Em João Pessoa, a modernidade não chegou de planejamento urbano, ciclovias integradas ou educação de trânsito. Chegou de capacete, mochila térmica e uma convicção tácita: a pressa tem precedência. As motocicletas de entrega tornaram-se presença dominante nas ruas — fenômeno previsível, necessário e irreversível. O problema não é a expansão. É a forma como ela ocorreu: sem treinamento proporcional, sem supervisão efetiva e sem que o poder público tenha assumido o comando da transição.
O resultado se impõe nos cruzamentos e congestionamentos. Manobras arriscadas tornaram-se rotina. Sinais fechados passaram a funcionar como sugestões flexíveis. Corredores entre carros viraram território de disputa milimétrica. Não por rebeldia consciente, mas por ausência de regra suficientemente clara para ser respeitada. A imprudência deixa de ser exceção e passa a operar como método informal de circulação.
Nesse cenário, multiplicam-se os danos discretos. Retrovisores arrancados, latarias riscadas, pequenos impactos que ficam como lembrança física da pressa alheia. Na maioria das vezes, a motocicleta segue adiante. Não há parada, pedido de desculpas ou assistência. O dano é tratado como detalhe colateral — sobretudo quando o atingido é um automóvel. O prejuízo, afinal, não entra na rota do aplicativo.
A ironia urbana se revela quando a situação se inverte. Basta que um carro toque levemente o guidão de uma motocicleta — muitas vezes sem qualquer dano mensurável — para que o episódio ganhe densidade moral. Surge o celular em punho, a gravação começa, as acusações são feitas em voz alta. Outros motociclistas se aproximam, solidários, compondo uma pequena assembleia improvisada. O fato mínimo transforma-se em acontecimento máximo. A responsabilidade não desapareceu; ela apenas muda de lado conforme o veículo envolvido.
Os órgãos responsáveis pela mobilidade acompanham o fenômeno com serenidade contemplativa. Falta treinamento sistemático para motociclistas profissionais, falta fiscalização contínua e sobra tolerância com comportamentos que, em outros contextos, seriam prontamente enquadrados. A omissão pública, aqui, não reduz conflitos — ela os legitima.
Nos restaurantes, a pedagogia urbana se aperfeiçoa. O cliente presencial — figura cada vez mais decorativa — aprende rapidamente sua posição. Se estaciona em uma vaga “de motocicleta”, ainda que mal sinalizada, é interpelado de imediato. Alguém filma. Funcionários aderem. A infração ganha tom cívico. Já quando motocicletas ocupam vagas destinadas a automóveis, instala-se um silêncio funcional. A regra não foi revogada; apenas entrou em repouso seletivo.
Forma-se, assim, uma hierarquia clara: no topo, a urgência; logo abaixo, o algoritmo; depois, o motociclista em rota; e, por fim, o cidadão comum, convidado a não atrapalhar. O espaço urbano deixa de ser regulado por normas gerais e passa a ser administrado por pressa, improviso e tolerância desigual.
Nada disso é um ataque ao trabalhador sobre duas rodas. É, ao contrário, o retrato de um abandono institucional elegante, que o empurra ao risco cotidiano sem preparo, sem orientação técnica e sem proteção real. A ironia final é inequívoca: a cidade cobra civilidade de quem estaciona, mas concede licença informal a quem viola regras em movimento.
João Pessoa segue funcionando. Desde que o cidadão aprenda a sair do caminho — e, se possível, não reclame do retrovisor quebrado.
Por Palmarí H. de Lucena