Tenho pensado cada vez mais no excesso, talvez porque ele tenha se tornado tão presente que já nem o percebemos. Não falo apenas de remédios, compras, trabalho ou informação, mas dessa necessidade quase permanente de acrescentar alguma coisa a tudo, como se aquilo que já existe estivesse sempre incompleto. Temos dificuldade com o vazio, com a espera, com o silêncio e, principalmente, com a possibilidade de que, em determinadas situações, não seja preciso fazer mais nada.
Uma pequena ferida me fez pensar nisso. Um corte no dedo, um arranhão no joelho, uma pele que se abre por um descuido qualquer parecem coisas insignificantes, mas basta a pequena marca aparecer para surgir também a vontade de intervir: procurar uma pomada, um produto, alguma coisa que dê a sensação de que estamos cuidando. Uma reportagem do Washington Post parte justamente dessa situação cotidiana para mostrar que, em muitos cortes e arranhões simples, pomadas antibióticas não oferecem necessariamente vantagem sobre a vaselina. Limpar, proteger e esperar podem ser cuidados suficientes. Talvez o mais interessante nessa história esteja menos na pomada do que na nossa dificuldade de aceitar que, depois de algum cuidado, há momentos em que resta apenas esperar.
Esperar nunca foi uma tarefa muito confortável para nós. Fazer alguma coisa oferece uma sensação de controle que a espera não oferece. Quando agimos, mesmo que a ação seja desnecessária, sentimos que estamos participando do processo; quando esperamos, somos obrigados a reconhecer que há coisas que continuam acontecendo sem a nossa intervenção e que nem sempre dependem da nossa vontade para se resolver. Uma pequena ferida apenas torna visível uma experiência que aparece de muitas outras formas na vida.
Enchemos a casa de coisas e depois compramos outras para organizar aquilo que acumulamos. Lotamos a agenda e, quando finalmente surge uma hora livre, sentimos necessidade de preenchê-la. Abrimos uma tela diante de outra, acompanhamos mais notícias do que conseguimos absorver e respondemos imediatamente a mensagens que poderiam perfeitamente esperar. Até o descanso, em muitos momentos, precisa ser planejado, organizado e transformado em mais uma tarefa. Aos poucos, a ideia de estar ocupado começa a se confundir com a sensação de estar vivendo plenamente.
Talvez seja nesse ponto que o excesso revele uma dimensão mais íntima. Nem sempre acumulamos porque queremos ter mais; às vezes, acumulamos porque não sabemos muito bem o que fazer com aquilo que aparece quando sobra espaço. Uma hora vazia pode trazer uma inquietação que não estava presente quando a agenda estava cheia, assim como o silêncio pode fazer voltar uma pergunta que o barulho ajudava a esconder. Quando desaparecem as tarefas, sobra um pouco mais de nós mesmos, e talvez seja justamente isso que nem sempre estamos dispostos a encontrar.
Não é difícil entender por que o excesso também ganhou tanto prestígio. Admiramos quem está sempre ocupado, quem trabalha até tarde, quem responde imediatamente e quem consegue administrar uma quantidade quase impossível de compromissos. Confundimos movimento com importância e quantidade com dedicação, como se fazer mais fosse uma prova de empenho e ter mais fosse uma prova de sucesso. Aos poucos, a medida deixa de ser aquilo de que realmente precisamos e passa a ser aquilo que conseguimos suportar. E há uma diferença considerável entre suportar uma vida e estar bem dentro dela.
Essa diferença também aparece quando tentamos cuidar de uma ferida. A reportagem lembra que algumas pomadas antibióticas podem provocar dermatite de contato, deixando a pele vermelha e irritada, reação que pode ser confundida com uma infecção. Há algo de curioso nisso: aquilo que começou como uma tentativa de proteção pode acabar produzindo uma nova preocupação. O excesso, às vezes, nasce justamente dessa vontade de evitar um problema e termina criando outro.
Talvez façamos algo parecido em outras áreas da vida, sem perceber. Alimentamos determinadas preocupações até que elas se tornem maiores do que aquilo que as provocou, insistimos em relações, projetos e hábitos porque abandonar uma coisa na qual já investimos tempo parece mais difícil do que continuar, e mantemos compromissos que já não fazem sentido não necessariamente porque ainda os desejamos, mas porque não sabemos muito bem quem seríamos sem eles. Em certas fases, podemos até confundir cansaço com dedicação, ansiedade com responsabilidade e incapacidade de parar com disciplina.
