Há acontecimentos que passam diante dos nossos olhos e desaparecem quase no mesmo instante. Outros permanecem, mesmo quando os anos avançam e novas histórias ocupam o lugar das antigas.
Ao longo da minha vida, estive diante de diferentes formas de sofrimento humano. Em alguns lugares, estava presente e vi diretamente o que acontecia. Em outros, cheguei depois e encontrei as marcas deixadas pelos acontecimentos. São experiências diferentes, e faço questão de não confundi-las. Uma coisa é estar diante do fato; outra é encontrar suas consequências. Ambas, porém, podem permanecer na memória.
Foi assim que a região de Turkana, no norte do Quênia, entrou na minha vida. A seca havia transformado a água em esperança e a sobrevivência em luta diária. Eu estava ali. Vi crianças, mulheres, homens e animais submetidos a uma espera que não podiam controlar. A terra seca dizia uma coisa; as pessoas diziam muito mais. Desde então, quando ouço falar de uma grande seca, não penso apenas em clima ou escassez. Penso nas vidas que dependem da chuva para continuar.
O Cairo me colocou diante de outra forma de sobrevivência. Conheci os zabbaleen, homens, mulheres e crianças que construíram seu sustento em torno dos resíduos da cidade. Recolhiam, separavam, reutilizavam e reciclavam aquilo que outros descartavam. Havia ali uma contradição que me impressionava: o que uma cidade chamava de lixo podia significar trabalho e sustento para outra parte de sua população. Compreendi também como a pobreza pode tornar pessoas essenciais praticamente invisíveis.
Em fevereiro de 1984, Wagalla, no Quênia, trouxe uma experiência de outra natureza. Eu não estava presente quando a violência ocorreu. Cheguei depois e encontrei suas marcas nos homens do povo Degodia. Essa diferença me ensinou algo que passou a acompanhar meu olhar: a seca não escolhe seus atingidos, enquanto a violência humana nasce de decisões, disputas e relações de poder.
No norte de Gana, encontrei as marcas do conflito entre os Konkomba e os Nanumba. As disputas pela terra, pelos direitos e pelo reconhecimento haviam alterado profundamente a vida das comunidades. Ali percebi que um conflito não destrói apenas casas ou bens. Ele rompe relações, espalha medo e muda a maneira como as pessoas passam a viver umas com as outras.
A África do Sul trouxe uma experiência ainda mais difícil de assimilar: o apartheid. Eu conhecia o sistema de discriminação, mas foi em Crossroads que ele ganhou um rosto concreto. Eu estava presente. Vi casas sendo destruídas e a brutalidade policial contra a população negra. Deixou de ser apenas uma estrutura política. Tornou-se a perda de um lugar para morar, a ameaça à família, a destruição de um espaço de pertencimento. Crossroads me mostrou que a violência de um sistema pode chegar à porta de uma casa.
Foi nesse período que Hannah Arendt se aproximou das minhas inquietações. Ao lê-la, encontrei palavras para questões que já vinham me acompanhando. Compreendi que uma injustiça pode se tornar ainda mais perigosa quando passa a ser aceita como parte da vida cotidiana. Arendt não me deu respostas para as tragédias que conheci. Ajudou-me, antes, a não me acostumar com aquilo que deveria continuar causando espanto.
Depois vieram Angola e a guerra civil. No sul do país, estive em um pequeno hospital de campo de uma missão católica. Ali encontrei pacientes atingidos pela doença, pela pobreza e pelas consequências da guerra. A enfermaria era simples. Alguns não tinham possibilidade de cura. Em outros casos, faltavam recursos até mesmo para aliviar o sofrimento. Permanecer diante deles foi difícil. Havia muito pouco a fazer além de cuidar, acompanhar e tentar amenizar a dor. Aquela enfermaria ficou comigo. Ali compreendi que uma guerra não termina necessariamente quando cessam os combates. Ela continua nos corpos, na doença, na falta de medicamentos e na pobreza que permanece depois.
Em Moçambique, essa realidade ganhou uma dimensão ainda mais dolorosa. Estive entre pessoas com hanseníase, já marcadas pelo estigma e pela exclusão. A missão católica que lhes oferecia assistência também estava ameaçada. Eu estava presente quando a missão foi atacada e quando religiosas e pacientes foram ameaçados de estupro. A violência havia chegado ao lugar destinado ao cuidado. Essa experiência permanece entre as mais difíceis da minha memória. Aqueles que cuidavam e aqueles que precisavam de cuidado estavam igualmente expostos. A missão, que deveria ser um abrigo, havia se transformado em lugar de medo.
Em Timor-Leste, encontrei as consequências de uma longa ocupação e da violência de 1999. Não presenciei todos os acontecimentos que produziram aquela situação. Vi, porém, o que eles deixaram nas pessoas e nas comunidades. Ali compreendi que um território é mais do que uma linha no mapa. É língua, casa, memória e pertencimento. Quando alguém é obrigado a partir, não leva consigo apenas aquilo que consegue carregar. Leva também a ausência.
