamente a alguém do próprio campo. A autora cita pesquisas que encontraram associação entre níveis mais elevados de polarização e enfraquecimento de mecanismos democráticos de controle. Isso não significa que a polarização seja a única causa desse enfraquecimento, mas indica uma relação que merece atenção.

Não se trata de afirmar que os escândalos deixaram de produzir consequências. Eles continuam podendo provocar renúncias, derrotas eleitorais, investigações e punições. A questão é mais sutil: talvez a relação entre escândalo e consequência tenha se tornado menos automática e, em alguns ambientes, mais dependente da identidade política de quem está envolvido.

Talvez esse seja um dos riscos de uma democracia submetida a níveis elevados de polarização: não necessariamente o desaparecimento das diferenças, mas a dificuldade crescente de avaliar essas diferenças dentro de um mesmo campo de fatos e de normas.

O escândalo, nesse sentido, não é apenas uma história sobre políticos. É também uma história sobre nós. Quando nos indignamos com o comportamento de alguém de quem discordamos, mas procuramos imediatamente uma justificativa quando um comportamento semelhante aparece entre aqueles com quem concordamos, talvez estejamos contribuindo, ainda que involuntariamente, para tornar mais frágeis os critérios pelos quais julgamos a vida pública.

Talvez a saída não esteja em esperar uma sociedade sem polarização — algo improvável em uma democracia plural —, mas em preservar a possibilidade de discordar sem abandonar completamente os critérios comuns de julgamento. O adversário pode continuar sendo adversário; a preferência política pode continuar sendo forte. O que não deveria desaparecer é a disposição de reconhecer um fato mesmo quando ele contraria nossas próprias expectativas.

No fim, a questão talvez seja menos saber quem ganhou a disputa em torno de um escândalo e mais saber o que restou depois dela. Se restam apenas duas versões inconciliáveis, cada uma protegendo seus próprios personagens, a sociedade pode perder alguma coisa mais difícil de recuperar: a confiança de que existem fatos que podem ser examinados independentemente de simpatias políticas.

Talvez seja esse o ponto em que o escândalo deixa de ser apenas um episódio da vida política e passa a revelar algo sobre a própria sociedade. Não se trata de deixar de ter preferências, de abandonar convicções ou de fingir que todas as posições são equivalentes. Trata-se de preservar, no meio da disputa, a possibilidade de reconhecer aquilo que contraria o nosso próprio campo de visão.

Porque talvez o problema não seja termos lado. O problema começa quando o lado passa a decidir, antes dos fatos, aquilo que estamos dispostos a considerar verdadeiro, grave ou aceitável.

Palmarí H. de Lucena