Há livros que envelhecem. Outros, desconcertantemente, ganham atualidade. É o caso de Isso Não Pode Acontecer Aqui, romance publicado em 1935 por Sinclair Lewis. Lido hoje, o título soa menos como advertência e mais como ironia amarga. Lewis não escreveu sobre um golpe clássico, mas sobre algo mais sutil — e, por isso mesmo, mais perigoso: a corrosão democrática operada por dentro, com apoio popular e aparência de normalidade.
No romance, o protagonista ascende ao poder pelo voto, embalado por discursos simplificadores, patriotismo performático e desprezo aberto pelas instituições. Não promete ditadura; promete ordem. Não ameaça a democracia; diz encarná-la. O método é conhecido: criar inimigos internos, desacreditar a imprensa, reduzir a complexidade do mundo a slogans e transformar o dissenso em traição. Nada explode de imediato. Tudo se acomoda.
Essa engrenagem literária dialoga com uma tradição cultural anterior à política moderna. O modelo consagrado pelo Barnum & Bailey, no século 19, ensinou que a atenção coletiva é um ativo precioso — e que a verdade pode ser secundária diante do espetáculo. Exagero, choque, polêmica permanente e mensagens simples não eram desvios; eram a essência do negócio. O público não precisava compreender; bastava reagir.
Quando essa lógica atravessa o picadeiro e chega à vida pública, a política muda de natureza. Governar passa a significar ocupar o palco, manter a plateia mobilizada e alimentar emoções primárias. O debate se torna ruído; a performance, substância. A democracia permanece em cena, mas já como cenário.
A experiência recente dos Estados Unidos sob Donald Trump deu forma concreta a esse encontro entre ficção e espetáculo. A comunicação direta, hostil à mediação institucional, fez da controvérsia um instrumento central de poder. A política deixou de ser processo e passou a operar como evento contínuo. Não se trata de comparar personagens, mas de reconhecer padrões que Lewis descreveu com precisão inquietante.
O ponto mais incômodo do romance — e da realidade — não está apenas no líder que explora essas técnicas, mas na disposição coletiva de aceitá-las. Democracias não se desfazem apenas por rupturas bruscas, mas quando confundem aplauso com legitimidade e entretenimento com governo. Quando cidadãos se comportam como plateia, o autoritarismo dispensa a força: basta manter os holofotes acesos.
O autoritarismo contemporâneo não se anuncia como ruptura, mas como espetáculo. Quando a política abdica do argumento e se rende à encenação, a democracia já entrou em declínio.
Por Palmarí H. de Lucena