Há empresários que constroem lojas. Outros constroem shoppings. E há os que constroem algo maior — constroem modos de viver. Harry Gordon Selfridge, no início do século XX, e Roberto Santiago, já na virada para o século XXI, pertencem a essa categoria rara: a dos que perceberam que o comércio, em mãos sensíveis, é capaz de moldar a vida urbana tanto quanto uma praça ou uma avenida.
Selfridge, ainda adolescente, atravessou o caminho entre a necessidade e o talento. De Wisconsin a Chicago, e depois a Londres, carregou consigo uma percepção instintiva: o cliente não quer apenas comprar; quer ser encantado. Em 1909, quando abriu a Selfridges em Oxford Street, ofereceu à cidade algo que Londres desconhecia — uma loja departamental que era, ao mesmo tempo, palco, museu, teatro e universo. Vitrines coreografadas, eventos culturais, produtos apresentados com a delicadeza de obras de arte. Ele entendia o varejo como experiência, décadas antes de o termo virar moda. Seu nome, é verdade, viveu também altos e baixos. Mas os altos permaneceram, enquanto os baixos se dissiparam como sombras.
Roberto Santiago seguiu caminho completamente diferente, mas com o mesmo faro. Começou pequeno, entre o café torrado da família e a persistência dos loteamentos vendidos um a um. Não herdou um mercado consolidado: ajudou a criá-lo. João Pessoa, até então discreta e ensolarada, ainda não sabia que precisava de um espaço de grande porte para reunir famílias, jovens, comerciantes, cultura e entretenimento. Ele soube. E ergueu o Manaíra Shopping não como um conjunto de lojas, mas como um núcleo de convivência urbana. Lá, a cidade se encontra, faz aniversário, namora, trabalha, circula, convive. Como Selfridge, percebeu cedo que espaços comerciais são, no fundo, extensões afetivas da própria cidade.
A extensão desse gesto — posteriormente ampliado com o Mangabeira Shopping — revela o que diferencia empresários visionários de bons administradores. O administrador organiza o presente; o visionário antecipa o futuro. E é justamente nesse ponto que Selfridge e Santiago se tocam: ambos tiveram a coragem de criar o que ainda não existia, guiados por uma sensibilidade que não se aprende em faculdade alguma.
Mas há algo ainda mais profundo nesse paralelo: ambos entenderam que o comércio, quando bem pensado, é também serviço público — não no sentido burocrático, mas no sentido humano. Oferece segurança, pertencimento, circulação, convivência, beleza e dignidade. Sustenta empregos, impulsiona bairros, reorganiza fluxos, inspira sonhos. De formas diferentes, Selfridge e Santiago ajudaram a organizar a vida ao redor de seus empreendimentos. E isso não é pouco; isso é cidade no seu sentido mais amplo.
O tempo, sempre juiz severo, confirma essa leitura. A Selfridges segue como uma das lojas mais admiradas do mundo, muito além de seu fundador. E o Manaíra Shopping, tantas décadas depois, permanece como referência não só comercial, mas social — um espaço que ajudou a redefinir João Pessoa e, de certa forma, a moldar a identidade contemporânea da cidade.
No fim, talvez seja isso o que distingue os empreendedores que apenas passam daqueles que permanecem: os que entendem que comércio não é transação, é relação. E que quando se respeita o cliente como cidadão e a cidade como organismo vivo, cada empreendimento se transforma numa semente de futuro.
Selfridge e Santiago, cada um à sua maneira, lembram que o verdadeiro progresso não se faz apenas com concreto e capital, mas com imaginação, responsabilidade e coragem. E a grande lição que deixam é simples e poderosa:
quando um empresário acredita na cidade, a cidade inteira se expande.
E continua crescendo — por dentro e por fora.
João Pessoa 2025
Por Palmarí H. de Lucena