Há violências que fazem barulho. Outras acontecem no silêncio de uma madrugada, longe dos olhos de quem passa, mas deixam marcas que permanecem por muito tempo. O vandalismo contra a estátua de Iemanjá, na Ponta do Cabo Branco, em João Pessoa, pertence a essas duas formas de violência: faz barulho quando a notícia se espalha e continua a ferir quando a cidade, aos poucos, volta a cuidar de seus próprios afazeres.
Fiquei pensando no que se passa na cabeça de alguém que decide destruir a imagem de uma divindade. Que espécie de incômodo pode provocar a representação da fé alheia? O que ameaça uma pessoa a ponto de ela precisar atacar uma imagem que, para tantos, é motivo de devoção, esperança e reverência?
Não tenho respostas para essas perguntas. Tenho, porém, a impressão de que certos gestos revelam muito mais sobre quem os pratica do que sobre aquilo que pretendem destruir.
A estátua de Iemanjá está ali, diante do mar, exposta ao sol, à maresia e ao movimento dos dias. Para alguns, é um monumento. Para outros, é uma presença sagrada. Há quem passe por ela sem lhe dedicar um olhar; há quem a contemple em silêncio, como quem encontra nas águas uma palavra que não consegue pronunciar. E há quem reconheça naquela imagem a permanência de uma história que tantas vezes tentaram apagar.
É justamente isso que talvez incomode: a permanência.
A presença africana no Brasil sobreviveu à travessia forçada do oceano, à escravidão, à perseguição dos cultos e à tentativa de impor uma única maneira de crer. Sobreviveu nos corpos, nas vozes, nos cantos, nas folhas, nos tambores e nos terreiros. Sobreviveu porque a memória de um povo não cabe inteiramente nas proibições de uma época. E continua sobrevivendo, apesar de uma intolerância que, de tempos em tempos, parece querer nos devolver a um passado que julgávamos distante.
Quando uma imagem de Iemanjá é vandalizada, não é apenas um objeto que sofre a agressão. Há algo de mais profundo naquele gesto: a recusa em reconhecer que o outro tem o direito de encontrar o sagrado onde sua consciência, sua tradição e sua história lhe permitem encontrá-lo.
O problema nunca foi a fé de quem está diante do mar. O problema é a incapacidade de conviver com a fé de quem está ao lado.
E isso não acontece apenas com estátuas. Acontece quando um terreiro é invadido, quando objetos sagrados são destruídos, quando uma cerimônia religiosa se torna motivo de escárnio, quando alguém é constrangido a esconder seus símbolos para não ser ofendido. Acontece também quando o preconceito se disfarça de brincadeira, quando a ignorância se apresenta como convicção e quando a violência contra as religiões de matriz africana é tratada como um episódio menor, desses que logo deixam de merecer atenção.
Talvez seja esse o aspecto mais inquietante da história: a facilidade com que nos acostumamos.
A notícia aparece, provoca indignação, mobiliza declarações. As autoridades condenam o ato, anunciam providências e reafirmam o compromisso com a liberdade religiosa. Por alguns dias, discutimos o assunto. Depois, a cidade segue adiante, como se o esquecimento fosse uma forma natural de resolver aquilo que nos constrange.
Mas quem segue adiante quando a própria fé é atacada?
Para quem encontra no terreiro um lugar de acolhimento, para quem aprendeu a respeitar os orixás com os mais velhos, para quem carrega uma tradição tantas vezes perseguida, a violência não termina quando a notícia desaparece das páginas dos jornais. Permanece a pergunta sobre o próximo ataque. Permanece o receio de que a própria existência continue sendo recebida com hostilidade.
E permanece, sobretudo, a dúvida sobre a capacidade das instituições de proteger aquilo que a lei reconhece como direito.
É necessário dizer que a defesa da liberdade religiosa não se faz apenas com discursos. Faz-se com investigação, prevenção, proteção do patrimônio, educação e responsabilização dos autores, sempre que sua participação for comprovada. Faz-se quando o poder público compreende que um monumento religioso não perde sua importância por representar uma crença que nem todos compartilham.
A igualdade se revela justamente aí. É fácil respeitar aquilo que se parece conosco, aquilo que herdamos de nossa família ou que aprendemos a considerar sagrado. Difícil, e verdadeiramente necessário, é reconhecer a dignidade daquilo que pertence à experiência do outro.
Não é preciso acreditar em Iemanjá para defender sua imagem. Não é preciso conhecer os fundamentos de uma religião afro-brasileira para compreender que seus praticantes têm os mesmos direitos de qualquer cidadão. O respeito não exige conversão. Exige humanidade.
Volto, então, ao mar.
Na Ponta do Cabo Branco, as ondas não interrompem seu movimento para perguntar quem merece ser acolhido. Elas chegam, recuam e tornam a chegar. O vento sopra sobre os monumentos, as ruas e os corpos sem distinguir crenças. A natureza parece conhecer uma forma de convivência que nós, tantas vezes, desaprendemos: a de compartilhar o mundo sem exigir que o outro deixe de ser quem é.
Talvez por isso a agressão à imagem de Iemanjá seja tão simbólica. Diante de um mar que não pertence a ninguém, alguém decide atacar aquilo que representa o sagrado de muitos. Diante de uma cidade que deveria acolher suas diferenças, alguém transforma a diferença em motivo de violência.
E a cidade, o que faz?
Essa pergunta não deve ser dirigida apenas às autoridades. Ela também nos alcança. O silêncio de quem testemunha uma injustiça, a indiferença de quem considera certos ataques irrelevantes e a disposição de esquecer tudo assim que o assunto sai de circulação ajudam a construir o terreno no qual a intolerância encontra espaço. Não somos responsáveis pelos atos de quem vandaliza, mas somos responsáveis pela maneira como uma sociedade reage a eles.
É preciso que a indignação dure mais do que uma manchete. Que a solidariedade não apareça apenas depois da destruição. Que o respeito às religiões de matriz africana deixe de ser uma declaração ocasional e se transforme em prática cotidiana, nas escolas, nas instituições, nas ruas e nos espaços de decisão pública.
Uma estátua pode ser restaurada. As marcas da depredação podem desaparecer sob novas camadas de tinta. Mas a restauração material não encerra a questão. Se nada mudar na maneira como olhamos para o outro, o monumento poderá estar inteiro e a intolerância continuará de pé.
Não sei se Iemanjá chora. Sei que há pessoas que choram diante de sua imagem ferida. E sei que essas lágrimas não podem ser tratadas como assunto exclusivo de uma religião, porque o direito violado é de todos: o direito de crer, de celebrar, de preservar a memória e de existir sem medo.
O mar continuará diante de nós, guardando os mistérios que cada pessoa interpreta à sua maneira. A cidade continuará crescendo, recebendo visitantes e contando sua história. A estátua continuará sendo, para muitos, um sinal de fé e pertencimento.
A pergunta é se estaremos à altura daquilo que dizemos defender.
Porque o verdadeiro contrário da intolerância não é a indiferença. É o respeito que se manifesta, a justiça que se realiza e a coragem de não aceitar como normal a violência contra a fé de ninguém.
Se Iemanjá permanece diante do mar, a cidade precisa permanecer ao lado do direito de todos. E, diante de cada ataque ao sagrado do outro, que o nosso silêncio não seja mais profundo do que o barulho da violência.
Palmarí H. de Lucena