Na América Central, encontrei outra face da violência: a repressão contra populações indígenas em conflitos atravessados pelas disputas da Guerra Fria. Comunidades inteiras foram tratadas como inimigas, e a ação militar deixou um rastro de mortes, desaparecimentos, deslocamentos e aldeias destruídas. Entre os povos maias da Guatemala, essa violência alcançou proporções devastadoras. O que mais me marcou, porém, não foram os números, mas perceber como decisões políticas e militares, tomadas muitas vezes muito longe daqueles povoados, podiam atingir a vida de famílias que pouco ou nenhum poder tinham sobre o conflito. Ali, mais uma vez, encontrei as consequências de uma guerra que ultrapassava fronteiras: grandes forças disputavam influência, enquanto populações indígenas pagavam parte do preço em suas próprias vidas.
Nas regiões próximas às fronteiras entre o Quênia e o Sudão, conheci comunidades pastoris para as quais o gado representava alimento, patrimônio, segurança e futuro. Quando os animais eram roubados ou perdidos nos conflitos, não desaparecia apenas um bem. Desaparecia parte da segurança de uma família.
O México trouxe uma tragédia de outra natureza. Em 19 de setembro de 1985, o terremoto atingiu a Cidade do México. Cheguei diante de suas consequências: a destruição, as pessoas procurando familiares, os sobreviventes retirados dos escombros e uma cidade tentando se reorganizar. A natureza havia provocado a ruptura. A resposta veio das pessoas. Procurar, salvar, cuidar e reconstruir eram formas de continuar.
Ao recordar esses lugares, percebo que eles nunca se confundiram em minha memória. Cada um permaneceu com sua própria história, sua própria dor e seus próprios rostos. Na Turkana, vi a luta contra a seca; no Cairo, a sobrevivência construída sobre aquilo que outros descartavam; em Wagalla e no norte de Gana, encontrei as marcas deixadas pelos conflitos; em Crossroads, vi a violência de um sistema chegar às casas. Em Angola, estive diante de pacientes para os quais quase não havia recursos. Em Moçambique, vi uma missão de cuidado ser atingida pela violência e acompanhei o medo de religiosas e pacientes. Em Timor-Leste, encontrei as consequências do deslocamento; na América Central, encontrei as marcas da repressão contra populações indígenas em conflitos atravessados pelas disputas da Guerra Fria; entre as comunidades pastoris, compreendi o peso de perder aquilo que garantia a sobrevivência; no México, vi uma cidade tentando se levantar depois da destruição.
Durante muito tempo, guardei essas experiências como acontecimentos separados. Com os anos, porém, percebi que havia algo que as aproximava. Não eram as tragédias em si, tão diferentes umas das outras, mas a presença humana diante delas. Em toda parte havia alguém tentando resistir, cuidar, procurar, reconstruir ou simplesmente continuar. Foi então que compreendi que aquilo que eu havia visto e testemunhado não pertencia apenas ao passado. Continuava vivendo na memória daqueles que encontrei e, de alguma maneira, também na minha.
Algumas vezes eu estava lá e vi o acontecimento. Outras, cheguei depois e encontrei suas marcas. Essa diferença define o lugar de onde posso falar e me lembra dos limites da minha própria memória. Não vi tudo, não conheci todas as histórias e não posso falar em nome daqueles que sofreram. Posso, entretanto, guardar aquilo que encontrei e dar testemunho da humanidade que permaneceu diante de mim.
Foi com essas pessoas que aprendi a desconfiar das explicações fáceis. Cada lugar tem sua história, cada conflito tem suas causas, cada comunidade carrega suas próprias feridas. Nenhuma explicação consegue conter inteiramente a experiência de quem sofre. E talvez seja justamente por isso que a memória seja necessária: porque ela devolve ao acontecimento aquilo que os números, os mapas e as notícias muitas vezes não conseguem mostrar — a vida concreta de quem estava ali.
Por isso escrevo. Não para falar mais alto do que aqueles que sofreram, nem para transformar suas dores em uma coleção de episódios, mas para preservar aquilo que encontrei e que o tempo poderia apagar. Aprendi que uma tragédia não termina quando deixa de ocupar as notícias. Ela continua na casa que não foi reconstruída, na doença que ficou sem tratamento, na família que se dispersou, na terra que deixou de ser habitada e na memória de quem perdeu alguém.
Hoje sei que nenhuma estatística consegue contar uma vida inteira, nenhum mapa mostra tudo aquilo que um povo carrega e nenhuma palavra devolve o que foi perdido. Mas a palavra pode guardar uma presença, uma marca, um lugar e, sobretudo, a humanidade daqueles que cruzaram o meu caminho.
Quando meus olhos tocaram as tragédias do mundo, alguma coisa mudou em mim. Passei a olhar para além do acontecimento e a procurar aquilo que permanecia depois dele. E o que ficou não foi apenas a lembrança da destruição, mas também a insistência da vida: alguém esperando pela chuva, procurando os seus, cuidando de um doente, reconstruindo uma casa ou simplesmente tentando recomeçar.
É aí que encontro a esperança: não na negação da dor, mas na capacidade humana de continuar. Talvez seja essa a única resposta que posso oferecer ao que vi e ao que testemunhei. Não uma resposta definitiva, mas uma escolha: lembrar, preservar e não permitir que a dor daqueles que encontrei desapareça no silêncio do tempo.
Enquanto houver alguém tentando recomeçar, a história não termina. O que meus olhos tocaram, o tempo não apagará.
Palmarí H. de Lucena