A indignação popular não é, em si mesma, um problema. Em uma sociedade democrática, é natural que cidadãos se indignem diante da violência, da desigualdade, das dificuldades econômicas, da corrupção ou da precariedade dos serviços públicos. Muitas transformações começam justamente quando a sociedade deixa de aceitar passivamente aquilo que considera injusto. Uma população indiferente aos seus problemas dificilmente encontrará disposição para transformá-los.
O problema surge quando essa indignação deixa de ser uma reação legítima à realidade e passa a ser utilizada como instrumento permanente de mobilização política. Em vez de compreender as razões do descontentamento e apresentar respostas, torna-se mais conveniente ampliar a insatisfação, identificar adversários e manter a sociedade em constante estado de tensão. A raiva chama atenção, provoca reações imediatas e encontra nas redes sociais um ambiente especialmente favorável à sua circulação.
O Brasil conhece bem as razões do descontentamento popular. A violência preocupa comunidades inteiras; o custo de vida pesa sobre as famílias; jovens procuram oportunidades; persistem desigualdades profundas e cresce, em diferentes setores da sociedade, a desconfiança em relação às instituições. Ignorar essa realidade seria um erro. A indignação popular tem causas concretas e merece ser ouvida. O risco está em transformá-la apenas em combustível eleitoral.
Quando a frustração e a insegurança da população passam a alimentar permanentemente a disputa política, o debate pode se afastar da busca por soluções. Nesse ambiente, também se perde algo essencial: a civilidade. O confronto entre ideias, indispensável à democracia, começa a ceder espaço à desqualificação pessoal. O adversário deixa de ser alguém com quem se discorda e passa a ser apresentado como inimigo, ameaça ou obstáculo absoluto.
A democracia não exige concordância. Ela pressupõe diferenças. Partidos, movimentos e cidadãos possuem visões distintas sobre economia, segurança, políticas sociais e o papel do Estado. O desacordo não é uma falha da democracia; é parte de sua própria natureza. O que deveria preocupar é a perda da capacidade de discordar sem destruir as condições mínimas de convivência.
É possível defender convicções firmes sem abandonar o respeito. É possível criticar autoridades e instituições sem negar a legitimidade de quem pensa diferente. A civilidade não significa ausência de posições claras, nem concordância artificial. Significa reconhecer que o debate público pode ser rigoroso sem ser degradante e que o outro pode estar errado sem deixar de ser um interlocutor legítimo.
Essa perda de civilidade se torna ainda mais visível quando a política passa a valorizar a hipérbole. Tudo parece definitivo, urgente e extraordinário. Cada episódio é apresentado como uma crise sem precedentes; cada adversário, como uma ameaça excepcional; cada divergência, como uma batalha decisiva. O exagero se transforma em instrumento eficiente para conquistar atenção, especialmente em um ambiente digital que recompensa reações rápidas e mensagens emocionalmente intensas.
A consequência é curiosa e preocupante: fala-se muito de política e, por vezes, pouco de políticas públicas. Discute-se intensamente quem deve ser responsabilizado, mas nem sempre como determinado problema será resolvido. Conflitos ocupam o noticiário enquanto questões fundamentais — segurança, educação, saúde, emprego, crescimento econômico e redução das desigualdades — recebem respostas genéricas ou permanecem em segundo plano.
É necessário, portanto, distinguir a crítica institucional legítima da utilização permanente do conflito como estratégia política. Autoridades podem e devem ser questionadas. Instituições não estão acima da crítica. Os mecanismos constitucionais de responsabilização existem e fazem parte da vida democrática. Entretanto, ameaças de impeachment utilizadas como recurso constante de mobilização, ataques generalizados às instituições ou tentativas de desacreditar previamente o sistema eleitoral não constituem, por si mesmas, um programa de governo.
A pergunta necessária é outra: depois da crítica, o que se propõe? Depois da denúncia, qual é o caminho? Depois da indignação, quais políticas públicas serão apresentadas?
Governar exige mais do que contestar. Exige estabelecer prioridades, administrar recursos, fazer escolhas e responder pelas consequências dessas escolhas. A hipérbole pode mobilizar uma multidão, mas não administra um orçamento. Pode dominar as redes sociais, mas não melhora uma escola. Pode produzir manchetes, mas não reduz a violência por si só. Pode transformar uma liderança em assunto permanente, mas não substitui políticas consistentes para a saúde, a educação, a economia ou a segurança pública.
Também os cidadãos possuem responsabilidade na formação desse ambiente. Cada informação compartilhada sem verificação, cada ofensa dirigida a quem pensa diferente e cada tentativa de transformar uma divergência política em ataque pessoal contribuem para ampliar a hostilidade. Apoiar uma liderança não significa concordar com tudo; criticar um governo não exige rejeitar todas as suas iniciativas. Reconhecer um acerto do outro lado não deveria ser considerado uma derrota.
A classe política, contudo, tem responsabilidade especial. Lideranças públicas ajudam a definir o tom da convivência nacional. Quando a agressividade se transforma em linguagem habitual, a hostilidade tende a ultrapassar os espaços institucionais e alcançar as redes sociais, as famílias e as relações cotidianas.
O desafio brasileiro não é eliminar as diferenças nem silenciar a indignação popular. É ouvi-la sem transformá-la em espetáculo permanente. É preservar a crítica sem abandonar a responsabilidade. É recuperar a capacidade de discordar com firmeza, mas também com civilidade.
Talvez a pergunta mais importante para o eleitor não seja apenas contra quem determinado candidato se posiciona, mas a favor de quê. Quais são suas propostas? Como pretende enfrentar os problemas reais da população? De que maneira suas ideias poderão ser transformadas em políticas públicas?
A política continuará sendo um espaço de conflitos, como é próprio de uma sociedade livre. Mas elevar o tom não significa elevar a qualidade do debate. A indignação pode revelar um problema; a crítica pode expor uma falha. Nenhuma delas, porém, substitui a responsabilidade de construir soluções.
É nessa passagem — da indignação à proposta, do confronto à responsabilidade — que a política encontra sua função mais necessária: não administrar permanentemente a raiva da sociedade, mas ajudar a transformar suas legítimas inquietações em respostas para melhorar a vida das pessoas.
Palmarí H. de Lucena