Pensar nisso não significa defender a passividade. Há momentos em que é preciso agir, tomar decisões, procurar ajuda e reconhecer que alguma coisa exige atenção. Uma ferida que não para de sangrar, um corte profundo, uma mordida ou sinais de infecção são situações que pedem avaliação adequada. O que me parece mais difícil é perceber o momento em que a intervenção deixa de ser necessária e passa a servir apenas para aliviar a nossa própria inquietação.
Talvez uma parte da maturidade esteja justamente nessa percepção. Com o tempo, vamos descobrindo que nem todo silêncio precisa ser preenchido, que nem toda pergunta precisa de uma resposta imediata e que nem todo desconforto precisa ser transformado imediatamente em uma solução. Há coisas que precisam de cuidado, mas há também coisas que precisam de espaço. Aprender a distinguir umas das outras talvez seja uma maneira menos óbvia de aprender a medida.
E é curioso como, depois de pensar em tudo isso, aquela pequena ferida do começo da história volta à lembrança quase sem ser chamada. Imagino o corte já limpo, protegido, deixado em paz enquanto o restante do dia continua. Em algum momento, provavelmente esquecemos dele. Conversamos, trabalhamos, dormimos, acordamos e seguimos adiante, enquanto a pele continua seu trabalho silencioso. Não acompanhamos cada etapa, não sabemos exatamente quando a cicatrização começou ou terminou, e talvez seja justamente essa ausência de controle que torne a imagem tão sugestiva.
A ferida não precisa da nossa atenção permanente para seguir seu curso. Depois de certo ponto, continuar mexendo nela pode significar apenas que não confiamos no processo. E talvez exista aí uma diferença importante entre cuidar e controlar: cuidar é reconhecer o que precisa ser feito; controlar é sentir que precisamos continuar fazendo alguma coisa mesmo depois de termos feito o necessário.
Essa diferença não vale apenas para a pele. Há relações que precisam de conversa, mas que depois precisam de tempo. Há decisões que exigem reflexão, mas que em algum momento precisam ser deixadas para trás. Há dores que merecem ser compreendidas, mas que não precisam ser revisitadas todos os dias. Nem sempre a ausência de intervenção significa abandono; às vezes, significa respeito pelo tempo das coisas e pelos limites daquilo que podemos controlar.
Talvez seja por isso que eu tenha cada vez mais desconfiança das soluções que exigem sempre alguma coisa a mais. O excesso não está apenas naquilo que acumulamos, mas também naquilo que fazemos conosco. Exigimos demais, antecipamos demais, explicamos demais, ocupamo-nos demais e, muitas vezes, não deixamos sequer um pequeno espaço para que alguma coisa simplesmente aconteça. A vida vai ficando cheia de respostas antes mesmo que tenhamos tempo de entender as perguntas.
No começo, uma pequena ferida parecia apenas uma situação banal, dessas que resolvemos quase sem pensar. Aos poucos, ela foi se tornando uma imagem mais ampla daquilo que venho tentando compreender. Existe um momento em que o cuidado deixa de ser cuidado e se transforma em vigilância; em que a atenção se transforma em ansiedade; em que fazer alguma coisa é apenas uma maneira de não suportar a espera. Talvez a medida esteja justamente em reconhecer esse momento, antes que a nossa necessidade de controlar acabe ocupando o lugar daquilo que realmente precisava ser feito.
Depois de fazer a nossa parte, existe ainda uma parte que não nos pertence. A pele sabe disso. Ela segue seu curso sem pedir autorização, enquanto nós seguimos com a vida. Talvez aprender a fazer o mesmo, de vez em quando, seja uma forma discreta de diminuir o excesso. Não abandonar, não negligenciar, mas simplesmente reconhecer quando já fizemos o suficiente e permitir que o restante encontre seu próprio tempo.
É nesse ponto que o título deixa de ser apenas uma frase e passa a resumir aquilo que a pequena ferida acabou me ensinando: quando fazer menos é cuidar. Não porque toda intervenção seja excesso ou porque esperar seja sempre a melhor resposta, mas porque existe um momento em que continuar fazendo deixa de ser cuidado e passa a ser apenas dificuldade de confiar. E talvez reconhecer esse momento — saber quando agir e quando deixar acontecer — seja uma das formas mais difíceis e mais necessárias de encontrar alguma medida para a vida.
Palmarí H. de Lucena